sexta-feira, 25 de março de 2011

Opinião.



texto recente que publiquei no POVO.

As notícias da catástrofe que se abateu sobre o Japão deixaram o mundo inteiro paralisado em fascinação e horror. Por sua localização geográfica o Japão está sujeito a calamidades naturais que mexem com nossos temores mais primitivos: abalos sísmicos, erupções vulcânicas e tsunamis.

Desastres naturais que trazem à tona os mistérios da história de nosso planeta--lava vulcânica, o movimento invisível das placas tectônicas e a fúria oculta dos grandes mares. Dentre esses, o terremoto parece aquele que nos causa mais pavor; além de derrubar as fortes estruturas de nossa engenharia tecnológica ele abala as certezas de nosso precioso processo civilizatório.

A cada desastre natural renasce a suspeita de que em algum lugar se esconde uma natureza indomável. O mais desconcertante é reconhecer que essa natureza constitui o cerne de nossa própria estrutura psíquica. O pavor e fascinação que eventos como esse exercem sobre nós é a pista viva de que caminhamos constantemente sobre uma frágil fronteira entre o caos e a fúria do mundo natural e nossos esforços para nos elevarmos sobre ele.

Os noticiários não cessam de nos oferecer a oportunidade de assistirmos inúmeras vezes imagens da tragédia numa compulsão coletiva a repetir as sensações de horror e medo. O resultado dessa repetição são tentativas de explicações as mais variadas: da profecia escatológica ao lamurioso discurso dos ecologistas. O certo é que a maioria das explicações parece sugerir que seríamos mais felizes se abandonássemos nossas aquisições civilizatórias e retrocedêssemos a condições primitivas.

Eventos desta magnitude geram sempre dúvidas se o fato de termos submetido as forças naturais ao nosso domínio elevou o grau de satisfação que esperamos da vida. Isto é, se os avanços tecnológicos tão caros ao progresso de nossa civilização nos fazem mais felizes. Freud no Mal-estar na civilização afirma que o poder sobre a natureza não é condição única da felicidade humana, bem como não é o único objetivo de nossos esforços culturais.

As imagens do tsunami invadindo ferozmente as cidades lançam-nos de volta à essência da civilização, cujo valor para produzir felicidade é posto em dúvida. Que preço se paga ao processo civilizatório? Um déficit entre aquilo que se espera obter de felicidade e aquilo que de fato obtemos. Isso de forma alguma quer dizer que o progresso é ruim ou que nos encaminha inexoravelmente ao apocalipse, mas que a angústia é efeito inescapável do processo civilizatório.

O progresso cultural e tecnológico caminhou lado a lado com nossa evolução e certamente não temos como afirmar que os homens em épocas anteriores eram mais felizes do que nós e nem sabemos inteiramente que papel suas condições culturais desempenharam. Freud no mesmo texto alerta para a “mania” humana de colocar a nossa própria constituição psíquica no lugar de todas as outras que não conhecemos.

Parece jargão, mas felicidade é algo absolutamente subjetivo e o preço que pagamos por sermos “civilizados” aparece no famoso verso: tristeza não tem fim, felicidade sim.

Tempestade e Fúria

A tragédia do Japão e tantas outras coloca em cheque a capacidade de nossa civilização de nos fazer felizes. Compartilho uma reflexão minha no jornal O Povo : TEMPESTADE E FÚRIA.

sábado, 19 de março de 2011

Desejo e Luta.

Em meio às turbulências da alma hoje habita, no núcleo mais duro dos motivos um desejo, um desejo muito grande. Sei que há poucas coisas na vida mais assustadores do que dar-se conta de seu próprio desejo. Neste sentido explico. O desejo aqui não seria o que muitos rapidamente presumiriam: o desejo sexual. Não necessariamente. É muito claro que todo desejo é sexual, mas sexual num sentido muito mais amplo que não caberia aqui explicar. Este desejo do qual falo é justamente a vontade de seguir em frente; sem tapar, burlar ou enganar-se de que se chegou ao objetivo da vida. Este não há. Desejar é seguir querendo...É ser fiel ao que te singulariza. Desta forma, no fundo do furação está meu desejo. E não pecarei: serei fiel a ele até o fim. Não ceder de seu desejo é a luta. Não há desejo sem a boa luta e não  há boa luta que não seja animada por um grande desejo.

sábado, 12 de março de 2011

De um processo analítico

Uma das maiores descobertas de alguém que passa por uma análise é  a constatação de que as palavras não dão conta por completo da nossa existência.  Ao mesmo tempo em que é uma descoberta fantástica também lança o sujeito numa empreitada trabalhosa de se re-inventar.  É mais ou menos : se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Solução? Domesticar o bicho. Não tem outro jeito. A angustia e a solidão de estar desamparado no mundo são constantes das quais não tem como fugir. Se fugimos por meio da negação ou do entorpecimento da vida interior o bicho pega porque a sagacidade dele foi criada e nutrida por nós mesmos;  se ficarmos paralisados pela sedução melancólica de suas cores ele nos devora sem piedade porque é da gente que ele se alimenta mesmo...Não é a toa que as palavras do profeta Isaías são: Vinde então, e arrazoemos, diz o SENHOR. O “bicho” e o sujeito cara a cara num enfretamento do qual ninguém sai ileso. Tal como Jacó lutou com o anjo, prevaleceu, mas saiu mancando com uma marca da luta. Nós, esses seres “ maltratados” pela palavra; sucumbimos a ela...O problema é sucumbi sem luta. Sem luta só resta a mais alucinante alienação... O desconhecimento completo. A luta não vence a batalha mas dá viço ao combatente e desvenda os mistérios do inimigo. Antes presas do sentido, agora nos tornamos seus aliados. Eis como se atravessa a fantasia fundamental do vivente.--A fantasia é como um castelo no qual nos refugiamos de sentidos para dar conta de nossa “ estúpida existência”. Dela nunca escapamos, mas depois de um tempo de análise conseguimos mais facilmente abandonar o castelo, dar umas voltinhas com os pés descalços e depois, resolutamente, voltar para o conforto do castelo. Só que agora ele não mais nos contém. Estamos de olhos abertos a contemplar nossa prisão sem auto-piedade ou comiseração. 

quinta-feira, 10 de março de 2011

Tenacidade.


 Segundo a física clássica Tenacidade é a energia mecânica, ou seja, o impacto necessário para levar um material à ruptura. Uma medida de quantidade de energia que um material consegue absorver antes de quebrar, fraturar. Um fino vaso de porcelana tem, por exemplo, uma baixa tenacidade. Outro significado usual é a característica de ser persistente, constante e perseverante. Ambos os significados completam a sensação que tomou conta do meu início de ano pós-carnaval. Quanta pressão podemos suportar antes de sucumbir? A arte de ser tenaz é a sabedoria de vida de poder suportar, com persistência e constância as pressões do mundo externo. 

Freud elencou três origens para o sofrimento humano em seu clássico Mal-Estar na civilização: o mundo externo ( ou a natureza), o corpo e as relações humanas. Diz-se constantemente que dentre esses três o corpo é aquele do qual jamais podemos fugir, e por isso mesmo temos psiquismo- é  a forma que o sujeito encontrou para fugir de si mesmo. A mente acaba se tornando um quarto inimigo, mais impertinente e implacável do que qualquer carrasco. O que chamamos de “ mente” foi uma brilhante solução na evolução da espécie humana, mas uma solução que não contava com os infinitos problemas que teríamos que enfrentar pelo fato de falarmos e possuirmos um aparato hermenêutico excepcional. A capacidade de compreender e explicar imediatamente nos coloca de frente com o problema que os outros também tem a mesma capacidade e confiam nela tanto quanto confiamos. É o velho problema que Freud citou: as relações humanas. Da mesma forma que não podemos fugir dos sofrimentos causados pelo corpo não temos como fugir do outro. Dito isto e com um pouco de presunção, ouso dizer que o corpo e as relações humanas também poderiam ser incluídas como causas do sofrimento situadas no “ mundo externo", isto é, na natureza.  Lidamos com o corpo e com o outro como algo externo a nós que nos faz pressão e exigências quase sempre resultando em angustia. A capacidade de ser tenaz surge como uma característica que, se adquirida a tempo, serve como uma ferramenta de sobrevivência das mais importantes. A capacidade de resistir ao sofrimento; neste sentido não tem muito sentido separar sofrimento físico de sofrimento psíquico. Uma das características principais do ser humano é ser essa sempre desconcertante fronteira de angustia. Definitivamente uma corda trêmula sobre um abismo de incertezas. A solução? Quem me dera saber, mas o caminho parece continuar sendo resistir, insistir e sobreviver...Até o fim.  

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tristeza cinza.

A tristeza cinza da quarta-feira certamente quer alguma coisa, não? Todo mundo bebeu demais, comeu demais, dormiu muito pouco ou demais...abusou do corpo demais. Em termos psicanalíticos diriamos que todo mundo gozou demais, isto é, viveu dias intensos numa mistura de prazer, cansaço, tédio e sofrimento- em outras palavras gozo quer dizer : buscar o prazer com sofreguidão. A avidez em " curtir" o máximo que se pode causa frequentemente a sensação de que o prazer durou muito pouco; coisa que fica patente quando se ouve reclames como: " o carnaval passou tão rápido!". A sensação de que durou pouco é efeito da insatisfação tão própria ao gozo. A sensação de que podia ter sido melhor; podia ter durado mais;. o pessoal no Rio curtiu mais que eu!  Gozo é ambição por prazer- desejo impaciente de sorver até a última gota de um prazer misterioso e escondido....ao qual não temos nunca acesso. Por isso a quarta-feira de cinzas, para muitos, não passa de uma grande ressaca de insatisfação que só assume sentido apoiando-se na promessa de uma nova curtição, de um novo gozo. Assim se explica que tantas pessoas hoje já estão pensando no próximo feriado- a semana santa. Desse jeito a maioria dos foliões vive de promessa de gozo em promessa de gozo; sempre num tédio insuportável que se sustenta sobre promessas ilusórias de que o próximo carnaval vai ser muito melhor...

domingo, 6 de março de 2011

A liberdade da alma.

Aproveitando o Carnaval para cortar mais algumas das amarras que nos obrigam a sermos felizes. Aproveitar o desprendimento que é ver outras pessoas curtirem muita folia e simplesmente ficar como um espectador descomprometido e tranqüilo; sem ressentimentos ou ansiedade. É um grande mistério da alma ver o outro gozar e não sentir inveja- esta é a verdadeira liberdade da alma no Carnaval.