terça-feira, 24 de agosto de 2010

A poesia não pode parar.



Porque da ordem de um raio foi a foto que vi. Quando vi o garoto livre dançando com seus amigos. Numa alegria sem fim e vivendo sua vida impensada e irrefletida. Ele faz parecer ser fácil viver na égide do desejo; sem culpa e sem amarras. Essa nova geração de garotos que soube escapar às vergonhas da vileza. Voaram longe. Deles sinto uma inveja; não que quisesse ser eles, porque sinto que não seria esse meu destino, mas a nostalgia de que eu poderia ter sido isso e aquilo, sem ter que fazer necessariamente uma escolha entre a dignidade e vileza. É dessa falta de medo de encarnar o próprio rito de ser gente que me causa inveja.  Nada destruidor, mas contra mim cobra um preço de que estou no meu corpo sem estar.  Eis que se deve dar um destino a tudo isso que vibra e pulsa nas carnes, sangue e órgãos. Que ele pulse, dance, se sacuda – é um destino. Que ele se ilumine ao ponto de causar as mais desavergonhadas risadas; está aí o sentido de extrapolar as roupas e a maquiagem. Travestir-se se quiser. Fantasiar-se de si mesmo, porque o si mesmo não existe. Assim, ainda há tempo de criar minha própria metáfora transgênica?  ha! Se estavam certos os gregos! Que no corpo habita a certeza de quem se é.  Um suplício fascinante olhar nessa foto o que eu nunca fui e hoje já não desejo tão ardentemente ser, e mesmo assim ainda sei que essa pulsação está aqui. Dar uma roupa a tudo isso é minha tarefa neste momento. Encontrar minha cara, meu dizer, meu fazer e se tudo isso redundar em amor, que bom.  

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