texto recente que publiquei no POVO.
As notícias da catástrofe que se abateu sobre o Japão deixaram o mundo inteiro paralisado em fascinação e horror. Por sua localização geográfica o Japão está sujeito a calamidades naturais que mexem com nossos temores mais primitivos: abalos sísmicos, erupções vulcânicas e tsunamis.
Desastres naturais que trazem à tona os mistérios da história de nosso planeta--lava vulcânica, o movimento invisível das placas tectônicas e a fúria oculta dos grandes mares. Dentre esses, o terremoto parece aquele que nos causa mais pavor; além de derrubar as fortes estruturas de nossa engenharia tecnológica ele abala as certezas de nosso precioso processo civilizatório.
A cada desastre natural renasce a suspeita de que em algum lugar se esconde uma natureza indomável. O mais desconcertante é reconhecer que essa natureza constitui o cerne de nossa própria estrutura psíquica. O pavor e fascinação que eventos como esse exercem sobre nós é a pista viva de que caminhamos constantemente sobre uma frágil fronteira entre o caos e a fúria do mundo natural e nossos esforços para nos elevarmos sobre ele.
Os noticiários não cessam de nos oferecer a oportunidade de assistirmos inúmeras vezes imagens da tragédia numa compulsão coletiva a repetir as sensações de horror e medo. O resultado dessa repetição são tentativas de explicações as mais variadas: da profecia escatológica ao lamurioso discurso dos ecologistas. O certo é que a maioria das explicações parece sugerir que seríamos mais felizes se abandonássemos nossas aquisições civilizatórias e retrocedêssemos a condições primitivas.
Eventos desta magnitude geram sempre dúvidas se o fato de termos submetido as forças naturais ao nosso domínio elevou o grau de satisfação que esperamos da vida. Isto é, se os avanços tecnológicos tão caros ao progresso de nossa civilização nos fazem mais felizes. Freud no Mal-estar na civilização afirma que o poder sobre a natureza não é condição única da felicidade humana, bem como não é o único objetivo de nossos esforços culturais.
As imagens do tsunami invadindo ferozmente as cidades lançam-nos de volta à essência da civilização, cujo valor para produzir felicidade é posto em dúvida. Que preço se paga ao processo civilizatório? Um déficit entre aquilo que se espera obter de felicidade e aquilo que de fato obtemos. Isso de forma alguma quer dizer que o progresso é ruim ou que nos encaminha inexoravelmente ao apocalipse, mas que a angústia é efeito inescapável do processo civilizatório.
O progresso cultural e tecnológico caminhou lado a lado com nossa evolução e certamente não temos como afirmar que os homens em épocas anteriores eram mais felizes do que nós e nem sabemos inteiramente que papel suas condições culturais desempenharam. Freud no mesmo texto alerta para a “mania” humana de colocar a nossa própria constituição psíquica no lugar de todas as outras que não conhecemos.
Parece jargão, mas felicidade é algo absolutamente subjetivo e o preço que pagamos por sermos “civilizados” aparece no famoso verso: tristeza não tem fim, felicidade sim.
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