terça-feira, 17 de agosto de 2010

Juazeiro vale a pena sonhar.



Minha demora em atualizar o blog estes dias facilmente se explica:
Além de ter me mudado a pouquíssimo tempo de volta à terra do Sol, precisei fazer uma rápida viagem para Juazeiro do Norte. Fui visitar minha irmã e cunhado que agora fazem do sertão central sua casa.Na oportunidade participei de um evento da Faculdade Leão Sampaio no qual apresentei a conferência  “ Psicanálise: ainda vale a pena sonhar". 

Encontrei na faculdade Leão Sampaio um ambiente acolhedor e alunos ávidos pelo conhecimento. Confesso que fui pego de surpresa; não esperava muito desta viagem porque o interior do Maranhão é uma pobreza só e só flagelos. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar um auditório cheio de pessoas interessadas na psicanálise e seu saber. A experiência foi marcante e muito gratificante. Senti um grande privilégio em falar em defesa da psicanálise bem no meio do sertão! Algo como ser remetido ao deserto do real de Zizek. É por ser causa do desejo que o Real não cessa de se escrever em nossa experiência humana e o saber, como o conhecemos na ciência, faz incessante borda a este tão conhecido conceito psicanalítico, fonte de perene angustia. 

Marcus César e Tássia estão absolutamente de parabéns pelo maravilhoso trabalho que têm desenvolvido junto aos alunos.  As instalações da faculdade são excelentes e o ambiente é bastante propício ao trabalho. Meu desejo é que eles continuem o bom trabalho e jamais desanimem da tarefa  de estimular outros ao saber. Ser professor é, mais do que qualquer outra coisa, uma vocação quase patológica, pois aquele que ensina não ensina somente para os outros: ele ensina a si mesmo. 

O professor precisa de sua fala perante o outro; é ensinando que, um professor vocacionado, dá sentido à sua doença de ser viciado em de tudo saber.  Aí está o sentido do ensino que eu espero ver se desenvolver na jovem Leão Sampaio. Parabéns Marcus! Um abraço também ao Paulo Coelho e Raul, todos ex alunos da UNIFOR que exercem agora seu tão almejado sonho de futuro.

A conferência que ministrei na Leão Sampaio você pode ler na íntegra logo aqui :


PSICANÁLISE, AINDA VALE A PENA SONHAR.
Conferência apresentada na Faculdade Leão Sampaio, Juazeiro do Norte.

Recentemente um amigo me propôs uma questão bastante pertinente : você acha que há futuro para a psicanálise hoje em dia já que o homem  pós- moderno” encontra várias outras formas de resolver seu sofrimento  sem precisar procurar um analista?

Gostaria de tentar responder esta pergunta hoje.  Ás vezes duvido um pouco se o  homem chamado “ pós moderno” é tão pós assim. Não estou certo de que os sofrimentos de hoje sejam realmente diferentes de outrora. O homem continua sofrendo das mesmas dores: sofre por amor, sofre por falta de amor, sofre por suas perdas, sofre porque a natureza sempre se impõe, seja por sua força descomunal quando resolve nos aniquilar como um terremoto ou com uma nova pestilência ou pela força dos genes contra a qual não há salvação. O homem sofre porque continua a desejar e o mundo continuamente lhe priva a satisfação completa de seus desejos. É como Freud postulou no Mal-Estar na Cultura, sofremos porque somos uma espécie frágil e desamparada em um mundo que nos é hostil. O que mudou então? 

Mudou sim as formas que o homem encontra para aplacar o seu sofrimento. Enquanto o homem moderno ( século XVIII. XIX) era o homem angustiado; o homem das letras, dos estudos, das indagações, aquele que se questionava sobre o sentido da vida e buscava nos idéias humanistas tal solução, o homem pós-moderno não encontra mais em sua cultura ferramentas que lhe coloquem em causa. O que ele encontra são tapumes prontos para lhe fechar as questões: psicotrópicos, muito entretenimento e pouca cultura. Basicamente é isso. Entretenimento é diferente de cultura. A cultura nos põe em causa: um livro, uma peça de teatro, a música, as artes plásticas...Tudo isso nos causa desejo; coloca em questão o que nos falta e produz a boa angustia, como o bom colesterol. Já o entretenimento meramente produz fixidez na promessa de que aquele momento de alegria, de gozo e felicidade pode durar para sempre. São os vídeos games, a internet, os bate papos ( que carregam na virtualidade a promessa e intimidade), o sexo fácil e fugaz ( até porque mesmo o sexo fácil nunca é fácil, já que no sexualidade nada é fácil!), a proliferação das religiões ( especialmente evangélicas e exotéricas ) que prometem resolver todos os problemas. Ou seja, o mundo de hoje assumiu para si o slogan da IURD: PARE DE SOFRER!

E a psicanálise como fica ?
Observamos hoje inúmeros avanços tecnológicos, e não é demais dizer que grande parte deles se deram no âmbito das ciências da comunicação. Enquanto o fetiche de um mundo tecnológico, animado no desenho os Jetsons era de um mundo de praticidade nas tarefas mais triviais do dia-a-dia, o que vemos hoje são cabos, fibra óptica, internet, iphone, Orkut, facebook,Blogs, MSN, my Space, Sonico, twitter e etc.  Isso atesta que nos últimos anos esse apelo a nos ligarmos uns aos outros está inflacionado. É claro que essas formas de contatos são diferentes das modalidades cara-a-cara, entretanto, o elemento motivador, a tendência a promoção de laços continua atuante, pelo menos por enquanto.  Esse elemento motivador que a psicanálise chamou de libido, ou a energia de Eros, cobra sempre incansáveis investimentos, sobretudo na esfera do amor e da sexualidade.
Foi exatamente esta inquietação com a falta vivida como falta de amor ou insatisfação sexual que deu origem à invenção da psicanálise. Se para inventar a psicanálise precisamos de pessoas sofrendo por amor, eis que nosso século ainda é um campo fértil para nosso trabalho. Foi exatamente isso que Freud apreendeu de suas experiências no tratamento de pacientes histéricas- as queixas e sintomas das histéricas apontavam exatamente para esse núcleo sexual traumático no ser humano.
            A resposta de Freud ao drama das histéricas é o oposto do convite da IURD- do pare de sofrer ao não pare de sofrer, ainda. O trabalho de um analista  é basicamente dizer: não pare de sofrer,Ainda. Parar de sofrer antes do tempo é o que pode haver de mais sabotador na vida de alguém. O sofrimento tem a função de nos colocar em xeque: ele abala nossas certezas. E um homem é feito de certezas- o que é a personalidade senão esse conjunto de certezas que construímos ao longo da vida em resposta ao que pedem e demandam de nós?  Nossa identidade é nossa certeza, e é exatamente nossa certeza de que quem nós somos que nos faz sofrer. Estamos certos de quem somos e, portanto rígidos frente à vida; e a vida nunca respeita nossas certezas. Lacan dizia também que sofremos de uma doença terrível, e é a pior doença, pois é através dela que nos reproduzimos: o sexual. O sujeito para a psicanálise é inexoravelmente trespassada por um conflito psíquico cuja origem é de sermos seres para a fala, como diria Lacan, um “ falaSSER”. O mal –estar da diferença sexual e dos mistérios de nossas origens estão sempre lá há nos mover e, sempre, a nos fazer sofrer. As histéricas, paradigma da neurose em psicanálise, sofrem de uma insatisfação crônica no âmago do seu ser. Freud, assim, inventou uma estratégia tratar esta angustia que advém deste vazio, ou como conhecemos, a falta.
A psicanálise ensina que vivemos sempre no sentido de retornar nostalgicamente ao momento no qual éramos plenos — aquele momento de completude narcísica que tanto aponta para nossa gênese ontogenética, no encontro com o outro ( mãe) e para nossa história filogenética, o objeto para sempre perdido de nossa história evolutiva. Eis a falta nesta passagem fundamental da natureza pra cultura que desnaturalizou para sempre os objetos de satisfação inaugurando um tipo de relação do homem com os objetos que não é determinada somente pelo biológico  ( instinto), que não tem relação direta entre o objeto e sua função. Os animais, vocês sabem, acasalam em seus períodos de cio e fora disso o sexo não é um problema para eles que podem se preocupar com seus outros afazeres. Já nós humanos, não transamos só para reprodução — alguns transam com árvores, animais, com um objeto fetiche e outros, mais pirados, até mesmo com o universo!  Isso tudo para lhes mostrar que no mundo simbólico dos humanos a necessidade é intermediada pelo universo das representações. Aparece então, o conceito de pulsão que tanto conhecemos e a máxima psicanalítica de que desejo não escolhe objeto, ou seja, qualquer objeto pode se apresentar como alvo da pulsão.  O alvo da pulsão é indiferente e irá se inscrever de acordo com a singularidade do desejo de cada um.
Uma questão interessante é que, como conseqüência do mundo natural ser intermediado pelo mundo das representações, resta sempre algo de inassimilável. Há sempre um resto que sobra como uma fissura nesta rede simbólica que tenta dar conta da realidade. Este resto nada mais é que a nossa tão conhecida angustia e seus efeitos. Se tão somente pararmos para pensar um pouco veremos que nosso pequeno drama familiar repete nossa história como espécie humana.  Marcados pela falta do objeto pleno, ou seja, de nossa ligação instintiva com a natureza; marcados pela falta como sinete de nosso antigo lugar de animais nesse mundo, agora precisamos dar conta deste oco criado por nosso salto evolutivo; a marca em nós deixada pela entrada do significante instaurador da ordem simbólica. Na família temos nosso papai ou sua função que se intromete justamente ai na relação de harmonia e sentimento de completude que sentimos no seio da mamãe. Papai nos introduz no angustiante mundo da falta, onde começamos a ver que não somos tão relevantes assim para que o mundo seja perfeito ou que somos o motivo da felicidade da mamãe! Assim que há dois momentos muito específicos de instauração daquilo que conhecemos tanto como neurose: a ruptura da relação dual entre mãe e filho e a descoberta da diferença sexual. Nesta primeira fase, a figura do pai entra como aquele terceiro interveniente que introduz a lei que interdita nosso primeiro objeto de amor. Esta interdição instaura em nós a “Lei do desejo”, que nos põe a rodar toda vida à procurar um sentido para nossa insatisfação. O segundo momento, o da diferença sexual trás à tona o velho conceito de castração: nossa descoberta de quem nem todo mundo foi agraciado com um pênis. Desta constatação podemos tirar várias conseqüências, mas a principal deles é que a sexualidade humana, não mais está situada simplesmente nos ciclos biológicos do instinto, é sempre traumática. Como vivemos esta experiência traumática de sermos seres que precisamos nos inserir na partilha dos sexos é que definirá nossa estrutura psíquica. Isto é, podemos responder a este trauma neurótica, psicótica ou perversamente.
Assim, nesta pequena novela familiar encontramos uma rede de elementos através dos quais podemos nos referendar. Situamos nisto o Outro a quem vamos nos dirigir. Não somos mais simplesmente “ Rafaéis” ou “ Marcus”, somo Rafael Pinheiro e Marcus Belmino, filhos de alguém; inseridos numa rede de relações através das quais apreendemos algo da enigmática significação de nós mesmos. Vivemos numa estrutura de parentesco na qual podemos assumir funções diferentes em relação aos seus membros. Com papai eu sou filho, em relação aos meus filhos sou pai ou mãe e assim vai. No entanto, o universo simbólico ao qual me refiro é também o universo da mais radical arbitrariedade, ou seja, as palavras não são as coisas que elas designam. Assim, seu sentido deixa sempre margem para as mais diferentes interpretações. É por isso que essa estrutura que chamamos fantasia não nos protege em definitivo sobrando sempre disso o que denominamos de sofrimento psíquico.
O que pode então a psicanálise fazer por alguém que sofre?

Ao contrário da medicina ou da maioria das psicoterapia, a psicanálise não parte de um padrão de saúde dito como normal e então utiliza-se de uma terapêutica a fim de curar o paciente. Uma psicanálise inclui um posicionamento ativo do analisando em seu processo e, principalmente em seu sofrimento. Uma psicanálise não conduz a um destino pré-estabelecido. Pelo contrário, numa análise, alguém só descobre seu destino no caminho. Um analista no máximo caminha ao lado ou um passo atrás. Uma psicoterapia pretende eliminar um sintoma, uma queixa trazida. Uma análise não possui a eliminação do sintoma como principal meta. A meta de uma análise é, antes de tudo , que alguém se dê conta de sua participação em seus sofrimentos; que alguém se dê conta de sua responsabilidade e , acima de tudo, de seu desejo. O percurso de alguém que faz análise é uma verdadeira “ reinvenção” de sua história de vida. Aquele que faz uma análise é alguém que tem a possibilidade de construir sua própria ética; é alguém que planta sua própria árvore do conhecimento do bem e do mal e dela come, sem culpa. E por comer deste fruto percebe, inexoravelmente, que está nu. Mas, o desamparo produzido por uma experiência analítica não paralisa, antes lança o sujeito no mundo que, se é espinhoso e cheio de abrolhos possibilita também o trabalho e a criatividade.
Imagino que muitos de vocês ainda se perguntem  por que fazer uma análise e o que realmente faz um analista. Dizer por que alguém faz uma análise é difícil, as talvez um bom começo seria dizer que o sofrimento, o medo, ou seja, a angustia levam alguém ao divã. Não há pílula para o medo, para a indecisão; não há remédio para os anseios da alma, estes, só se expressam em nossas tentativas cambaleantes de dar sentido a uma vida, que, de forma imanente, não tem nenhum sentido. A verdade da ciência não aplaca a angustia posto que, as descobertas científicas só reafirmam o não-sentido da vida. A religião também falha, já que os sentidos são inflexíveis e entregues prêt-à-porté, isto é, está lá, antes de nós. 

Uma análise também não pode tudo. Mas, pode alguma coisa. O que ela pode é dar ao sujeito a chance de, do não-sentido e vazio da existência, criar algo que é só seu- sua verdade. E a verdade aqui é a ficção própria que cada sujeito irá realizar sob a escuta atenta de um analista. Aquilo que era da ordem de um sofrimento irá falar, e falar elegantemente.

Voltemos agora à pergunta do meu colega do início de minha fala. Hoje em dia, ainda vale a pena procurar um psicanalista? A ciência parece estar resolvendo todas as questões relativas ao sofrimento humano e a cada dia mais não poupa esforços em encontrar soluções para o encontro para sempre traumático do homem com a sexualidade e a morte. Basta vermos que os maiores esforços dos cientistas estão focados na engenharia genética, reprodução sexual e fórmulas de juventude eterna.
Recentemente especialistas nos Estados Unidos experimentam novas técnicas que pretendem controlar os sonhos para evitar pesadelos angustiantes.Algumas dessas técnicas vêm sendo usada há anos. Num tratamento, conhecido como sonho lúcido, os pacientes são ensinados a se tornar conscientes de que estão sonhando, enquanto sonham.
O médico Barry Krakow, do Centro Maimonides de Artes e Ciência do Sono, em Albuquerque, Novo México, autor de “Sound Sleep, Sound Mind”, ajudou a desenvolver uma terapia de ensaio de imagens. Num manual de 110 páginas que oferece aos pacientes, ele faz com que as pessoas escolham um pesadelo que querem transformam em sonho de menor intensidade.“Mude o pesadelo como quiser”, diz o manual. “Deixe que novas imagens positivas surjam no olho da sua mente para guiá-lo a ‘pintar’ o novo sonho”.
                                      
A tecnociência parece não conhece limites; se eles vão conseguir controlar os sonhos não é uma dúvida; certamente que sim. Hoje, superabundam as técnicas e psicoterapias que são bem sucedidas em controlar e disciplinar o desejo. A questão agora é saber que tipo de sujeito vai emergindo na aurora do século XXI. Que efeito soluções para o sofrimento psíquico que não passam pela via da responsabilização do sujeito têm sobre nós humanos?  Quais as conseqüências disso?
Já se passaram mais de cem anos desde a mais importante obra de Freud, A interpretação dos Sonhos.  O livro representa um texto fundador do discurso psicanalítico exatamente porque aponta que os sonhos traziam em si um sentido cifrado; uma mensagem inconsciente plena de sentido e ávida por ser desvendada. O sonho tornou-se então a marca da presença do desejo inconsciente, conceito primordial para a teoria psicanalítica.  Foi nesta obra que Freud forjou a célebre frase: “ O sonho é e via régia que conduz ao inconsciente”. Anos de prática clínica puderam comprovar que os sonhos são a melhor via de acesso ao desejo do sujeito do inconsciente. Se assim é verdade, o que acontece quando alguém se angustia por seus sonhos e procura um especialista- um tecnocientista- para resolver e controlar seu sonho? É possível controlar o desejo? É possível controlar a palavra do inconsciente?
                                     

O fato das pessoas estarem procurando especialistas para controlar seus sonhos demonstra que hoje em dia não é mais interessante procurar o sentido ou a origem da angustia. Ninguém mais quer se perguntar por que se angustia; muito menos quer ter o trabalho de colocar em palavras ( ou não pode mais!) o que lhe pesa
 A tecnociência busca, cada dia mais, cifrar o déficit dentro de uma norma e mensurar a deficiência ou o trauma a fim de evitar interrogar-se sobre sua origem ( ROUDINESCO, 2005, p. 89). Enquanto em outras épocas o sonho era marca de uma singularidade e subjetividade, hoje o sonho é um trauma a ser reparado, apreendido e moldado segundo o senhorio da consciência.  É interessante notar que quando Freud iniciou os trabalhos com A Interpretação dos Sonhos ele estava ainda no processo de elaboração da morte de seu pai.

Sabemos que a morte de seu pai foi um forte golpe sobre o jovem Freud, mas foi também por meio da análise de seu luto que grandes descobertas foram feitas para o nosso bem. E grande parte de seu luto e do que emergiu da morte de seu pai apareceram em seus sonhos/ pesadelos.  A grande sacada da psicanálise foi de desvendar que por trás de nossas ações e pensamentos está o desejo de um sujeito cindido entre pensamento e emoção- demanda e necessidade. 
Fico bastante assustado com a profusão de aparelhagem tecnológica que se propõe a dar fim ao sentido mitológico da existência humana. De nossas possibilidades de nos investigarmos livremente. Agora que medo será viver numa sociedade na qual as pessoas não mais contarão seus sonhos uns aos outros criando a boa conversa de rodinha.... Tive um sonho com cobra! Há cobra ...Tão falando mal de você! Ou outras interpretações que fazem circular as palavras e ao mesmo tempo dão alguma chance para que alguém se investigue, olhe para si mesmo e desvende sua vida interior. Ninguém mais vai acordar intrigado com o que sonhou; simplesmente, agora, podemos ligar para o médico e dizer: --Olá  Dr., tive um sonho ruim. Você teria horário hoje para me atender?Eu gostaria de entrar no meu sonho e mudar meu pesadelo! Não quero mais sentir angustia!”

Talvez estejamos vivendo  tempos em que uma “nova economia psíquica” conclama ao sujeito para uma nova empreitada subjetiva.  “Sob as asas da “hipermodernidade” ninguém parece propor mais questões; parece que o “Isso” já não fala mais; O “Isso” não mais conclama o sujeito a se questionar sobre si e sobre seu Desejo. A verdade e o saber não mais são colocados em cena hoje como o eram no início da Modernidade. O laço dominante em nossa sociedade já não é mais o discurso do mestre moderno, onde ainda restava à ciência a primazia de saber algo sobre o homem. Hoje o que caracteriza o laço social é o discurso capitalista onde a relação de saber/ verdade dá lugar a um hibridismo entre a ciência e tecnologia na qual a performance toma o palco central.
              
Os avanços científicos e tecnológicos constantes têm como objetivo supremo aplacar todo sofrimento, aliviar a dor de existir num mundo que nos é constantemente antagônico, não só no que tange ao lugar do homem como animal, mas também sua constituição como sujeito sócio-psíquico. Freud aponta que a empresa de nos tornamos felizes como raça humana a qual o princípio do prazer nos impõe, jamais poderia ser realizada, contudo o homem não pouparia esforços para atingir seu objetivo. Para Freud, a felicidade neste sentido constitui um problema para a economia pulsional do sujeito: “... não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo” (Freud, 1930/1980. p.103). Podemos dizer então, seguindo nosso raciocínio, que cada homem deve tentar descobrir por si mesmo de que modo específico ele irá encontrar a sua forma de tratar a morte com a qual sua inserção na linguagem lhe feriu

            Quem sabe no futuro não tão distante ninguém mais sonhe...Ou pior ainda, quem sabe daqui a pouco ninguém conte nada a ninguém e cada um de nós saberá a qual especialista deve recorrer quando sentir vontade de endereçar algum sofrimento a alguém. Não tenho muitas dúvidas de que hoje afeta-nos uma crise de endereçamento; não sentimos mais que é legítimo endereçar uma demanda a outra sujeito.O rosto paranóico da ciência brilha bem mais forte que os semblantes do Grande Outro. Previsão apocalíptica? Certamente, mas penso que as trombetas já estão soando...
 Nesse contexto questiono:

Cairemos todos num sono profundo livre de sonhos, pesadelos e desejos?  Continuaremos sendo humanos como sempre fomos? Eis a pergunta lançada. Obrigado.

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