
Ontem tive a oportunidade de visitar mais uma igreja em Fortaleza. É a “igreja da tenda”, como é chamada pelos fiéis entusiasmados.
Para quem ainda não sabe, eu nasci em uma família protestante que se converteu em uma igreja Batista. Foi lá onde eu cresci e aprendi os primeiros passos da teologia protestante. De lá para cá já fazem alguns bons anos ( mas não revelo minha idade nem sob tortura!) vividos no meio evangélico. Já vi todo tipo de mudanças: desde a saída da minha família de uma igreja história tradicional para uma nova comunidade de cristão mais progressistas até que meu pai se tornou pastor de uma denominação neo-pentecostal. Hoje ele preside uma comunidade evangélica de cunho neo-pentecostal moderada.
Fui criado nesse meio, portanto, posso dizer que já vi quase toda a evolução da igreja evangélica nos últimos 20 anos. Hoje o que vemos é uma profusão de filiais de grandes impérios espalhadas pelo país semelhantes a “ Mac Donalds” religiosos. Eu vivi o início da Igreja
Universal do Reino de Deus>; Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra, Igreja Bola de Neve, etc, só para citar algumas denominações neo-pentecostais.
Basicamente, a teologia destas “ igrejas” fundamenta-se na obtenção de poder, graça e prosperidade no aqui e agora. Curas miraculosas, “ passes espirituais” e , principalmente, promessas de obtenção de riquezas por meio de doações voluptuosas são os temas mais explorados por seus “ pastores”. A igreja evangélica já experimentou todas as modas possíveis e imagináveis em seu afã de arrebatar mais e mais fiéis.
Já passamos pela fase do “boom” da música, quando os velhos hinários foram substituídos por canções com uma roupagem mais contemporânea e de conteúdo espontâneo. Passamos também pela fase da “ quebra de maldições hereditárias”, nas quais acreditava-se que o sujeito tinha que quebrar as maldições herdadas dos pecados de seus antepassados.
Depois veio a era do “cair no espírito”, das línguas espirituais, dos “arrebatamentos”, “ dente de ouro”, “ unção do riso”; essa foi a fase das grandes e inovadoras manifestações do Espírito Santo.
Mais recentemente, os evangélicos passaram, e ainda estão passando, pelo delírio de “ Pink e o Cérebro”. Neste famoso desenho animado ( hilário aliás..) dois ratinhos tentam, sempre sem sucesso, com planos mirabolantes, conquistar o mundo.
Surgiu o movimento G-12 na Colômbia que se espalhou pelo mundo todo incitando os fiéis a conquistaram o mundo por meio da evangelização em massa, o trunfo? As células. Essa fase permanece até hoje. Na verdade, o G-12 é só um sintoma de uma moda que já vinha se estabelecendo: o ativismo. Em reação às igrejas protestantes históricas, começaram a criar os mais variados métodos para fazer a experiência religiosa o mais assimilável possível aos não crentes. É assim, sai moda, entra moda e os evangélicos todos vão como formiguinhas atrás de açúcar! Desesperados por algo que lhe tire do marasmo de sua parca, fria e superficial experiência espiritual.
Qualquer coisa ta valendo, contanto que eles sintam que estão no caminho certo. Se a igreja não cresce, eles logo encontram a solução: não estamos usando o método certo. Se os jovens não mais freqüentam a igreja, logo eles descobrem uma nova fórmula: temos que modernizar. Se os fiéis não são mais tão engajados, não tarda e eles encontram uma solução: O monge e o executivo.
Na verdade, o que menos os evangélicos fazem é refletirem sobre o impacto que sua dita relação com Cristo tem sobre suas vidas. Todas essas modas e ventos de novas doutrinas nada mais são do que tentativas frustradas de preencherem um vazio espiritual deixado por sua fé rasa e sem brilho. O fulgor e vitalidade de sua fé estão enevoados por um excesso de falso moralismo e afundados nas trevas de regras como “ não toque”, “não mexa”, “ não faça”.
A vida de Cristo nos crentes está apagada por uma fé acética que luta em não aceitar que nós somos na verdade “ humanos, demasiado humanos”. O brilho de Jesus está quase que todo apagado por olhos que vêem maldade em tudo; olhos disciplinantes que, como nos tempos de Jesus, não tiram a trave de seu olhos antes de tirar o cisco no olho do outro.
É assim que, através dos anos, os evangélicos tentam suprir o vazio de sua experiência de conhecer o verdadeiro Cristo com métodos, modas e princípios. Cada vez que os estudos em administração de empresas criam um novo método, em pouco tempo a igreja já o “ evangelizou”. Rapidamente, pastores encontram versículos bíblicos que justifiquem o uso de tais métodos para “ melhorar” a vida da igreja. É uma triste realidade, mas não é nada diferente das andanças da igreja católica que já passou por todo esse mesmo processo de decadência. O que a igreja Católica é hoje a igreja evangélica será daqui a não menos que 50 anos. Talvez menos.
Quanto a “igreja da tenda”...Já nem lembro como fui chegar neste ponto. Acho que tinha alguma coisa a ver com modismos e “ trends” no meio evangélico. De repente, a nova moda agora vai ser erguer tendas por todo o Brasil.....