quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Posição política ( II)

Os aparelhos midiáticos usurparam bem uma máxima do Evangelho: Sem vos tornares criancinhas não poderei entrar no Reino dos Céus.
O que se esquece é que o mesmo Cristo declarou enfaticamente: sejam simples como as pombas, mas sagazes como a serpente. Crianças não tem lugar na luta política; a ingenuidade infantil não permanece impune na cena de forças que vemos hoje tomar forma com toda pujança. É briga de cachorro grande, como tem se dito lucidamente. E nesta briga de “ marido e mulher” tem-se que meter a colher! A falsa neutralidade política é uma falácia que não deixa de servir a um dos senhores- e já se sabe que não se pode servir a dois senhores... A estratégia de igualar os dois candidatos à presidência é um jogo perverso que tenta colocar à parte uma parcela do eleitorado que, ao achar que os dois são iguais ( aí entram os ataques morais notadamente referentes à corrupção) cria uma impossibilidade de discernir as diferenças. Fico surpreso com alguns amigos que se declaram neutros ou desinteressados e até mesmo desesperançados da política. Minha surpresa é que: se é de fato de neutralidade que se fala, por que então alguns deles votam em determinado candidato? Quando se vota escolhe-se um lado, e como já vaticina o tão em moda Evangelho, “ quem comigo não ajunta espalha”.
Nunca um tal de Marx e um careca homossexual Foucault falaram tão alto aos meus ouvidos como agora: política é luta; é força contra força. E nesta luta não há lugar neutro já que mesmo da entropia se recicla força para algum dos lados. Nada é desperdiçado. Se é verdade que a força produz sua própria resistência no sentido de incorporá-la, façamos então, aos moldes de um tal Deleuze, um acontecimento. Eis o que vemos tomar corpo como destino ao nosso país: um acontecimento como uma ruptura, ou se quiserem mais precisamente, uma linha de fuga. O debate político e a briga internética que vislumbramos não sem orgulho, é uma excelente chance de que cada um mostre sua força, seu lugar e seu desejo. “O que queres?” toma assim um fulgurante significado de realização do desejo mostrando que não há lugar neutro. A política familiar tão protegida pela Casa Grande precisa ser destruída. Em briga de cachorro grande o escravo mete sim a colher! E se o discurso por excelência é o da histérica é porque questiona e fura o Mestre na construção do seu saber. Hoje me perguntaram porque estou tão movido pela política. Minha resposta não podia ser outra senão dizer que o sujeito é ético. Não há desejo sem ética e não há ética sem uma escolha de posição. Aquele que prefere não escolher ou ficar alheio do processo, deveria saber de antemão que alheio não está, mas está firmemente arraigado num sintoma do qual não sabe nada e mesmo assim dele goza.

O Dito não ficará neutro. Nesta luta de cachorro grande o lado que escolho, neste momento, cabe à dona Dilma. Não por sua simpatia ou pueril honestidade, mas porque na guerra que se trava agora calar e ficar neutro, enquanto a direita faz ressurgir os fantasmas mais monstruosos que o Brasil já viu, é um pecado. E sabem os psicanalistas: o único pecado é ceder do seu desejo.

Por um Brasil plural : Dilma, presidente da República Federativa do Brasil.

5 comentários:

  1. O silêncio ou a neutralidade tbm são respostas a serem consideradas, meu caro.

    O posicionamento político não implica necessariamente em uma escolha dualista e puramente dicotômica.

    Se a realidade é multipla, também o é cada ser humano, em cada posicionamento que toma diante da vida.

    Votar nulo nesse segundo turno é uma resposta, como todo silêncio o é. Se eu sei me responsabilizar pelo que falo em alto e bom som, tbm o saberei me responsabilizar quando me calar.

    Silêncio também é terapêutico, ou estou errado?!

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  2. (Meu Deus do Céu... O véu do meu templo de rasgou de alto a baixo!!! hehe)


    Estou com você querido.
    Bem vindo!!! Posso estar enganado, mas sinto que os "Nossos bosques, tem mais vida!"

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  3. Boa análise, Rafa. Essa é exatamente a estratégia das grandes mídias: dizer que os dois são equivalentes em termos de propostas, mas que o PT é corrputo enquanto o PSDB é íntegro.
    É preciso não deixar as pessoas esquecerem que ambas as asserções são falsas. O PSDB não está de maneira alguma livre de corrupção; e o programa do PT não pode nem de longe ser comparado com o programa elitista e eleitoreiro do PSDB. Eles, ainda pro cima, exploram o provincioanismo e o fanatismo presente no povo, ao apelar para fatos falsos e polêmicas de baixo calão como a do aborto.
    Cada moviemntação faz diferença, sim, e mesmo que alguns, como Maria Rita Kehl, tenham sido punidos por emitir a própria opinião, isso só serve pra desmascarar aqueles que se dizem, falaciosamente, defensores da liberdade de expressão e da democracia.

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  4. "O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."

    Martin Luther King

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  5. O que aconteceu com ela acontece todos os dias nas redações de jornal e tvs com jornalistas e redatores.
    O fato de ela ser psicanalista é superfluo.
    O estadão declarou apoiar o Serra.
    Maria Rita Kehl escreveu um texto defendendo programas sociais.
    Eles bem que avisaram a ela, e ela continuou a emitir a sua propria opinião.
    FHC devastou o Brasil, as universidades foram delapidadas, chegou a faltar energia no Brasil!!!
    venderam o Brasil, bilhões desapareceram, a midia silenciou.
    Luis Nassif e Herotodo Barbeiro foram demitidos da TV cultura apenas por escreverem textos "subversivos" demais contra o governo paulista.
    Enquanto, todos os dias jornais e televisões "esculhambam" para dizer pouco, um presidente escolhido por 70 milhões de brasileiros
    Nos nossos dias a censura é mais eficaz, mais sutil,
    dessa vez o inimigo não veste botas...

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