domingo, 20 de fevereiro de 2011

" todos acham que eu falo demais".

Escuto sempre a mesma coisa: “ você tem medo de amar...Você precisa se abrir para a possibilidade do amor...você tem medo de amar”. É sempre a mesma coisa, ou seja, você precisa fazer alguma coisa; ta faltando você fazer algo; você faz alguma coisa de errado; você é responsável por sua solidão. Tem de haver uma explicação! Pelo menos é o que parece para os outros.  A solidão parece um fato inaceitável sempre; repreensível e aquele que se vê preso nela é culpado por seu fado. Infelizmente os conselhos que costumeiramente escuto não passam de explicações meramente desesperadas de manter a solidão afastada de meus interlocutores. No fundo eles preferem criar mitologias para provarem que sabem o que fazer para manter seus amores perto e nunca terem que se ver sozinhos; assim se protegem de minha solidão que parece um vírus tão  letal.  Estes conselhos não passam da mais viva prova de que o pensamento mágico ainda é uma das explicações para a vida mais convincente ao homem comum- se algo de ruim nos acontece somos os únicos responsáveis por atrair tamanho mau agouro.  Um sacrifício, uma mandinga, feitiço ou “mudança de atitude” são a mesma coisa no fim das contas. Porque a verdade é que amor é sorte, o resto são tentativas fajutas de explicar coisas inexplicáveis como um humano amar o outro.  Eu só gostaria de quem teve sorte no amor tivesse também a honestidade e a integridade de reconhecer-se afortunado e não sucumbisse à vaidade humana de sentir superior, sábio ou experiente.  Há de se aceitar que, talvez, alguns humanos simplesmente não têm sorte no amor.
Ou talvez eu esteja amargurado. Ou não. 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

La petite mort.

Fiz bem em não traçar metas para este novo ano; só defini uma coisa- eu iria vivê-lo em integridade.  Ser honesto e digno comigo mesmo. Aceitar e respeitar o momento de cada dia. Ainda não defini exatamente o que se passa, mas um momento de reclusão se apresenta; uma reclusão que necessariamente não envolve isolar-me dos outros, antes de tudo, é mesmo  em companhia estar sozinho com minhas forças. A integridade requer até ser firme em minhas resoluções piegas e tão comuns.  Talvez o momento de criação esteja pedindo de mim menos estímulos, mais trabalho e mais silêncio. Um aprofundamento na minha pele, dar de ombros aos reclames e demandas.  Agir e ser menos reativo. Aceitar, sem mais delongas a infelicidade comum. Exatamente: da miséria neurótica à infelicidade comum, título inclusive de um belo livro que vi outro dia.  A miséria neurótico é quando estamos por demais presos em nossas reivindicações  insensatas ou quando as demandas do outro falam tão alto; a infelicidade comum é a constatação do vácuo sob nossos pés- é uma pequena morte- chistosamente : La pitite mort. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Isso é.

às vezes sinto uma pressão, uma intensidade imensa de seriedade como se toda a vida se manifestasse na ponta dos meus dedos e eu tivesse que simplesmente me curvar a algo. Uma pessoa grande, como uma escultura suntuosa que eu vejo nascer de dentro; algo heróico e ao mesmo tempo de uma resignação tão pura. Não é fraqueza. É força. Muita força. Algo que se move em mim e quer falar; que se prostra. É quase uma adoração. Não. Não é quase, é adoração.  É sério. É circunspecto. Tenaz e acima de tudo é muito grave. Nesses momentos confundo tudo com tristeza. Porque aprendi que sentir que as coisas são graves e importantes é tristeza; mas não é sempre tristeza, nem apatia e nem “ depressão”. É simplesmente a seriedade dos animais. É a gravidade do mundo natural. É um elefante em marcha.  É o contemplar de um leão. Sou eu maior do que eu. Nessas horas sinto vontade de chorar e choro copiosamente. Choro em reconhecimento; choro na constatação de que ver pode cegar. Choro em exaltação. A verdadeira plenitude do Espírito quando a percepção das coisas assombra um homem e ele ao levantar a cabeça olha o horizonte e tudo que pode ver é seu corpo ereto, em duas patas a contemplar o infinito.
Isso é Deus. 
Isso é. 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Rafael.

De todas as minhas personalidades, Rafael, é a mais autêntica. Talvez porque seja  ela que mais sofrimento me trás; angustias, espasmos violentos de desconforto, raiva, não, raiva não, melhor, ira. Ira justa. Por que não? Rafael é minha cara mais encruada, crua e singular que me representa tal qual Jeová em seu redemoinho. Sem medo, sem dúvidas, sem freios.  Sou minha própria avalanche, insatisfeito comigo mesmo, com tudo e especialmente com os outros. Uma dor lancinante que pede justiça. E farei justiça em minha vida com minhas próprias mãos. Porque já disse as Escrituras: sem derramamento de sangue não há remissão. Vou transformar ressentimento em vida. 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A lucidez do debate.

Aos que acompanham o Dito não deve ter escapado meu texto ontem sobre a peça O Banquete de Zé Celson em sua curta temporada em Fortaleza.  Recebi ontem um comentário de um então desconhecido para mim, David Moreno Montenegro, agora um interlocutor muito interessante. Compartilho com vocês o comentário para alimentar o debate. Espero que gostem!


Considerações ao texto: Sexo sem Desejo, de Rafael Pinheiro.

Embora vivamos em tempos de gozo administrado, cuja socialização dos desejos e constituição das sexualidades não mais se vinculem, estritamente, aos moldes prescritos pela teoria freudiana clássica do supereu, ancorada na noção de recalcamento e repressão - em razão das profundas modificações operadas na função paterna e processos de identificação social -, além do apelo contemporâneo aos excessos, não podemos esquecer a permanência de estruturas repressivas que, historicamente, têm engendrado a dimensão psicossocial do homem brasileiro, com todas suas contradições. Que me desculpem os franceses [refiro-me ao campo teórico], mas temos peculiaridades em nosso processo de construção enquanto civilização (como bem defenderam importantes antropólogos brasileiros, entre eles Darcy Ribeiro e Roberto DaMatta) que não podem ser negligenciados por maiores que sejam os mergulhos em nossa subjetividade. Minha advertência busca evitar cairmos na armadilha de perceber os processos históricos como sucessão de fatos e acontecimentos, que ao se instalarem os novos, relegam à vala comum do obsoleto os antigos. Refiro-me, precisamente, à tendência em desconsiderar como parte “do contexto e necessidades dos jovens” (linha 28 de seu texto) dos dias de hoje a dimensão da repressão sexual. Seria desnecessário tentar demonstrar a relevância do tema, bem como apresentar as inúmeras boas contribuições de diversas áreas do conhecimento ao assunto que vão desde a busca da compreensão da construção sociossimbólica do corpo e sua expressão na sociedade, até trabalhos que se arvoram a enfrentar debates em torno de políticas públicas afirmativas, contribuições que, para o bem ou para o mal, reconhecem o peso de instituições e processos repressivos ainda tão presentes em nossa sociedade de arroubos periféricos. Assim, destaco a importância em resgatarmos a dialética, talvez nos moldes propostos por Slavoj Zizek, em sua importante obra “Visão em Paralaxe”, quando desenvolve sua instigante teoria das lacunas paralácticas. Reconhecer as lacunas no processo analítico nada mais é do que atentar para o fato da convivência entre opostos nas dimensões subjetivas e objetivas (para simplificar os termos) da vida humana que não podem se reduzir a nenhum fundamento neutro comum.  Assim, reconhecer essa lacuna irredutível (dimensão repressiva de nossa sociedade e apelo ao excesso, ao mais gozar, por exemplo) de forma alguma constitui obstáculo intransponível para a dialética na busca de sua superação, mas, por outro lado, teorizar adequadamente essa lacuna torna-se “a chave que nos permite discernir seu núcleo subversivo” (Zizek, 2008, p. 15). Essa forma de proceder analiticamente está presente ainda em Marx, quando mesmo em face do aparecimento, desde fins do século XIX, do capital financeirizado, que se reproduzia com imensa sofisticação, nunca abandonou a necessidade de pensá-lo em relação ao processo mais nefasto de acumulação do capital que recorria constantemente à exploração impiedosa da força de trabalho, além da fraude, do roubo, da pilhagem, forma que denominou acumulação primitiva. Mesmo hoje, diante da acumulação financeira irrestrita, essas dimensões opostas e irredutíveis se interpenetram. Nesse sentido, se a tentativa de Martinez foi denunciar a existência de repressões à livre manifestação e expressão da sexualidade, pregando o amor livre, a temática se sustenta, inclusive, historicamente. Quanto à crua expressão do sexo esvaziado de substância e não erotizado, isso, talvez, pode-nos levar à reflexão sobre a competência do dramaturgo na composição estética do espetáculo, vez que foi promessa do próprio Martinez (e do ator Marcelo Drummond, em preâmbulo desnecessário) a excitação e encantamento do público, que seria arrebatado pelos melhores sentimentos e emoções sublimes do amor. Da mesma forma podemos interpretar a quase ausência do trágico nas encenações, ou essa falta apontaria a orgia como o momento predominante da vida e das sociabilidades na visão de Martinez?  A mesma promessa de arrebatamento, entretanto, não senti quanto a uma suposta tentativa em explorar esteticamente e “fielmente” a clássica obra O Banquete, fato que me leva a encarar a produção, no plano estético, como você bem a caracterizou: uma paródia, não mais do que isso.

Rafael, excelente seu texto!

P.S.: Peço desculpas pela pressa do escrito e possíveis imprecisões. Pretendo apenas colaborar com o debate.

Forte abraço,

David Moreno Montenegro.   

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sexo sem desejo

Recentemente fui ao Teatro José de Alencer ver a fama de José Celso Martinez. Qual não foi minha decepção ao ver um público embevecido por arte de péssimo gosto e descaso tanto com a grande sala de teatro como com a boa filosofia. Relutei em dizer algo a respeito, mas minha insistente e boa amiga Sandra me instigou e  cedi aos seus encantos. Compartilho com vocês meu texto que saiu hoje no jornal O Povo:

Sejo sem desejo em O Povo Online.