Considerações ao texto: Sexo sem Desejo, de Rafael Pinheiro.
Embora vivamos em tempos de gozo administrado, cuja socialização dos desejos e constituição das sexualidades não mais se vinculem, estritamente, aos moldes prescritos pela teoria freudiana clássica do supereu, ancorada na noção de recalcamento e repressão - em razão das profundas modificações operadas na função paterna e processos de identificação social -, além do apelo contemporâneo aos excessos, não podemos esquecer a permanência de estruturas repressivas que, historicamente, têm engendrado a dimensão psicossocial do homem brasileiro, com todas suas contradições. Que me desculpem os franceses [refiro-me ao campo teórico], mas temos peculiaridades em nosso processo de construção enquanto civilização (como bem defenderam importantes antropólogos brasileiros, entre eles Darcy Ribeiro e Roberto DaMatta) que não podem ser negligenciados por maiores que sejam os mergulhos em nossa subjetividade. Minha advertência busca evitar cairmos na armadilha de perceber os processos históricos como sucessão de fatos e acontecimentos, que ao se instalarem os novos, relegam à vala comum do obsoleto os antigos. Refiro-me, precisamente, à tendência em desconsiderar como parte “do contexto e necessidades dos jovens” (linha 28 de seu texto) dos dias de hoje a dimensão da repressão sexual. Seria desnecessário tentar demonstrar a relevância do tema, bem como apresentar as inúmeras boas contribuições de diversas áreas do conhecimento ao assunto que vão desde a busca da compreensão da construção sociossimbólica do corpo e sua expressão na sociedade, até trabalhos que se arvoram a enfrentar debates em torno de políticas públicas afirmativas, contribuições que, para o bem ou para o mal, reconhecem o peso de instituições e processos repressivos ainda tão presentes em nossa sociedade de arroubos periféricos. Assim, destaco a importância em resgatarmos a dialética, talvez nos moldes propostos por Slavoj Zizek, em sua importante obra “Visão em Paralaxe”, quando desenvolve sua instigante teoria das lacunas paralácticas. Reconhecer as lacunas no processo analítico nada mais é do que atentar para o fato da convivência entre opostos nas dimensões subjetivas e objetivas (para simplificar os termos) da vida humana que não podem se reduzir a nenhum fundamento neutro comum. Assim, reconhecer essa lacuna irredutível (dimensão repressiva de nossa sociedade e apelo ao excesso, ao mais gozar, por exemplo) de forma alguma constitui obstáculo intransponível para a dialética na busca de sua superação, mas, por outro lado, teorizar adequadamente essa lacuna torna-se “a chave que nos permite discernir seu núcleo subversivo” (Zizek, 2008, p. 15). Essa forma de proceder analiticamente está presente ainda em Marx, quando mesmo em face do aparecimento, desde fins do século XIX, do capital financeirizado, que se reproduzia com imensa sofisticação, nunca abandonou a necessidade de pensá-lo em relação ao processo mais nefasto de acumulação do capital que recorria constantemente à exploração impiedosa da força de trabalho, além da fraude, do roubo, da pilhagem, forma que denominou acumulação primitiva. Mesmo hoje, diante da acumulação financeira irrestrita, essas dimensões opostas e irredutíveis se interpenetram. Nesse sentido, se a tentativa de Martinez foi denunciar a existência de repressões à livre manifestação e expressão da sexualidade, pregando o amor livre, a temática se sustenta, inclusive, historicamente. Quanto à crua expressão do sexo esvaziado de substância e não erotizado, isso, talvez, pode-nos levar à reflexão sobre a competência do dramaturgo na composição estética do espetáculo, vez que foi promessa do próprio Martinez (e do ator Marcelo Drummond, em preâmbulo desnecessário) a excitação e encantamento do público, que seria arrebatado pelos melhores sentimentos e emoções sublimes do amor. Da mesma forma podemos interpretar a quase ausência do trágico nas encenações, ou essa falta apontaria a orgia como o momento predominante da vida e das sociabilidades na visão de Martinez? A mesma promessa de arrebatamento, entretanto, não senti quanto a uma suposta tentativa em explorar esteticamente e “fielmente” a clássica obra O Banquete, fato que me leva a encarar a produção, no plano estético, como você bem a caracterizou: uma paródia, não mais do que isso.
Rafael, excelente seu texto!
P.S.: Peço desculpas pela pressa do escrito e possíveis imprecisões. Pretendo apenas colaborar com o debate.
Forte abraço,
David Moreno Montenegro.
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