quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ressentimento político.

Tenho ouvido um discurso que me incomoda bastante e me causa uma sensação estranha de indignação misturada com puro desfalecimento. Só hoje pude compreender por que tais imposturas causavam-me tamanho desconforto- a má fé subjacente a eles. O super homem nietzchiano reclama de mim um pronunciamento.  Exponho os reclames:

Não poucas pessoas, dentre elas renomados políticos arvoram-se, nestas eleições, de guardiões da moral e da pureza ética. Paladinos do voto nulo ou da neutralidade política, já que “ nada aí presta”. Com aparência de revolucionários escapam ao trabalho sujo da revolução. Eleitores utilizam-se de argumentos fundados nas acusações de corrupção no governo PT; nas alianças espúrias com velhas oligarquias, como se isso fosse justificativa forte o suficiente para afirmar que Dilma e Serra são farinha do mesmo saco. Sem muito esforço podemos rapidamente identificar neste discurso um afeto velho conhecido nosso: o ressentimento.

Nossa mais famosa ressentida, Heloísa Helena, resolveu hoje, mais uma vez, jogar tudo ás favas. Ressentida com o apoio de alguns líderes do PSOL à candidatura de Dilma, Heloísa ( que nada tem de Helena) entregou as armas mais uma vez. Junto com ela conheço vários outros que também jogaram a toalha. Um trecho do discurso de renúncia da ex-senadora abre em chagas abertas seu espírito ressentido:

Registro que enfrentei o mais sórdido conluio entre os que vivem nos esgotos do Palácio do Planalto --ostentando vulgarmente riquezas roubadas e poder-- e a podridão criminosa da política alagoana. Sobre esse doloroso processo só me resta ostentar orgulhosamente as cicatrizes, os belos sinais sagrados dos que estiveram no campo de batalha sem conluio, sem covardia, sem rendição!

Engana-se Heloísa. Você já se rendeu faz tempo. Sucumbiu ao seu núcleo paranoico e sua religiosidade que, provavelmente, fazem de você uma histérica melancolizada com apego obsessivo aos danos. ( brigado Sandra pela dica!).

Umas das condições da posição ressentida de tantos brasileiros em relação ao atual governo encontra suas bases na crença de que a igualdade democrática seja uma dádiva paterna e não uma conquista do povo. ( Kelh, 2007). Anos de autoritarismo paternalista em nossa história tem esse efeito; gera uma expectativa popular de que os líderes tem a obrigação de resolver todos os problemas que afligem nossa sociedade. Lançamos sobre eles a mesma carga de expectativa irrealista que lançamos numa grande paixão, por exemplo. Esta passividade gera uma atitude constante de reclamação daquilo que não foi feito, uma cobrança ressentida. Outro efeito do ressentimento é o surgimento de um certo purismo numa esquerda mais radical que é incapaz de encarar sua própria responsabilidade em suas derrotas. Assumem então, uma atitude de simplesmente acusar os mais fortes e se dizem injustiçados. A má fé surge justamente quando esse ressentimento não mostra sua cara e se disfarça numa pretensa pureza moral. Esse disfarce do discurso ressentido goza de grande adesão popular, posto que desresponsabiliza cada um de nós da tomada de uma posição ativa no processo de transformação.

Maria Rita Kehl ( 2007) expõe brilhantemente o discurso ressentido:



“Por fim, em função de sua atualidade e das soluções de compromisso que ele possibilita, o ressentimento é um forte leitmotiv dramático. O personagem ressentido atraia simpatias, pois parece revestido de uma superioridade moral inquestionável. É o personagem sensível, passivo, acusador silencioso de um outro mais forte diante do qual ele se apresenta “ coberto de razões”. A ele se atribui uma sensibilidade especial, que o torna incapaz de se adequar à dureza da vida em sociedade. O personagem ressentido é eficiente para mobilizar tanto a identificação, quanto à má consciência. Ele aparece como alguem que permaneceu “ fiel a si mesmo”, atitude que , no entanto , não tem nada a ver com o “ torna-te quem tu és “ nietzchiano. É um personagem que não se “ corrompe”, não se “ mistura” com os outros, nãos e banaliza, não se deixa consolar e não aceita substituições para os objetos que perdeu. Parece íntegro. Será? A pergunta é: o ressentido é inteiro com o quê?” ( grifo meu).



Podemos ver claramente que, o prestígio desse discurso depende diretamente de que seu verdadeiro motivo permaneça encoberto por sua face de justeza moral. Daí tantos comportamentos meramente reativos e sem efetividade política alguma. Em política é preciso fugir desta estética do ressentimento. Os ressentidos, normalmente, não realizam nada. Vivem numa relação de acusação paranoica na qual o outro é sempre culpado por suas derrotas. Não é a toa que os puristas no Maranhão acusem Dilma e o PT pela permanência do clã Sarney em nossa ilha do amor. A atitude ressentida é muito mais fácil do que admitirmos que enquanto Roseana estava dando um golpe para tomar o poder do então governador Jackson Lago, todos nós permanecemos imóveis à espera de um milagre. Esse milagre não virá senão por nossas próprias mãos. Somos vítimas constantes de nossa própria omissão.
 
referências:
 
Kehl, M.R ( 2007). Ressentimento. São Paulo: Casa do psicólogo.

Um comentário:

  1. Daí o paternalismo e o populismo serem tão fortes no nosso país. E daí o fato de um certo galego, que comanda a política de um certo estado com mão-de-ferro há 20 anos, ser visto como benfeitor, a ponto de nós, da plebe, devermos nos sentir culpados pela sua não eleição.
    É uma atitude infantil: o depósito de todas as expectativas num salvador que, por não correspondê-las, passa a ser visto como o mal. E, é claro, espera-se um novo salvador pra combater esse mal.
    Concordo com um certo twitteiro que falou que voto nulo ideológico do Plínio é cegueira política. É preciso encarar a realidade. É uma pena, mas dificilmente alguém aparecerá que atenda a todas as nossas expectativas. O jeito é adequarmos as nossas expectativas, em parte, à realidade.

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