Quero dar atenção às histórias mais prosaicas; quero ter tempo para as falas mais suaves. Com isso quero dizer que quero olhar de perto todos. Sorver, lamber a vida de quem vive só porque é isso que se deve fazer: viver.
Eu não vivo. Existir é contra viver – dói nos lombos. Disse Deus: Cinge teus lombos! “Tira a sandália dos teus pés O solo é santo!”. É despojar-se e mergulhar no quase inumano, ou isso não seria mesmo o que há de mais humano? A peça mal talhada, a vida na sofreguidão de um escorregão. O desejo puro. A opacidade da convicção. É o desvelar de si mesmo. Eu mesmo em minha carne mais crua. Nua e transparente. Um acinte aos outros? Talvez. Quiçá. Aí sim, é preciso estar “ atento e forte” e não ter medo de encarar o nu do mundo e seu branco gelo. ha! Às favas como branco translúcido. A vida é uma; de cor e paixão... Vinício que tão sabiamente casou-se tantas vezes, no ritmo do vão amor. Eu sei você me diz que é vão. Sei nos meus rins...Mas não pude evitar desejá-lo tão ardentemente como agora e lutar contra a fúrias de todos os deuses que tentam calar a voz do pobre cego Bartimeu. Sou eu: O pore e cego Bartimeu clamando por sua cura. Não me impeça.
Antes de um acordo ideal entre o dito e o dizer, queremos dar lugar à suprema diferença entre o dito e o dizer de quem fala, e que leve em conta também a possibilidade de modificarmos nossa posição subjetiva em relação ao dito.
sábado, 28 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
A poesia não pode parar.
Porque da ordem de um raio foi a foto que vi. Quando vi o garoto livre dançando com seus amigos. Numa alegria sem fim e vivendo sua vida impensada e irrefletida. Ele faz parecer ser fácil viver na égide do desejo; sem culpa e sem amarras. Essa nova geração de garotos que soube escapar às vergonhas da vileza. Voaram longe. Deles sinto uma inveja; não que quisesse ser eles, porque sinto que não seria esse meu destino, mas a nostalgia de que eu poderia ter sido isso e aquilo, sem ter que fazer necessariamente uma escolha entre a dignidade e vileza. É dessa falta de medo de encarnar o próprio rito de ser gente que me causa inveja. Nada destruidor, mas contra mim cobra um preço de que estou no meu corpo sem estar. Eis que se deve dar um destino a tudo isso que vibra e pulsa nas carnes, sangue e órgãos. Que ele pulse, dance, se sacuda – é um destino. Que ele se ilumine ao ponto de causar as mais desavergonhadas risadas; está aí o sentido de extrapolar as roupas e a maquiagem. Travestir-se se quiser. Fantasiar-se de si mesmo, porque o si mesmo não existe. Assim, ainda há tempo de criar minha própria metáfora transgênica? ha! Se estavam certos os gregos! Que no corpo habita a certeza de quem se é. Um suplício fascinante olhar nessa foto o que eu nunca fui e hoje já não desejo tão ardentemente ser, e mesmo assim ainda sei que essa pulsação está aqui. Dar uma roupa a tudo isso é minha tarefa neste momento. Encontrar minha cara, meu dizer, meu fazer e se tudo isso redundar em amor, que bom.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Ficar sozinho.
Um ótimo video que veio bem na hora. Na hora em que eu mais preciso estar só, e ainda si dói, mas estar só parecer ser meu mais belo sintoma.. Quero abraçá-lo, pois bem.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Juazeiro vale a pena sonhar.
Minha demora em atualizar o blog estes dias facilmente se explica:
Além de ter me mudado a pouquíssimo tempo de volta à terra do Sol, precisei fazer uma rápida viagem para Juazeiro do Norte. Fui visitar minha irmã e cunhado que agora fazem do sertão central sua casa.Na oportunidade participei de um evento da Faculdade Leão Sampaio no qual apresentei a conferência “ Psicanálise: ainda vale a pena sonhar".
Encontrei na faculdade Leão Sampaio um ambiente acolhedor e alunos ávidos pelo conhecimento. Confesso que fui pego de surpresa; não esperava muito desta viagem porque o interior do Maranhão é uma pobreza só e só flagelos. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar um auditório cheio de pessoas interessadas na psicanálise e seu saber. A experiência foi marcante e muito gratificante. Senti um grande privilégio em falar em defesa da psicanálise bem no meio do sertão! Algo como ser remetido ao deserto do real de Zizek. É por ser causa do desejo que o Real não cessa de se escrever em nossa experiência humana e o saber, como o conhecemos na ciência, faz incessante borda a este tão conhecido conceito psicanalítico, fonte de perene angustia.
Marcus César e Tássia estão absolutamente de parabéns pelo maravilhoso trabalho que têm desenvolvido junto aos alunos. As instalações da faculdade são excelentes e o ambiente é bastante propício ao trabalho. Meu desejo é que eles continuem o bom trabalho e jamais desanimem da tarefa de estimular outros ao saber. Ser professor é, mais do que qualquer outra coisa, uma vocação quase patológica, pois aquele que ensina não ensina somente para os outros: ele ensina a si mesmo.
O professor precisa de sua fala perante o outro; é ensinando que, um professor vocacionado, dá sentido à sua doença de ser viciado em de tudo saber. Aí está o sentido do ensino que eu espero ver se desenvolver na jovem Leão Sampaio. Parabéns Marcus! Um abraço também ao Paulo Coelho e Raul, todos ex alunos da UNIFOR que exercem agora seu tão almejado sonho de futuro.
A conferência que ministrei na Leão Sampaio você pode ler na íntegra logo aqui :
A conferência que ministrei na Leão Sampaio você pode ler na íntegra logo aqui :
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Sonhos ...Quicá!
Não sabemos mais aonde vamos parar. Agora a grande ciência quer controlar nossos sonhos. Que coisa ein? Qual seria a conseqüência disso?
Já se passaram mais de cem anos desde a mais importante obra de Freud, A interpretação dos Sonhos. O livro representa um texto fundador do discurso psicanalítico exatamente porque aponta que os sonhos traziam em si um sentido cifrado; uma mensagem inconsciente plena de sentido e ávida por ser desvendada. O sonho tornou-se então a marca da presença do desejo inconsciente, conceito primordial para a teoria psicanalítica. Foi nesta obra que Freud forjou a célebre frase: “ O sonho é e via régia que conduz ao inconsciente”. Anos de prática clínica puderam comprovar que os sonhos são a melhor via de acesso ao desejo do sujeito do inconsciente. Se assim é verdade, o que acontece quando alguém se angustia por seus sonhos e procura um especialista- um tecnocientista- para resolver e controlar seu sonho? É possível controlar o desejo? É possível controlar a palavra do inconsciente?
A tecnociência parece não conhece limites; assim minha pergunta já está respondida já que superabundam as técnicas e psicoterapias que são bem sucedidas em controlar e disciplinar o desejo. A questão agora é saber que tipo de sujeito vai emergindo na aurora do século XXI.
O fato das pessoas estarem procurando especialistas para controlar seus sonhos demonstra que hoje em dia não é mais interessante procurar o sentido ou a origem da angustia. Ninguém mais quer se perguntar por que se angustia; muito menos quer ter o trabalho de colocar em palavras ( ou não pode mais!) o que lhe pesa. A tecnociência busca, cada dia mais, cifrar o déficit dentro de uma norma e mensurar a deficiência ou o trauma a fim de evitar interrogar-se sobre sua origem ( ROUDINESCO, 2005, p. 89). Enquanto em outras épocas o sonho era marca de uma singularidade e subjetividade, hoje o sonho é um trauma a ser reparado, apreendido e moldado segundo o senhorio da consciência. É interessante notar que quando Freud iniciou os trabalhos com A Interpretação dos Sonhos ele estava ainda no processo de elaboração da morte de seu pai. Sabemos que a morte de seu pai foi um forte golpe sobre o jovem Freud, mas foi também por meio da análise de seu luto que grandes descobertas foram feitas para o nosso bem. E grande parte de seu luto e do que emergiu da morte de seu pai apareceram em seus sonhos/ pesadelos. A grande sacada da psicanálise foi de desvendar que por trás de nossas ações e pensamentos está o desejo de um sujeito cindido entre pensamento e emoção- demanda e necessidade.
Fico bastante assustado com a profusão de aparelhagem tecnológica que se propõe a dar fim ao sentido mitológico da existência humana. De nossas possibilidades de nos investigarmos livremente. Agora que medo será viver numa sociedade na qual as pessoas não mais contarão seus sonhos uns aos outros criando a boa conversa de rodinha.... Tive um sonho com cobra! Há cobra ...Tão falando mal de você! Ou outras interpretações que fazem circular as palavras e ao mesmo tempo dão alguma chance para que alguém se investigue, olhe para si mesmo e desvende sua vida interior. Ninguém mais vai acordar intrigado com o que sonhou; simplesmente, agora, podemos ligar para o médico e dizer: --Olá Dr., tive um sonho ruim. Você teria horário hoje para me atender?Eu gostaria de mudar meu pesadelo de hoje!
A tentação é enorme, senão vejamos qual a proposta dos cientistas : (...) muitos terapeutas usam intervenções comportamentais para reduzir os pesadelos ou guiar o paciente em direção a um "mastery dream" – usando a mente consciente para controlar a maneira selvagem do inconsciente ( ...) ou (...) Mude o pesadelo como quiser”, diz o manual. “Deixe que novas imagens positivas surjam no olho da sua mente para guiá-lo a ‘pintar’ o novo sonho (...).
A tentação é enorme, senão vejamos qual a proposta dos cientistas : (...) muitos terapeutas usam intervenções comportamentais para reduzir os pesadelos ou guiar o paciente em direção a um "mastery dream" – usando a mente consciente para controlar a maneira selvagem do inconsciente ( ...) ou (...) Mude o pesadelo como quiser”, diz o manual. “Deixe que novas imagens positivas surjam no olho da sua mente para guiá-lo a ‘pintar’ o novo sonho (...).
Quem sabe no futuro não tão distante ninguém mais sonhe...Ou pior ainda, quem sabe daqui a pouco ninguém conte nada a ninguém e cada um de nós saberá a qual especialista deve recorrer quando sentir vontade de endereçar algum sofrimento a alguém. Não tenho muitas dúvidas de que hoje afeta-nos uma crise de endereçamento; não sentimos mais que é legítimo endereçar uma demanda a outra sujeito.O rosto paranóico da ciência brilha bem mais forte que os semblantes do Grande Outro. Previsão apocalíptica? Certamente, mas penso que as trombetas já estão soando...
Nesse contexto questiono:
Cairemos todos num sono profundo livre de sonhos, pesadelos e desejo? Continuaremos sendo humanos como sempre fomos? Eis a pergunta lançada.
REFERÊNCIAS
ROUDINESCO,E. O paciente, o terapeuta e o Estado. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
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