( ...) Escapa-lhe, entretanto, sem demora, o que alcança,de sorte que Eros jamais empobrece nem enriquece.Ocupa o lugar situado entre o saber e a ignorância.
O Banquete.
O que faz um psicanalista em uma análise é justamente apontar, com elegância, o lugar do sujeito, esse espaço entre o saber a ignorância. E que lugar pode ser esse senão o do Desejo? Sim, o sujeito do Desejo, sujeito do inconsciente por excelência na Psicanálise. Nos dois extremos encontramos dois lugares impossíveis: um da sabedoria plena e no outro da completa ignorância. Nenhum neurótico pode ocupá-lo. No saber absoluto paira o olhar medusante da psicose e quem quer que tenha tido uma infância não está na completa ignorância - há sempre um saber, inconsciente, todavia. Assim, resta ao que não é nem sábio ( não conhece a Verdade) e ao que não é completamente ignorante ( posto que porta um saber que não sabe que sabe) habitar nas intermitências do desejo de saber. Em Psicanálise este desejo é de saber algo sobre sua própria origem como sujeito: de onde venho? Quem é Outro pra mim? O que fiz da Palavra que me deu o Outro?
O psicanalista é alguém que, manejando bem a transferência, isto é,ocupando o lugar daquele que na fantasia do analisando sabe algo que este não sabe por si só, irá opinar corretamente. Explico-me.
“- Não-sábio é, por ventura, ignorante? Não percebes que entre o saber e ignorar existe algo?
-O quê?
-Opinar corretamente. Não sabes desvendar o fundamento ( de que forma ignorar o fundamento poderia ser conhecer?) nem apresentar a ignorância. Não pode ser ignorância apontar a coisa sob teu olhar. A opinião correta ocupa um lugar intermediário entre o entendimento e a ignorância”
O Banquete.
Se o analisando pensa estar ignorante de seu próprio Saber não é porque não o tem, mas porque não sabe que sabe. O analista, entretanto, porque já passou por uma psicanálise, sabe que sabe que não sabe. Para que haja análise então, o analista mesmo precisa ocupar este lugar de uma escuta que está sempre no intermediário entre o entendimento e a ignorância ( escuta flutuante); só assim pode surgir uma interpretação ou pontuação precisa que atinja o sujeito justamente em seus pontos cegos. A interpretação é, portanto, uma opinião correta, pois mesmo sem tudo saber o analista pode interpretar.
O caminho de uma boa análise é levar o analisando a construir uma Verdade singular que dará sentido a sua existência, já que um sentido último não podemos achar frente às restrições impostas pela linguagem. Cabe ao analista sustentar sempre no analisando o sujeito do Desejo, aquele tem por mãe Penúria e por pai Caminho ( filho da Sabedoria); inclusa está no desejo como constituinte invariável a falta. Ao analisando cabe o esforço de tentar formular e bem-dizer sua penúria levando suas escolhas até as últimas conseqüências éticas- custe o que custar. Aquele que passa por uma análise deve, ao fim, saber o preço que se paga por escolher querer ser o que se é. Um pouco enigmático talvez.
Sua aparência não mente Rafael, você carrega com você o "peso" das palavras. Dentre todos os dons que já vi, creio ser esse o que nos dá mais poder. Com as palavras podemos abrir portas, convidar os outros a reflexão e levar conforto aos que precisam. Você tem um dom Rafael, e isso é admirável! Parabéns!
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