quinta-feira, 23 de junho de 2011

Prazer até morrer.

" Antes o sofrimento legítimo do que o prazer forçado".  A linha é sempre muito tênue, não dá pra saber direito quando se começa a forçar o prazer ou quando o desespero do tédio nos tira do sério e nos sentimos lançados num círculo vicioso à procura de algo que nos acorde, nos dê um sentimento novo. No fim tudo diz respeito a uma tentativa de estar bem na própria pele. O prazer é sempre muito confuso porque, na verdade, prazer temos o tempo todo- pequenos prazeres. Mas, há aqueles que nos trazem uma promessa de alegria muito mais tentadora; normalmente eles se encontram na fronteira da transgressão ou do proibido ou do dificultoso. Esses são prazeres que nos apetecem muito mais e sob os quais mais facilmente sucumbimos ao vício mais facilmente. Eles testem nossos limites; por meio deles provamos que somos capazes de algo para nós e, principalmente par ao outro. Esses tipos de prazer normalmente são como uma mensagem para o Outro- pode ser um pedido ou uma afronta, mas raramente é o só o prazer pelo prazer como comumente os ditos " hedonistas" gostam de crer. Prazer não é coisa simples. A fronteira entre prazer e sofrimento é fina e nunca bem delimitada; por isso se morre de overdose, se morre frente a grandes prazeres. É o lado oculto da alegria, seu corolário, a morte.  Quando nos sentimos assim, impelidos a gozar dessa forma o que queremos mesmo é morrer um pouco; um pouco de paz. Não esqueçamos que depois do grande prazer vem uma pacificação da excitação- sensação muito próxima da morte, não é a toa que os amantes normalmente            " gemem " de prazer...Como se fossem torturados. 
Raramente esperamos antes de forçamos a experiência de prazer. Eu mesmo, frequentemente, me rendo ao prazer rapidamente. O que viria se permanecêssemos no tédio da espera? No sofrimento legítimo? E o que dá a algum sofrimento legitimidade? Não somos programados para sofrer....Mas, ao que parece também não fomos programados para seremos felizes por completo. Tanto o prazer quanto a alegria nos foram dados como momentos pontuais numa curta existência. E o resto? Bem..o resto está aí para cada um lidar com ele como der ou puder ou quiser. 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Vocação.

Tenho recebido reclamações de que ando distante.  É mentira e verdade. Ando distante porque repentinamente me aproximei de mim , do meu desejo e do trabalho que dá abraça-lo. Não se pode deixar pra depois e ao mesmo tempo não se pode apressar o trabalho psíquico que é não ceder do seu desejo. Envolve aniquilações, ponderações e abandonos.  Deixamos um tempo para abraçar o outro.
 Nesse movimento, as pessoas ao nosso redor ficam um pouco sem compreender exatamente o que se passa.  Alguém nesse processo é como o texto bíblico diz tão precisamente: O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. Tornar-se sujeito é uma luta que não tem fim, segue ao fim da vida... É nessa luta que estou sempre. Se em algum ponto eu fico difícil de ser apreendido é porque, nesse ponto, estou etéreo. Nem eu mesmo me alcanço. Nesse percurso  vou pra frente, pra trás, estico-me, vou até o limite. Volto incertamente; não sei quando e nem aonde. Mas, uma coisa já sei: não posso parar, se meu corpo se movimenta o tempo todo ( algumas vezes involuntariamente) é que há algo na natureza do meu desejo mesmo que exige movimento, busca, vocação. É o que tenho dito nos últimos dias- um ser humano precisa de vocação pra viver; sem ela a melancolia é um refúgio muito tentador...O não sentido, o olhar medusante do abismo. A vocação é a futilidade prática do viver. Se tudo é vão, é na vocação que a vaidade de um momento pode mostrar-se belo e vivo. 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Feliz dia dos namorados.

O dia dos namorados se aproxima e a população já começa a ficar em polvorosa- a sociedade cria as necessidades e todo mundo começa a percebê-las como suas.  Outro dia uma assisti às reclamações de uma jovem que dizia não entender suas emoções; que elas eram contraditórias e perturbadoras. Logo me veio a seguinte questão: um cachorro não tem nunca dúvidas sobre qual a emoção prevalente no momento. E não venham me dizer porque ele é guiado somente pelo instinto e isso facilita a vida dele. Bem, isso é uma boa explicação teórica. Mas, hoje, quero ir pra outro lado.  Minha teoria é que todos sabem discernir exatamente qual a emoção prevalente no momento e qual necessidade requer ser atendida de pronto. O que ocorre é que há um conflito entre o que se autenticamente deseja e as necessidades que o outro cria para nós e que, em nos prendendo em nossos pontos cegos, consegue nos convencer de que aquilo que desejamos não é de fato o que precisamos. Que nossa satisfação está alhures. Então, de repente, ficamos “confusos”; dizemos não saber o que queremos. É como o dia dos namorados. Pra quase todo mundo a data não representa absolutamente nada, é um dia banal como qualquer outro.  O comércio investe, os burgueses seguem e o que resta fica entre um ressentimento disfarçado ou tristeza forçada.

Já faz algum tempo que uma amiga me sugeriu ler “Encontro marcado” de Fernando Sabino. O livro é um nostálgico retorno aos anos de juventude cheios de inquietações e busca por fundamento existencial.  A história trás o encontro de um grupo de amigos em busca de sentido pra vida; tudo perpassado por preocupações ideológicas e religiosas na busca pela felicidade. O que mais me marcou no livro foi o costume que o grupo de amigos tinham de se reunirem com o único e solene objetivo de “puxar angustia”. A coisa era simples: bebida, cigarro e “papos cabeças” ajudavam a gerar um ambiente pesado e triste que serviria para alimentar o  espírito reflexivo e crítico.  Posso falar de cátedra, já fui assim.  Adorava puxar angustia, costumava montar todo o cenário: vinho, música apropriada e solidão absoluta. Ambiente perfeito para me sentir superior ao mundo e excepcional. O tempo passou, eu mudei bastante e hoje dificilmente retiro alguma satisfação nesse teatro de amadores.  Ficar sozinho continua sendo um refúgio, mas hoje é um refrigério que me prepara para o contato com o mundo.  Não há profundidade alguma na solidão forçada e na angustia autopromovida. Ate porque não há necessidade alguma de puxarmos angustia: um hora ou outra ela aparece do nada e, para nossa surpresa, ela é de uma qualidade muito diferente da angustia que é só puxada.

Fica então minha dica para o dia dos namorados:  não puxe angustia só porque está sozinho. Faça algo diferente: vá a uma festa, convite os amigos para um drink ou simplesmente convite alguém para jantar, mas pague o jantar por favor. Caso decida ficar em casa mesmo, evite puxar angustia. Pense assim: a maioria dos casais não são tão felizes quanto você imagina em seus vãos momentos quando acende seu "baseado" de  angustia.... Feliz dia dos namorados.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Divã para quê?

Hoje trago pra vocês meu texto publicado no jornal O POVO sobre a séria global Divã. Aproveito e faço um breve comentário sobre o trabalho do analista.

Leia AQUI.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A banda mais horrível da cidade.

Texto publica hoje na FOLHA e que eu disponibilizo aqui para os não-assinantes. Eu assino embaixo...pra quem gostou da Banda mais bonita da cidade...eu só lamento.  Aí no texto tudo que eu disse e um pouco mais...pra vocês verem que eu não sou o único que pensa assim né?

ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR cby2k@uol.com.br

A banda mais horrível da cidade

SURGIU UM novo saco de pancadas para descolados: a horrenda A Banda Mais Bonita da Cidade, coletivo de hippies de Curitiba.
Bombaram nos últimos dias com clipe de "Oração", hino igrejeiro que, parece, será a "Andança" do século 21. "Andança", como o pessoal de certa idade sabe, assombrou faculdades e festinhas de bichos-grilos por décadas, com seus cantos e contracantos e letra "purinha" ("Por onde for/quero ser seu par").
O clipe de "Oração", como reza a moda, foi feito em plano-sequência, ou seja, sem cortes. Também como dita a tendência, no clipe um sujeito sai na caminhada e vai encontrando seus amiguinhos.
É a mesma fórmula da abertura de alguns programas de TV, do comercial da Net com o mala do violãozinho, e do clipe de "Nightwalker", de Thiago Pethit (já zoado nesta coluna -mas que pelo menos tem a deusa Alice Braga, e não um bando de hippies).
Mas vamos voltar a "Oração" e à Banda. Na semana passada foi uma zoação geral com os caras, provavelmente porque não são considerados indies o suficiente. O clipe do Pethit, gravado em Higienópolis, é "lindo". Mas os pobres jecas de Curitiba apanharam.
Desculpem, indies paulistanos, mas A Banda Mais Bonita da Cidade é tão indie quanto vocês. Porque a inspiração é, obviamente, o Arcade Fire, e o estilo de celebração coletiva que consagrou. Só que não é exatamente celebração, mas uma alegria postiça, histérica -como num ritual da seita Renascer, ou numa missa da Renovação Carismática.
Cada vez mais anódino e assexuado, o indie brasileiro é pai legítimo da Banda Mais Bonita. A mãe é o Arcade Fire. E os filhos, espero não estar mais por aqui quando eles surgirem.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Vida.

Agora eu sei.  Nos movimentos de idas e vindas quando se tenta esticar os limites de uma existência, agora eu sei. Estiquei o meu. O elástico voltou; sem frouxidão alguma. Mais rígido que nunca ao ponto zero de onde agora irei continuar. Não é um recomeço- é seguido. Caminhado seguramente como eu sempre fora, só que agora com a certeza do que não sou eu e menos certezas do que sou. Certeza alguma. Mas tendo experimentado caminhos oferecidos agora vejo tão claramente minha pele. Sinto, sorvo e suspiro o cheiro de estar bem em sua própria pele e não quero mais nada senão acomodar-me suavemente à pele que a natureza me deu. É o silêncio profundo antes da onda, só que neste caso não há onda alguma. A maré é calma, grande na extensão que se apruma. Agora é reorganizar tudo e simplesmente me lançar na serenidade que é ser eu mesmo.  Hoje não vejo motivo algum para esforço; ser si mesmo é mais fácil do que se imagina. É o eterno retorno que se leva a vida toda para realizar; neste caso é o primeiro dos eternos retornos e sempre, sempre se retorna ao mesmo ponto. Só que mais vivo, em alguns mais forte, em outros mais suave... A repetição torna-se mais limpa e transparente até que se chegue ao doce profundo que é a morte. Antes disso é a vida se realizando como der ou puder ou quiser. 

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pater et Filius

Para quem não sabe, informo que serei titio. Tive o prazer de passar alguns dias no confinamento com meu cunhado, responsável pela dádiva que será receber um novo membro na família Pinheiro. Conversamos muito sobre a paternidade, já que ele será um pai jovem e de primeiríssima viagem. Como diz o ditado: Mater certissima, pater semper incertus. O pai sempre entra na relação enviesado, em segunda-mão e quase sempre depende da boa vontade materna para se fazer presente com sua prole. Caso não conte com a boa vontade materna, ele precisa buscar forças naquilo que lhe foi transmitido por seu próprio pai para invadir o domínio materno e fazer valer seu Nome. Isto é, se a maternidade é algo que todos tomamos como um “dom” natural, a paternidade é, por excelência, simbólica, e requer do homem que esteja bem arrimado ao chão de seus antepassados...
Falo tudo isto para chegar ao ponto que me diz respeito: para ser pai é preciso, antes de mais nada, ter sido filho. Não é a toa que Cristo precisou ser Filho a fim de aperfeiçoar por meio de sua vida a divindade e através de sua morte a humanidade. O acento é sempre posto sobre a morte de Cristo; eu o ponho agora sobre sua vida. Deus viveu como filho para aperfeiçoar a si mesmo enquanto divindade: Um pai não é pai sem antes ser filho.
Aqueles que fazem análise sabem o quanto algúem se estrebucha num divã para dar conta de ser filho. A  frase de Goethe  famosa na pena de Freud se mostra exemplar: . “Aquilo que herdaste de teu pai, conquista-o para fazê-lo teu". Conquistar neste contexto pode deslizar em variados significados. O que me vem agora em específico é o de “ lutar numa batalha”; “ tomar posse de um território”. Numa batalha há sangue, mortos e feridos. Numa luta dessa magnitude, quem pode sair dessa em paz? Ou como se diz, “ bem resolvido”? Nunca se sabe. O que eu sei é uma verdade que só tem a minha própria experiência como filho para atestar. Se é verdade que o pai é sempre incertus, esta incerteza ecoa tanto do lado do pai quanto do lado do filho. Se o pai luta para fazer-se pai frente ao amor insano de uma mãe, ao filho cabe também livrar-se um dia da incerteza de sua filiação e entregar-se sem medo ao abraço paterno. Não é fácil ser filho de um pai, mas é de uma paz sem comparação. Como diz o antigo hino: “ Paz, paz quão doce paz, É aquela que o Pai me dá". Sei bem que alguns não tem pai, outros tem motivos bem concretos para odiá-lo- é a vida selvagem também. Outros também, nunca se tornam filhos do pai, permanecendo eternamente com a  pesada alcunha de serem  " filhos da mãe"... Mas, muitos, como eu, estão muito mais enredados em sua própria incerteza do que nas atitudes do pai real. Nos casos triviais, como é o meu, a responsabilidade está em nosso lado de atravessar o vale da fantasia de não estar a altura do amor paterno e descansar na certeza de que o pai está ao nosso lado. Lutar com o pai é necessário, mas bom mesmo é quando se consegue, finalmente, separar o pai idealizado do pai real de carne que está bem na nossa cara. E ele, tanto ou mais do que nós, deseja ser amado, abraçado e reconhecido.



sábado, 7 de maio de 2011

Amor é corpo.



                                                                  Mamãe. 
Parabéns mamães...

Muitos filhos acham que o amor de um filho por sua mãe é auto-evidente, ou seja, não necessita ser dito ou demonstrado porque toda mãe sabe que o filho ama.  Eu não sou mãe, e pelo que sei ser mãe é uma experiência quase incomunicável- é necessário passar pela experiência no corpo e na alma, só assim alguém pode saber o que é ser uma mãe. Nem o pai sabe; só o corpo materno sabe. De todo modo, de uma coisa eu sei- as mães não tem toda essa certeza de serem amadas por seus filhos.  O que ocorre é que as mães tem a sensação de que o amor que elas sentem é inexplicável, mais forte do que elas. Ontem mesmo conversando com uma mãe escutei ela me dizer que se o filho morresse antes dela, ela jamais suportaria.  Eu ouso discordar. A força materna persiste, insiste e sobrevive. É mais forte do que ser mulher ou homem- é uma função humana superior e imperiosa para nossa vida como espécie humana... E assim a mãe persiste mais uma vez, mais ainda.  Ser mãe é um vaticínio mais forte do que qualquer mulher; por isso que, mesmo as que não têm filhos próprios sobrevivem a um destino tão trágico, porque ser mãe é sobreviver sempre e apesar de... Assim, permanecem mães para sempre, com outra força, outro sofrer. Minha homenagem vai para estas também. 

 Todavia, as mães erram num ponto: os filhos as amam sofregamente também.  Se o corpo é o álibi para tamanho amor, não se deve esquecer que os filhos são mais parte do  corpo feminino do que as mulheres do corpo do filho. Acredita-se que as marcas subjetivas mais primordiais são transmitidas ainda no útero. Assim, o amor de um filho por uma mãe é também inexplicável. Prova disto temos aqueles que não tiveram mães ou  foram por elas maltratados e abusados e ainda assim continuam desejando amar uma mãe...
Amor é corpo. Amor não são palavras, estas dão vida e sentido ao corpo, mas o duro do amor é o corpo a corpo- é a marca indelével de que um corpo marcou o outro. Então, mãe e filhos estão marcados eternamente para se amarem, uns sabem disso, outros aquiescem, alguns estrebucham, outros se debatem, mas não há filho indiferente a sua mãe. Na verdade, os casos de mães indiferentes aos seus filhos parecem ser mais comuns que filhos indiferentes a suas mães...
Tergiverso...
Tudo isso para tentar provar a minha própria mãe que a amo tão intensamente como sou amado. Admito que não deva ser fácil ser mãe de dois psicólogos, e, sobretudo de um projeto de psicanalista em construção. Saber que seu filho vai a análise falar,entre tantas coisas, de sua mãe deve ser uma facada no coração. Mas, eu sempre digo: isso não é falta de amor.  É amor demais. É o amor único de um filho por sua mãe que, digo temerariamente, nem Freud explica. Porque no fim das contas não se explica mesmo. Amor é corpo e o corpo, bem... o corpo é vivido. O resto é só Dito e Dizer...
Te amo mãe, parabéns.
Parabéns também a todas as mães- veteranas e as marinheiras de primeira viagem.;)

Rafael. 

Amanhã post especial.

Amanhã postagem especial para o dia das mães com o título: Amor é corpo. 



sexta-feira, 29 de abril de 2011

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Sobre Deus, homem e responsabilidade.

Vale a pena conferir a entrevista do pastor Ricardo Gondim na revista Carta Capital sobre o movimento evangélico no Brasil. Pensamento lúcido e preciso. Assino embaixo e compartilho sobretudo, de sua visão sobre  Deus e sua soberania e a responsabilidade do homem no planeta terra. Pastor Gondim me ganhou mais uma vez. Recomendo a leitura.

http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/o-pastor-herege

Aqui o site do pastor. 

terça-feira, 26 de abril de 2011

domingo, 24 de abril de 2011

Visão de mundo.

 " Ocorre que a verdade não pode ser tolerante, não permite compromissos e imitações, que a pesquisa tem que considerar todos os âmbitos da atividade humana como seus e deve se tornar implacavelmente crítica, quando um outro poder buscar usurpar alguma parte dela".  Freud em " Acerca de uma visão de mundo".

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lamentações.

O motivo porque não escrevo nada hoje é porque hoje, entre o Dito e o Dizer, paira um silêncio absurdo que quando coloco em palavras dá sentido à frase de Cristo: “Não jogueis pérolas aos porcos”.  Porque a tristeza quando compartilhada indevidamente só serve para ser pisada. O pior de tudo é que as pessoas gostam de pisar a tristeza alheia, ameniza a deles. Parece que somos feito de tal forma que fazer sofrer, de alguma forma, dá prazer.  Por isso, no sofrer o melhor é calar, em solene silêncio. Minha falta de gênio para a poesia me impede de dissolver-me em letras. Volto-me resoluto para as grandes narrativas.

Bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do SENHOR.
Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade.
Assente-se solitário e fique em silêncio; porquanto Deus o pôs sobre ele.
Ponha a sua boca no pó; talvez ainda haja esperança.
Dê a sua face ao que o fere; farte-se de afronta.
Pois o Senhor não rejeitará para sempre.
Livro de Lamentações.




domingo, 17 de abril de 2011

Stand by me.

Ontem minha irmã, Tássia, se casou com meu querido amigo Marcus Cezar. A beleza deles como casal só faz crer mais uma vez que o que a gente precisa na vida mesmo é alguém que no fim vai estar lá- standing.
Uma singela homenagem aos noivos.


Stand By Me | Playing For Change | Song Around The World from Concord Music Group on Vimeo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Tássia.

Quem diria eim Tássia, 25 aninhos? Parece que foi outro dia. Alright, cut the crap.

Todo ano tu continuas demonstrando a força que tens para viver. A garra de felino arisco que move tua vida e todos os teus planos. Pode ficar sabendo que tens aqui um admirador constante. Teus feitos e realizações não passam em branco; “ I see you”, sempre vi e se eu não morrer cedo, sempre verei. Enquanto o tempo passa  nossa diferença de idade cai e se dissolve, a dissimetria do irmão mais velho se integra a outros laços que vão se construindo. Quem dera todos tivessem condições de cruzar o laço familiar e desemborcar na amizade. É pra lá que vamos. Ontem alguém me disse a frase comum: “sabe como é família né?”.  Sim, sei, mas discordo. Família é bom, mas transpor e subverter o laço familiar é muito melhor ainda. Os deveres familiares recaem sobre nós, o sangue cobrará o preço de nossa fraternidade, e nós só sobreviveremos a tudo isso se soubermos, realmente, transmutar os valores. É isso que somos, é disso que somos feitos, eu e tu. Então, acho que não será tão difícil seguirmos num caminho que já trilhamos há tanto tempo, entre tantos amores, batalhas e vitórias. Daqui a uma semana vais viver mais uma vitória. Enquanto tantos especulam tuas lutas, cá entre nós sabemos que essa luta é “Tássia” versus “Tássia”. Nela até agora tens sido vitoriosa.  
Meus parabéns!
Muita felicidade hoje!
Com amor,

Rafael.
Os: a foto é para lembrar um momento muito feliz!

domingo, 3 de abril de 2011

Do-r-Divã.

Estou na maior dificuldade para manter o Dito sempre atualizado, pelo menos semanalmente, mas o mestrado tem consumido minhas leituras; não leio mais só o que eu gosto ou me inspira, então, nem sempre tenho muito o que dizer. Além disso uma súbita necessidade de introspecção tomou conta de mim, dei vazão e ela não quer sair. As palavras são muitas, mas a maioria presa no peito mesmo. Voltei pra análise e isso reflete na minha pouca necessidade de falar fora da análise. Quem faz análise sabe do que falo. Infelizmente, neste caso , é coisa para iniciados, pode ser explicado, mas dificilmente compreendido por alguém que nunca passou pela dor do divã.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Opinião.



texto recente que publiquei no POVO.

As notícias da catástrofe que se abateu sobre o Japão deixaram o mundo inteiro paralisado em fascinação e horror. Por sua localização geográfica o Japão está sujeito a calamidades naturais que mexem com nossos temores mais primitivos: abalos sísmicos, erupções vulcânicas e tsunamis.

Desastres naturais que trazem à tona os mistérios da história de nosso planeta--lava vulcânica, o movimento invisível das placas tectônicas e a fúria oculta dos grandes mares. Dentre esses, o terremoto parece aquele que nos causa mais pavor; além de derrubar as fortes estruturas de nossa engenharia tecnológica ele abala as certezas de nosso precioso processo civilizatório.

A cada desastre natural renasce a suspeita de que em algum lugar se esconde uma natureza indomável. O mais desconcertante é reconhecer que essa natureza constitui o cerne de nossa própria estrutura psíquica. O pavor e fascinação que eventos como esse exercem sobre nós é a pista viva de que caminhamos constantemente sobre uma frágil fronteira entre o caos e a fúria do mundo natural e nossos esforços para nos elevarmos sobre ele.

Os noticiários não cessam de nos oferecer a oportunidade de assistirmos inúmeras vezes imagens da tragédia numa compulsão coletiva a repetir as sensações de horror e medo. O resultado dessa repetição são tentativas de explicações as mais variadas: da profecia escatológica ao lamurioso discurso dos ecologistas. O certo é que a maioria das explicações parece sugerir que seríamos mais felizes se abandonássemos nossas aquisições civilizatórias e retrocedêssemos a condições primitivas.

Eventos desta magnitude geram sempre dúvidas se o fato de termos submetido as forças naturais ao nosso domínio elevou o grau de satisfação que esperamos da vida. Isto é, se os avanços tecnológicos tão caros ao progresso de nossa civilização nos fazem mais felizes. Freud no Mal-estar na civilização afirma que o poder sobre a natureza não é condição única da felicidade humana, bem como não é o único objetivo de nossos esforços culturais.

As imagens do tsunami invadindo ferozmente as cidades lançam-nos de volta à essência da civilização, cujo valor para produzir felicidade é posto em dúvida. Que preço se paga ao processo civilizatório? Um déficit entre aquilo que se espera obter de felicidade e aquilo que de fato obtemos. Isso de forma alguma quer dizer que o progresso é ruim ou que nos encaminha inexoravelmente ao apocalipse, mas que a angústia é efeito inescapável do processo civilizatório.

O progresso cultural e tecnológico caminhou lado a lado com nossa evolução e certamente não temos como afirmar que os homens em épocas anteriores eram mais felizes do que nós e nem sabemos inteiramente que papel suas condições culturais desempenharam. Freud no mesmo texto alerta para a “mania” humana de colocar a nossa própria constituição psíquica no lugar de todas as outras que não conhecemos.

Parece jargão, mas felicidade é algo absolutamente subjetivo e o preço que pagamos por sermos “civilizados” aparece no famoso verso: tristeza não tem fim, felicidade sim.

Tempestade e Fúria

A tragédia do Japão e tantas outras coloca em cheque a capacidade de nossa civilização de nos fazer felizes. Compartilho uma reflexão minha no jornal O Povo : TEMPESTADE E FÚRIA.

sábado, 19 de março de 2011

Desejo e Luta.

Em meio às turbulências da alma hoje habita, no núcleo mais duro dos motivos um desejo, um desejo muito grande. Sei que há poucas coisas na vida mais assustadores do que dar-se conta de seu próprio desejo. Neste sentido explico. O desejo aqui não seria o que muitos rapidamente presumiriam: o desejo sexual. Não necessariamente. É muito claro que todo desejo é sexual, mas sexual num sentido muito mais amplo que não caberia aqui explicar. Este desejo do qual falo é justamente a vontade de seguir em frente; sem tapar, burlar ou enganar-se de que se chegou ao objetivo da vida. Este não há. Desejar é seguir querendo...É ser fiel ao que te singulariza. Desta forma, no fundo do furação está meu desejo. E não pecarei: serei fiel a ele até o fim. Não ceder de seu desejo é a luta. Não há desejo sem a boa luta e não  há boa luta que não seja animada por um grande desejo.

sábado, 12 de março de 2011

De um processo analítico

Uma das maiores descobertas de alguém que passa por uma análise é  a constatação de que as palavras não dão conta por completo da nossa existência.  Ao mesmo tempo em que é uma descoberta fantástica também lança o sujeito numa empreitada trabalhosa de se re-inventar.  É mais ou menos : se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Solução? Domesticar o bicho. Não tem outro jeito. A angustia e a solidão de estar desamparado no mundo são constantes das quais não tem como fugir. Se fugimos por meio da negação ou do entorpecimento da vida interior o bicho pega porque a sagacidade dele foi criada e nutrida por nós mesmos;  se ficarmos paralisados pela sedução melancólica de suas cores ele nos devora sem piedade porque é da gente que ele se alimenta mesmo...Não é a toa que as palavras do profeta Isaías são: Vinde então, e arrazoemos, diz o SENHOR. O “bicho” e o sujeito cara a cara num enfretamento do qual ninguém sai ileso. Tal como Jacó lutou com o anjo, prevaleceu, mas saiu mancando com uma marca da luta. Nós, esses seres “ maltratados” pela palavra; sucumbimos a ela...O problema é sucumbi sem luta. Sem luta só resta a mais alucinante alienação... O desconhecimento completo. A luta não vence a batalha mas dá viço ao combatente e desvenda os mistérios do inimigo. Antes presas do sentido, agora nos tornamos seus aliados. Eis como se atravessa a fantasia fundamental do vivente.--A fantasia é como um castelo no qual nos refugiamos de sentidos para dar conta de nossa “ estúpida existência”. Dela nunca escapamos, mas depois de um tempo de análise conseguimos mais facilmente abandonar o castelo, dar umas voltinhas com os pés descalços e depois, resolutamente, voltar para o conforto do castelo. Só que agora ele não mais nos contém. Estamos de olhos abertos a contemplar nossa prisão sem auto-piedade ou comiseração. 

quinta-feira, 10 de março de 2011

Tenacidade.


 Segundo a física clássica Tenacidade é a energia mecânica, ou seja, o impacto necessário para levar um material à ruptura. Uma medida de quantidade de energia que um material consegue absorver antes de quebrar, fraturar. Um fino vaso de porcelana tem, por exemplo, uma baixa tenacidade. Outro significado usual é a característica de ser persistente, constante e perseverante. Ambos os significados completam a sensação que tomou conta do meu início de ano pós-carnaval. Quanta pressão podemos suportar antes de sucumbir? A arte de ser tenaz é a sabedoria de vida de poder suportar, com persistência e constância as pressões do mundo externo. 

Freud elencou três origens para o sofrimento humano em seu clássico Mal-Estar na civilização: o mundo externo ( ou a natureza), o corpo e as relações humanas. Diz-se constantemente que dentre esses três o corpo é aquele do qual jamais podemos fugir, e por isso mesmo temos psiquismo- é  a forma que o sujeito encontrou para fugir de si mesmo. A mente acaba se tornando um quarto inimigo, mais impertinente e implacável do que qualquer carrasco. O que chamamos de “ mente” foi uma brilhante solução na evolução da espécie humana, mas uma solução que não contava com os infinitos problemas que teríamos que enfrentar pelo fato de falarmos e possuirmos um aparato hermenêutico excepcional. A capacidade de compreender e explicar imediatamente nos coloca de frente com o problema que os outros também tem a mesma capacidade e confiam nela tanto quanto confiamos. É o velho problema que Freud citou: as relações humanas. Da mesma forma que não podemos fugir dos sofrimentos causados pelo corpo não temos como fugir do outro. Dito isto e com um pouco de presunção, ouso dizer que o corpo e as relações humanas também poderiam ser incluídas como causas do sofrimento situadas no “ mundo externo", isto é, na natureza.  Lidamos com o corpo e com o outro como algo externo a nós que nos faz pressão e exigências quase sempre resultando em angustia. A capacidade de ser tenaz surge como uma característica que, se adquirida a tempo, serve como uma ferramenta de sobrevivência das mais importantes. A capacidade de resistir ao sofrimento; neste sentido não tem muito sentido separar sofrimento físico de sofrimento psíquico. Uma das características principais do ser humano é ser essa sempre desconcertante fronteira de angustia. Definitivamente uma corda trêmula sobre um abismo de incertezas. A solução? Quem me dera saber, mas o caminho parece continuar sendo resistir, insistir e sobreviver...Até o fim.  

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tristeza cinza.

A tristeza cinza da quarta-feira certamente quer alguma coisa, não? Todo mundo bebeu demais, comeu demais, dormiu muito pouco ou demais...abusou do corpo demais. Em termos psicanalíticos diriamos que todo mundo gozou demais, isto é, viveu dias intensos numa mistura de prazer, cansaço, tédio e sofrimento- em outras palavras gozo quer dizer : buscar o prazer com sofreguidão. A avidez em " curtir" o máximo que se pode causa frequentemente a sensação de que o prazer durou muito pouco; coisa que fica patente quando se ouve reclames como: " o carnaval passou tão rápido!". A sensação de que durou pouco é efeito da insatisfação tão própria ao gozo. A sensação de que podia ter sido melhor; podia ter durado mais;. o pessoal no Rio curtiu mais que eu!  Gozo é ambição por prazer- desejo impaciente de sorver até a última gota de um prazer misterioso e escondido....ao qual não temos nunca acesso. Por isso a quarta-feira de cinzas, para muitos, não passa de uma grande ressaca de insatisfação que só assume sentido apoiando-se na promessa de uma nova curtição, de um novo gozo. Assim se explica que tantas pessoas hoje já estão pensando no próximo feriado- a semana santa. Desse jeito a maioria dos foliões vive de promessa de gozo em promessa de gozo; sempre num tédio insuportável que se sustenta sobre promessas ilusórias de que o próximo carnaval vai ser muito melhor...

domingo, 6 de março de 2011

A liberdade da alma.

Aproveitando o Carnaval para cortar mais algumas das amarras que nos obrigam a sermos felizes. Aproveitar o desprendimento que é ver outras pessoas curtirem muita folia e simplesmente ficar como um espectador descomprometido e tranqüilo; sem ressentimentos ou ansiedade. É um grande mistério da alma ver o outro gozar e não sentir inveja- esta é a verdadeira liberdade da alma no Carnaval.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

" todos acham que eu falo demais".

Escuto sempre a mesma coisa: “ você tem medo de amar...Você precisa se abrir para a possibilidade do amor...você tem medo de amar”. É sempre a mesma coisa, ou seja, você precisa fazer alguma coisa; ta faltando você fazer algo; você faz alguma coisa de errado; você é responsável por sua solidão. Tem de haver uma explicação! Pelo menos é o que parece para os outros.  A solidão parece um fato inaceitável sempre; repreensível e aquele que se vê preso nela é culpado por seu fado. Infelizmente os conselhos que costumeiramente escuto não passam de explicações meramente desesperadas de manter a solidão afastada de meus interlocutores. No fundo eles preferem criar mitologias para provarem que sabem o que fazer para manter seus amores perto e nunca terem que se ver sozinhos; assim se protegem de minha solidão que parece um vírus tão  letal.  Estes conselhos não passam da mais viva prova de que o pensamento mágico ainda é uma das explicações para a vida mais convincente ao homem comum- se algo de ruim nos acontece somos os únicos responsáveis por atrair tamanho mau agouro.  Um sacrifício, uma mandinga, feitiço ou “mudança de atitude” são a mesma coisa no fim das contas. Porque a verdade é que amor é sorte, o resto são tentativas fajutas de explicar coisas inexplicáveis como um humano amar o outro.  Eu só gostaria de quem teve sorte no amor tivesse também a honestidade e a integridade de reconhecer-se afortunado e não sucumbisse à vaidade humana de sentir superior, sábio ou experiente.  Há de se aceitar que, talvez, alguns humanos simplesmente não têm sorte no amor.
Ou talvez eu esteja amargurado. Ou não. 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

La petite mort.

Fiz bem em não traçar metas para este novo ano; só defini uma coisa- eu iria vivê-lo em integridade.  Ser honesto e digno comigo mesmo. Aceitar e respeitar o momento de cada dia. Ainda não defini exatamente o que se passa, mas um momento de reclusão se apresenta; uma reclusão que necessariamente não envolve isolar-me dos outros, antes de tudo, é mesmo  em companhia estar sozinho com minhas forças. A integridade requer até ser firme em minhas resoluções piegas e tão comuns.  Talvez o momento de criação esteja pedindo de mim menos estímulos, mais trabalho e mais silêncio. Um aprofundamento na minha pele, dar de ombros aos reclames e demandas.  Agir e ser menos reativo. Aceitar, sem mais delongas a infelicidade comum. Exatamente: da miséria neurótica à infelicidade comum, título inclusive de um belo livro que vi outro dia.  A miséria neurótico é quando estamos por demais presos em nossas reivindicações  insensatas ou quando as demandas do outro falam tão alto; a infelicidade comum é a constatação do vácuo sob nossos pés- é uma pequena morte- chistosamente : La pitite mort. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Isso é.

às vezes sinto uma pressão, uma intensidade imensa de seriedade como se toda a vida se manifestasse na ponta dos meus dedos e eu tivesse que simplesmente me curvar a algo. Uma pessoa grande, como uma escultura suntuosa que eu vejo nascer de dentro; algo heróico e ao mesmo tempo de uma resignação tão pura. Não é fraqueza. É força. Muita força. Algo que se move em mim e quer falar; que se prostra. É quase uma adoração. Não. Não é quase, é adoração.  É sério. É circunspecto. Tenaz e acima de tudo é muito grave. Nesses momentos confundo tudo com tristeza. Porque aprendi que sentir que as coisas são graves e importantes é tristeza; mas não é sempre tristeza, nem apatia e nem “ depressão”. É simplesmente a seriedade dos animais. É a gravidade do mundo natural. É um elefante em marcha.  É o contemplar de um leão. Sou eu maior do que eu. Nessas horas sinto vontade de chorar e choro copiosamente. Choro em reconhecimento; choro na constatação de que ver pode cegar. Choro em exaltação. A verdadeira plenitude do Espírito quando a percepção das coisas assombra um homem e ele ao levantar a cabeça olha o horizonte e tudo que pode ver é seu corpo ereto, em duas patas a contemplar o infinito.
Isso é Deus. 
Isso é. 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Rafael.

De todas as minhas personalidades, Rafael, é a mais autêntica. Talvez porque seja  ela que mais sofrimento me trás; angustias, espasmos violentos de desconforto, raiva, não, raiva não, melhor, ira. Ira justa. Por que não? Rafael é minha cara mais encruada, crua e singular que me representa tal qual Jeová em seu redemoinho. Sem medo, sem dúvidas, sem freios.  Sou minha própria avalanche, insatisfeito comigo mesmo, com tudo e especialmente com os outros. Uma dor lancinante que pede justiça. E farei justiça em minha vida com minhas próprias mãos. Porque já disse as Escrituras: sem derramamento de sangue não há remissão. Vou transformar ressentimento em vida. 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A lucidez do debate.

Aos que acompanham o Dito não deve ter escapado meu texto ontem sobre a peça O Banquete de Zé Celson em sua curta temporada em Fortaleza.  Recebi ontem um comentário de um então desconhecido para mim, David Moreno Montenegro, agora um interlocutor muito interessante. Compartilho com vocês o comentário para alimentar o debate. Espero que gostem!


Considerações ao texto: Sexo sem Desejo, de Rafael Pinheiro.

Embora vivamos em tempos de gozo administrado, cuja socialização dos desejos e constituição das sexualidades não mais se vinculem, estritamente, aos moldes prescritos pela teoria freudiana clássica do supereu, ancorada na noção de recalcamento e repressão - em razão das profundas modificações operadas na função paterna e processos de identificação social -, além do apelo contemporâneo aos excessos, não podemos esquecer a permanência de estruturas repressivas que, historicamente, têm engendrado a dimensão psicossocial do homem brasileiro, com todas suas contradições. Que me desculpem os franceses [refiro-me ao campo teórico], mas temos peculiaridades em nosso processo de construção enquanto civilização (como bem defenderam importantes antropólogos brasileiros, entre eles Darcy Ribeiro e Roberto DaMatta) que não podem ser negligenciados por maiores que sejam os mergulhos em nossa subjetividade. Minha advertência busca evitar cairmos na armadilha de perceber os processos históricos como sucessão de fatos e acontecimentos, que ao se instalarem os novos, relegam à vala comum do obsoleto os antigos. Refiro-me, precisamente, à tendência em desconsiderar como parte “do contexto e necessidades dos jovens” (linha 28 de seu texto) dos dias de hoje a dimensão da repressão sexual. Seria desnecessário tentar demonstrar a relevância do tema, bem como apresentar as inúmeras boas contribuições de diversas áreas do conhecimento ao assunto que vão desde a busca da compreensão da construção sociossimbólica do corpo e sua expressão na sociedade, até trabalhos que se arvoram a enfrentar debates em torno de políticas públicas afirmativas, contribuições que, para o bem ou para o mal, reconhecem o peso de instituições e processos repressivos ainda tão presentes em nossa sociedade de arroubos periféricos. Assim, destaco a importância em resgatarmos a dialética, talvez nos moldes propostos por Slavoj Zizek, em sua importante obra “Visão em Paralaxe”, quando desenvolve sua instigante teoria das lacunas paralácticas. Reconhecer as lacunas no processo analítico nada mais é do que atentar para o fato da convivência entre opostos nas dimensões subjetivas e objetivas (para simplificar os termos) da vida humana que não podem se reduzir a nenhum fundamento neutro comum.  Assim, reconhecer essa lacuna irredutível (dimensão repressiva de nossa sociedade e apelo ao excesso, ao mais gozar, por exemplo) de forma alguma constitui obstáculo intransponível para a dialética na busca de sua superação, mas, por outro lado, teorizar adequadamente essa lacuna torna-se “a chave que nos permite discernir seu núcleo subversivo” (Zizek, 2008, p. 15). Essa forma de proceder analiticamente está presente ainda em Marx, quando mesmo em face do aparecimento, desde fins do século XIX, do capital financeirizado, que se reproduzia com imensa sofisticação, nunca abandonou a necessidade de pensá-lo em relação ao processo mais nefasto de acumulação do capital que recorria constantemente à exploração impiedosa da força de trabalho, além da fraude, do roubo, da pilhagem, forma que denominou acumulação primitiva. Mesmo hoje, diante da acumulação financeira irrestrita, essas dimensões opostas e irredutíveis se interpenetram. Nesse sentido, se a tentativa de Martinez foi denunciar a existência de repressões à livre manifestação e expressão da sexualidade, pregando o amor livre, a temática se sustenta, inclusive, historicamente. Quanto à crua expressão do sexo esvaziado de substância e não erotizado, isso, talvez, pode-nos levar à reflexão sobre a competência do dramaturgo na composição estética do espetáculo, vez que foi promessa do próprio Martinez (e do ator Marcelo Drummond, em preâmbulo desnecessário) a excitação e encantamento do público, que seria arrebatado pelos melhores sentimentos e emoções sublimes do amor. Da mesma forma podemos interpretar a quase ausência do trágico nas encenações, ou essa falta apontaria a orgia como o momento predominante da vida e das sociabilidades na visão de Martinez?  A mesma promessa de arrebatamento, entretanto, não senti quanto a uma suposta tentativa em explorar esteticamente e “fielmente” a clássica obra O Banquete, fato que me leva a encarar a produção, no plano estético, como você bem a caracterizou: uma paródia, não mais do que isso.

Rafael, excelente seu texto!

P.S.: Peço desculpas pela pressa do escrito e possíveis imprecisões. Pretendo apenas colaborar com o debate.

Forte abraço,

David Moreno Montenegro.   

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sexo sem desejo

Recentemente fui ao Teatro José de Alencer ver a fama de José Celso Martinez. Qual não foi minha decepção ao ver um público embevecido por arte de péssimo gosto e descaso tanto com a grande sala de teatro como com a boa filosofia. Relutei em dizer algo a respeito, mas minha insistente e boa amiga Sandra me instigou e  cedi aos seus encantos. Compartilho com vocês meu texto que saiu hoje no jornal O Povo:

Sejo sem desejo em O Povo Online.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Uma aprendizagem.

O ano da integridade prossegue com exatidão. Nos trilhos como se diz.  Antigos vícios abandonados e outros revisitados na justeza do desejo.  A energia é nova e a vida se apresenta com muito menos culpa. Vou provando um jeito novo, mais calmo e mais forte. Em outras palavras aprendo a desfrutar do amor, primeiro abri-se para amar o próximo e depois um romance. Uma Aprendizagem indeed: o que não pode mesmo é amar o amor- quando se ama o amor é que fundamentalmente amamos o que não existe e a quem não tem nada mesmo para dar.  Agora é descobrir só uma coisa: o que eu tenho para dar? Eis aí uma boa questão de pesquisa, neste caso, pesquisa empírica mesmo. Nos corpos e nas palavras-- dos outros e de mim. 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Incubadora.

Os primeiros dias do ano começam muito auspiciosos. O vento frio que invade Fortaleza não conseguiu invadir meu peito.  Tenho escrito pouco; estou em processo de incubação para um Rafael mais sintético, menos glamoroso, mais mundano.  Sempre que volto a este ponto o blog volta a ser mais pessoal- como se no momento mais íntimo eu necessitasse da devassidão de uma exposição pública. Minha necessidade de ter testemunhas para o que eu viria a ser. Desde muito pequeno eu quis testemunhas; nem sempre para exibir uma palavra nova ou para divertir os adultos: eu precisava de testemunhas de uma solidão que, naquele tempo, era ainda tão doce e forte. Hoje já não sei mais de que solidão falo ou se ainda falo de solidão. Talvez, agora, eu fale de outra coisa; uma coisa que eu ainda não sei o nome. Algo que ainda virá, que se apresenta, que é muito prematuro e que, por isso mesmo, está na incubadora. 

sábado, 15 de janeiro de 2011

Integridade

A capacidade de fazer menos concessões. Fazer concessões é uma habilidade necessária para a convivência com outros humanos, entretanto, fazer concessões por acreditar demais que outros humanos irão compensar nossos princípios- ou para ser mais psicanaliticamente correto, nosso desejo- é bobagem, perda de tempo, burrice. Eu não tinha dado o tema deste ano, mas já o tenho. O ano da integridade ou ano da santidade. Holiness, em inglês vem da origem wholly- inteiro, cheio. Não tenho a pretensão de não precisar de ninguém. Mas, precisando de alguém saberei que o que vem de lá é sempre de graça ou inesperado. É como a graça divina chega quando não esperamos e não sabemos que hora vai chegar. É como a companhia de outro humano.
Espero ter dado o tom certo a este post. De forma algum foi uma reclamação ou desabafo, muito menos resolução. Vos trago uma solução...tão somente. Neste momento dá-se uma enunciação. Profético e auto-engendrado. 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

domingo, 9 de janeiro de 2011

Patas pra que te quero?

Quem sabe o perigo de se transcender a própria natureza?  Já fizemos isso quando nos tornarmos o que se classifica hoje, tal vulgarmente, como humano.  É preciso apreender quando a nossa “ humanidade “ começa a nos atrapalhar. Não há nada mais difícil do que encontrar esse insondável equilíbrio entre ultrapassar a natureza e em sucumbir a ela quando impossível ultrapassá-la.  O que foge disso é sofrimento basicamente moral ou religioso. Mas, há também o sofrimento real somente comparável ao momento quando a corça tranquilamente pasta e seu predador a surpreende com garras e dentes. Neste momento ou é fugir ou ser presa.  Ao  ultrapassarmos o perigo da vida selvagem não conseguimos escapar ao perigo da vida; ele está em nós, amalgamado – como uma infiltração primitiva no centro de nossa experiência. Sendo assim, nossas tão louvadas capacidades intelectuais superiores nos causam tantos problemas quanto trazem soluções e é aí que mora o perigo de sermos vítimas passivas da angustia. Ela vem para cobrar aquilo que nunca nos abandonou quando elevamos as nossas patas para os céus. 

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Desculpem a ausência. Estou ausente de tudo, inclusive de mim mesmo. O perigo ronda e sei disso. O perigo de retroceder um pouco. Luto, então tudo dói.