sábado, 12 de março de 2011

De um processo analítico

Uma das maiores descobertas de alguém que passa por uma análise é  a constatação de que as palavras não dão conta por completo da nossa existência.  Ao mesmo tempo em que é uma descoberta fantástica também lança o sujeito numa empreitada trabalhosa de se re-inventar.  É mais ou menos : se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Solução? Domesticar o bicho. Não tem outro jeito. A angustia e a solidão de estar desamparado no mundo são constantes das quais não tem como fugir. Se fugimos por meio da negação ou do entorpecimento da vida interior o bicho pega porque a sagacidade dele foi criada e nutrida por nós mesmos;  se ficarmos paralisados pela sedução melancólica de suas cores ele nos devora sem piedade porque é da gente que ele se alimenta mesmo...Não é a toa que as palavras do profeta Isaías são: Vinde então, e arrazoemos, diz o SENHOR. O “bicho” e o sujeito cara a cara num enfretamento do qual ninguém sai ileso. Tal como Jacó lutou com o anjo, prevaleceu, mas saiu mancando com uma marca da luta. Nós, esses seres “ maltratados” pela palavra; sucumbimos a ela...O problema é sucumbi sem luta. Sem luta só resta a mais alucinante alienação... O desconhecimento completo. A luta não vence a batalha mas dá viço ao combatente e desvenda os mistérios do inimigo. Antes presas do sentido, agora nos tornamos seus aliados. Eis como se atravessa a fantasia fundamental do vivente.--A fantasia é como um castelo no qual nos refugiamos de sentidos para dar conta de nossa “ estúpida existência”. Dela nunca escapamos, mas depois de um tempo de análise conseguimos mais facilmente abandonar o castelo, dar umas voltinhas com os pés descalços e depois, resolutamente, voltar para o conforto do castelo. Só que agora ele não mais nos contém. Estamos de olhos abertos a contemplar nossa prisão sem auto-piedade ou comiseração. 

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