terça-feira, 7 de novembro de 2006

sem alma ninguém te recrimina.

Esperança. Alguem muito especial sugeriu que eu escrevesse sobre esperança. Talvez hoje seja um bom dia para falar sobre o Esperar. Sobre a esperança que me dá paz. Deixarei de lado um pouco os contos por hoje ou será que não...acho que não.


...era como se sua alma estivesse pacata, santa e sem lutas. A luta tinha acabado . Tanta luta por nada- pensou em voz alta. Tanta luta e sacrifício de sua alma por alarmes inacabados e difusos. Sempre fora alarmada; vivia e ainda vive a vida feita de alarmes. Vive no assombro de cada momento- na iminência do catastrófico sobrevir ; destemida sempre vivera, insistia em viver. De sua insistência vampiresca tirava forças para acordar a cada manhã esperando pelo encontro com a Espera.

Espera inacabada também...tudo em sua vida era inacabado e gostava disso. Viver o inacabado era a única forma que encontrara para ter paz. Sentia que no fim tudo seria terrível. Hoje, por motivos que sabe, mas não quer contar, estava em paz. Como que renascida de uma longa hibernação. Hibernou para a morte e acordou feliz.

Sentiu que tinha a vida em suas mãos; como se de uma súbita tomada de consciência relembrasse o útero – paz divina de quem sabe que não pode morrer. De repente uma potência tomou seu ser: seria a vida a insistir novamente?

Não soube. Só sentia um renascimento espontâneo de uma nova chance para viver. Do inacabado fez o infinito- tomou o eterno pelo rabo e viajou sem limites...Fronteira do espaço entre si mesma e o fim de tudo. Deixou o tédio de lado...Sim, pelo menos hoje tentaria não gozar de sua melancolia..Haveria de ter novas formas de alegria. Sim, alegria pura, porque ser alegre é o máximo que se pode esperar da vida. Ser feliz é pretensão de ingênuos. Pretensiosa ela não era. Estar alegre era um brando alento para uma alma tão inquieta e volátil.

Sentiu sua alma fugir sem pressa...Correu como o vento corre..pra frente, para todos os lados...com força e sem rumo. Correu por cabelos por aí...Gente dispersa e errante...ventilou bocas e casamentos...sua alma foi e nunca voltou. Ela nem queria mesmo ter alma. Isso é coisa para atribulados- pensava com desassossego, pois não tinha certeza disso.

Sem alma e morta para a espera entregou-se ao Ser mais límpido que conhecia: seu corpo e sua conexão com o Eterno. Entrego-se sem reserva àquilo que não compreendia. Sentiu-se contente...um passo para se sentir alegre. Deitou-se mansa sobre a cama mal arrumada...acendeu um cigarro e fumou de uma vez.

_ sem alma ninguém te recrimina. Falou bem baixinho..sussurrando quase. Sossegada deixou o sono leva-la. Foi pra bem longe, para os sonhos aonde não era perseguida. Segui sozinha...foi um gozo sem tristeza. Fechou a boca e dormiu.

2 comentários:

  1. Muito bom!!!
    paarbens

    savio

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  2. e mais uma vez voltamos à alma... essa que por mais que vc tente pensar com o cérebro... sentir com o coração... respirar com o pulmão...faz tudo isso com ela.
    E a esperança? No final das contas é somente a certeza de que esperaremos confiantes, é aquele porto seguro, o alvo, aquilo que vc olha e por causa dessa visão continua caminhando...por dias, por meses, por anos... sabendo que está fazendo a coisa certa, pq quando há esperança não há dúvida!

    adorei esse texto...sinceramente!

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