sexta-feira, 30 de maio de 2008

Pais e filhos



Comentário dos meus pais no meu aniversário:


"Nós temos muito a dizer. Tu chegaste como um milagre. os médicos diziam que nao podiamos gerar filhos, mas Deus disse em nós: "haja Rafael"; e assim vieste.
Por isso temos a dizer: Tu foste, tu és e sempre serás bem-vindo entre nós.Parabens filho.
Teu e pai e tua mãe"

quarta-feira, 28 de maio de 2008

29 .




Faço 29 anos. Hoje me veio minha imagem nascendo há 29 anos.
E pra que mesmo é que se nasce?
29 de maio fazendo 29 anos. Bem cabalístico não? A idade coincidindo com o dia do meu nascimento. Babozeira né?
É que no dia do nascimento não se tem nada a dizer. Ou melhor: eu não tenho nada a dizer. Na verdade, chego ao meus 29º aniversário com quase nada para dizer. Não há mal-estar, não há alegria ou júbilo de estar vivo. Não há necessidade de festejar com os amigos. Pelo menos resta um dizer por aqui, ou melhor, um semi-dizer.

Se eu disser que estou sem paciência não seria acurado. Acho que o que expressa melhor é que não quero dizer o que eu tenho para dizer para ninguém. Também não estou tendo crise adolescente de “ ninguém me entende”. Isso é um fato consumado desde sempre: ninguém entende ninguém. Mas não é isso. A questão é que não encontro alguém a quem endereçar agora essa fala que me brota. É algo que no momento me basta dizer a mim mesmo. Narcisismo primário? Acho que não. não está no registro da admiração, mas de algo que quero dizer mesmo. Uma verdade que só pertence a mim.
Sabe que liberdade isso representa?
Não. Provavelmente se você está achando o post arrogante e me julgando por individualista, narcisista e auto-suficiente você não sabe nada e nem entende nada.

29 anos.

sábado, 24 de maio de 2008

Tendas e trends...







Ontem tive a oportunidade de visitar mais uma igreja em Fortaleza. É a “igreja da tenda”, como é chamada pelos fiéis entusiasmados.

Para quem ainda não sabe, eu nasci em uma família protestante que se converteu em uma igreja Batista. Foi lá onde eu cresci e aprendi os primeiros passos da teologia protestante. De lá para cá já fazem alguns bons anos ( mas não revelo minha idade nem sob tortura!) vividos no meio evangélico. Já vi todo tipo de mudanças: desde a saída da minha família de uma igreja história tradicional para uma nova comunidade de cristão mais progressistas até que meu pai se tornou pastor de uma denominação neo-pentecostal. Hoje ele preside uma comunidade evangélica de cunho neo-pentecostal moderada.



Fui criado nesse meio, portanto, posso dizer que já vi quase toda a evolução da igreja evangélica nos últimos 20 anos. Hoje o que vemos é uma profusão de filiais de grandes impérios espalhadas pelo país semelhantes a “ Mac Donalds” religiosos. Eu vivi o início da Igreja Universal do Reino de Deus>; Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra, Igreja Bola de Neve, etc, só para citar algumas denominações neo-pentecostais.



Basicamente, a teologia destas “ igrejas” fundamenta-se na obtenção de poder, graça e prosperidade no aqui e agora. Curas miraculosas, “ passes espirituais” e , principalmente, promessas de obtenção de riquezas por meio de doações voluptuosas são os temas mais explorados por seus “ pastores”. A igreja evangélica já experimentou todas as modas possíveis e imagináveis em seu afã de arrebatar mais e mais fiéis.

Já passamos pela fase do “boom” da música, quando os velhos hinários foram substituídos por canções com uma roupagem mais contemporânea e de conteúdo espontâneo. Passamos também pela fase da “ quebra de maldições hereditárias”, nas quais acreditava-se que o sujeito tinha que quebrar as maldições herdadas dos pecados de seus antepassados.



Depois veio a era do “cair no espírito”, das línguas espirituais, dos “arrebatamentos”, “ dente de ouro”, “ unção do riso”; essa foi a fase das grandes e inovadoras manifestações do Espírito Santo.



Mais recentemente, os evangélicos passaram, e ainda estão passando, pelo delírio de “ Pink e o Cérebro”. Neste famoso desenho animado ( hilário aliás..) dois ratinhos tentam, sempre sem sucesso, com planos mirabolantes, conquistar o mundo.



Surgiu o movimento G-12 na Colômbia que se espalhou pelo mundo todo incitando os fiéis a conquistaram o mundo por meio da evangelização em massa, o trunfo? As células. Essa fase permanece até hoje. Na verdade, o G-12 é só um sintoma de uma moda que já vinha se estabelecendo: o ativismo. Em reação às igrejas protestantes históricas, começaram a criar os mais variados métodos para fazer a experiência religiosa o mais assimilável possível aos não crentes. É assim, sai moda, entra moda e os evangélicos todos vão como formiguinhas atrás de açúcar! Desesperados por algo que lhe tire do marasmo de sua parca, fria e superficial experiência espiritual.



Qualquer coisa ta valendo, contanto que eles sintam que estão no caminho certo. Se a igreja não cresce, eles logo encontram a solução: não estamos usando o método certo. Se os jovens não mais freqüentam a igreja, logo eles descobrem uma nova fórmula: temos que modernizar. Se os fiéis não são mais tão engajados, não tarda e eles encontram uma solução: O monge e o executivo.



Na verdade, o que menos os evangélicos fazem é refletirem sobre o impacto que sua dita relação com Cristo tem sobre suas vidas. Todas essas modas e ventos de novas doutrinas nada mais são do que tentativas frustradas de preencherem um vazio espiritual deixado por sua fé rasa e sem brilho. O fulgor e vitalidade de sua fé estão enevoados por um excesso de falso moralismo e afundados nas trevas de regras como “ não toque”, “não mexa”, “ não faça”.



A vida de Cristo nos crentes está apagada por uma fé acética que luta em não aceitar que nós somos na verdade “ humanos, demasiado humanos”. O brilho de Jesus está quase que todo apagado por olhos que vêem maldade em tudo; olhos disciplinantes que, como nos tempos de Jesus, não tiram a trave de seu olhos antes de tirar o cisco no olho do outro.

É assim que, através dos anos, os evangélicos tentam suprir o vazio de sua experiência de conhecer o verdadeiro Cristo com métodos, modas e princípios. Cada vez que os estudos em administração de empresas criam um novo método, em pouco tempo a igreja já o “ evangelizou”. Rapidamente, pastores encontram versículos bíblicos que justifiquem o uso de tais métodos para “ melhorar” a vida da igreja. É uma triste realidade, mas não é nada diferente das andanças da igreja católica que já passou por todo esse mesmo processo de decadência. O que a igreja Católica é hoje a igreja evangélica será daqui a não menos que 50 anos. Talvez menos.



Quanto a “igreja da tenda”...Já nem lembro como fui chegar neste ponto. Acho que tinha alguma coisa a ver com modismos e “ trends” no meio evangélico. De repente, a nova moda agora vai ser erguer tendas por todo o Brasil.....

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Derrida, Caim e Abel.




Recentemente descobri uma preciosidade, o livro “ O animal que logo sou” , de Jaques Derrida. O livro veio num momento bem oportuno da escrita de um artigo no qual já estou trabalhando há mais ou menos 3 meses. O livro trata, brilhantemente ( e poeticamente )do limiar que há entre o humano e o animal. O autor busca desconstruir o conhecimento já existente, por isso que ele é chamado de um filósofo da desconstrução. Mas, o que realmente me chamou a atenção neste livro foi sua própria leitura do texto bíblico de “ Caim e Abel”. Lembrei-me disto quando no culto de domingo um pastor se utilizou deste texto para falar sobre “ dar o melhor que temos “ ao Senhor.

Há muito tempo que esta passagem bíblica me incomoda . As interpretações vigentes nunca me convenceram. Sou muito relutante em aceitar que Deus não aceitou o sacrifício de Abel simplesmente porque ele não oferecera “ o seu melhor” ou “ suas primícias”. Isso pra mim não passa de um falatório confuso e esteriotipado. Coisa que hoje em dia eu corro à léguas!

Para Derrida, o sacrifício de Abel foi aceito pois este funciona como uma alegoria para o surgimento do humano no homem. Assim como no Édem um cordeiro ( um animal) teve que morrer quando Adão e Eva se viram nus. Para Derrida, a vergonha é o principal sentimento que nos diferencia dos outros animais-- a capacidade de estarmos nus e percebermos isso. O conhecimento do bem e do mal. Assim foi com Abel. Ele sacrificou o animal em si. Houve uma passagem do animal para o humano; passagem esta que Caim não elaborou visto que permaneceu em sua conexão com a terra e seus frutos, ou seja, como parte dela. Abel é uma perfeita alegoria de uma passagem de um estado de natureza para o humano, eminentemente cultural. Desta forma, consigo ver muito mais sentido no texto e sua riqueza é descortinada. Por que Caim foi expulso da face de Deus e condenado e fugir para sempre? Por que Deus amaldiçoou Caim, mas deixou nele uma marca para que homem algum o assassinasse? Caim tornou-se então um assassino que não poderia ser vingado. Podemos pensar então, que Abel ( aquilo que é nós é humano ) jamais poderá matar Caim ( aquilo que em nós é animal). O animal em nós foi banido para um reino alheio ao nosso alcance simbólico, mas nós conhecemos seus efeitos. O animal em nós continuamente está à espreita: “ o teu desejo está à porta, cabe a ti dominá-lo”.

Foi assim que Deus alertou Caim sobre o perigo que lhe espreitava. Em outras traduções podemos encontrar: “ O teu desejo está à espreita, ou está entocado, como um animal procurando a melhor hora para atacar”.

Eis o animal em nós. Ele nos olha. Somos humanos, no entanto, nossa parte “ maldita” está sempre próxima. Não a conhecemos e gastamos muita energia para mantê-la longe, mas é impossível escapar de seus efeitos. O animal insiste, ou como diria Lacan: o real insiste. O " real" em psicanálise, é tudo aquilo que nos escapa; que é refratário à simbolização. É nossa parte de " mal-olhado", nossa parte maldita. Ele é o " furo" ao redor do que fazemos girar todas as questões acerca de nossa origem e sentido da vida como seres humanos. Caim e Abel surpreedentemente tornaram-se uma rica lição de psicanálise para todos´nós. Basta saber ler...ter ouvidos para ouvir.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Isabelando...


Peço desculpas ao leitor pelos dias de ausência. É que em fim de semestre me sobra pouco tempo, e o pouco que sobra eu dedico aos encantos de Morpheu, meu fiel escudeiro.
Hoje passo rapidamente para lançar uma questão ao alto, vamos ver se dá cara ou coroa.
Recentemente todos ficaram enjoados de ouvir ( pelo menos eu já estou cansado ) a estória da “ menina Isabela”. Aliás, não perderei a oportunidade de uma piada de mal gosto e cáustico humor negro. Já dizia Freud que o humor é uma das melhores formas de elaboração de nossa angústia. Então lá vai.
Depois do episódio Isabela eu criei um singelo neologismo, o verbo “ isabelar”.
“ ISABELAr”: lançar pessoa ou objeto de uma altura de no mínimo seis andares cujo autor do lançamento é pessoa desconhecida, e/ou um misterioso terceiro. Por exemplo: “ mulher, deixe de me apoquentar senão eu te “ isabelo” lá embaixo!”.
Não viram graça nenhuma né?
Pois, este é exatamente meu ponto hoje. Agora mesmo li no jornal que na China um terrível terremoto assolou o país. Segundo o jornal, foi o maior terremoto desde a criação da República Popular da China em 1949. Estima-se que mais de 50 mil pessoas morreram e milhares ainda estão desaparecidos. É uma verdadeira tragédia. Mas, o que realmente surpreende ainda mais é o fato de que ninguém que eu conheça, ou mesmo os meios de comunicação, comentam esse fato de maneira tão exaustiva como comentam o “ caso Isabela”. Por que se dá isso? Por que a morte de uma garota causa mais frenesi que a morte de 50 mil pessoas na China?
Não tenho pretensões de dar a resposta, minha intenção é tão somente lançar uma questão e ver que efeitos ela pode causar no leitor. O mínimo que posso fazer é propor uma hipótese, que, só se configura por enquanto em minha opinião pessoal sustentada por um discurso que me atravessa, a saber: a psicanálise.
Vivemos numa sociedade violenta e cercada por criminosos em cada esquina. Em cidades como Fortaleza o medo praticamente domina todas as pessoas. Mesmo assim, o inimigo é invisível. Quem são os nossos inimigos e quem é o responsável por tanta instabilidade? Não se sabe dizer. Lançamos reclamações contra entidades como “ o governo” ou mais metafísicamente, a “ violência”. Mas, realmente, o que é “ a violência” e quem é “ o governo”? E acima de tudo, quem é o responsável pela instabilidade social e econômica na qual vivemo? Alguns poderiam bradar: o capitalismo!
Eu não discordo. Mas, ainda resta a mesma pergunta: quem é o capitalismo? Ainda existe a figura do capitalista? Em tempos de capital globalizado, onde já existem empresas virtuais cujos acionista podem estar em Pequim, New York e Brasil, onde está a cara deste grande Senhor capitalista? Não existe. É um amo sem rosto.
Talvez por isso que os pais de Isabela podem estar fazendo semblante de um inimigo palpável que ameaça desestabilizar os laços sociais. Eles não só atualizam e lançam a céu aberto sentimentos que estão latentes em todos nós, tais como o ódio e a violência, como também se apresentam como possíveis bodes expiatórios para uma culpa que não encontra redenção.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Affaire d' amour- Caso de amor.


“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas”. ( Fernando Pessoa)

Acordou como em todos os dias: inanimado. Virou-se procurando um corpo, ou quem sabe ao menos o calor de uma sensação de continuidade do seu próprio corpo. Queria pertencer; a fatiga que aqueles anos de solidão lhe causavam era como prender a respiração—doíam-lhe os pulmões. Revirou-se na cama mais uma vez e acendeu um cigarro; pensou se um dia alguém lhe daria um motivo decente para desistir do vício. Era tudo que o cigarro representava em tempos de vacas magras: um companheiro silencioso.

Desceu as escadas meio trôpego; tomou café às pressas, pegou o jornal e tomou o rumo da rua. A rua agora era uma manada indiferenciada para ele. Ninguém saltava da multidão; ninguém que captasse seu olhar. Sempre fora muito exigente com os olhares. Queria ser olhado. Cansara-se da transparência que o mundo lhe dera. Sentia-se como que translúcido. Ele não olhava para ninguém e ninguém lhe via. Fumou mais um cigarro. A fumaça subia fazendo círculos concêntricos que embebedavam seu olhar; não via nem era visto, e ser visto era tão bom. Afinal de contas,--pensou resoluto--, olhar e ser visto é o que dá sentido a uma vida tão banal como esta que nos foi dada.

Sentou-se num banquinho em uma praça bucólica para ler o jornal. Os contos de fadas eram mitos distantes para ele...Deixou-se carcomer por uma mágoa boa; boa como bicho de pé. Daquelas dores que tem serventia para lembrar que se está vivo. Coçou o pé...Leu mais um pouco e olhou. Finalmente olhou.

Viu num outro banco um olhar que lhe via. Viam-se no instante mesmo que o olhar de um chegava ao outro. Permaneceu com o olhar fixo; encarou mesmo. Não demorou muito, mas foi o suficiente para que pudesse perceber seus cabelos negros que esvaiam com o vento; caiam-lhe sobre a testa. Seu fino movimento de levar os cabelos com a mão lhe fizeram tremer os joelhos. Sabia-se visto: ternura e curiosidade. Sentiu-se olhado por olhos que lhe diziam mais ou menos assim:

“ Veja que te olho. O que há em ti que me chamou o olhar? Que me capturou completamente? Eu te olho como olho pra dentro de mim, e você tem esse traço especial das pessoas que nasceram para as exceções. Eu te olho pra te contemplar. Nada quero saber... Não é só curiosidade. Te olho porque me olhas como ninguém jamais me olhou”.


Levantou-se do banco num ímpeto cansado, mas levantou. Sabia que caso não se erguesse naquele momento, não haveria outro—olhares não se cruzam à toa—isso ele já sabia muito bem. Sentaram-se lado a lado. Sem nada dizer, suas mãos tocaram-se levemente. Um calor bom; um senso de pertença.

--Sabes que conversa sem contemplação é enfadonha. Você sabe...Eu não te conheço, mas eu te quero tanto....” todos temos um segredo, não pense que eu não posso ir mais devagar”.
---Não precisa ir devagar...You know I don´t know you, but I want you so bad. Você não pode guardar seu segredo sozinho…Eu sei que não pode. Eu te vi. “ultimamente eu tenho tido os sentimentos mais estranhos, sem nenhuma razão vívida para lutar”. Gostei do seu perfume....
--Usarei sempre. A verdade é que nem gosto muito dele, mas você gosta. Usarei sempre.
--Sabe que redenção você representa para mim? Não sabe...Mas não precisa saber. Você vai sentir... Lentamente que, mesmo sem saber, você me despertou. E despertar é muito bom. Obrigado.
--- Ainda é um começo e todo começo é muito intenso...Não soa um pouco ridículo, digo, assim juntos, como se nada mais houvesse? Patético ?
---Sim, é só o princípio. Não se preocupe...Vai ficar cada dia mais ridículo à proporção que o amor toma ritmo. O amor é o ridículo da vida, mas na vida, o que há de melhor é o amor. Então, ser ridículo é o mínimo que a vida exige de nós. Ser esperto é platitude. É pura encheção de lingüiça. O bom mesmo é amar.
--É amor o que sentimos?
--Sim, é amor. Sejamos então ridículos...Por muitos outros meses...

domingo, 4 de maio de 2008

Uma palavrinha sobre o perdão


Na igreja que freqüento existe um momento no início do culto chamado “prelúdio”. Neste tempo, toda congregação é estimulada a parar um pouco, meditar e orar. Neste momento comecei a fazer um mea culpa: uma revisão de meus sentimentos durante a semana. Ao abrir meu coração com Deus tive uma revelação que me custou muito, mas foi muito importante: Perdoai nossas ofensas assim como temos perdoado nossos devedores.

De repente tive uma abrupta revelação desta verdade espiritual. Várias cenas vieram a minha cabeças sobre pessoas que eu amo, mas que falharam comigo. Pensei em como eu fui implacável com eles; como eu exigi que eles não falhassem em nada comigo. Exigi que o amor delas por mim fosse incondicional. Comportamentos que eu mesmo faço, nelas eu achei intolerável. Nesse momento me lembrei de outro texto: “Não terás outros deuses diante de mim”.

Esse versículo me saltou aos olhos quando eu percebi sua verdade: quando esperamos de um ser humano que ele seja perfeito fazemos dele um deus, porque só uma deidade é infalível. Quando esperamos de outro ser humano que ele nos ame sem reservas; que nunca falhe; que nunca se atrase; que esteja sempre disponível; que não nos deixe esperando numa sexta-feira a noite...Quando esperamos que outro ser humano não tenha fraquezas; que nos compreenda por completo...Essas coisas que nós adoramos fazer.

Outro versículo fez todo sentido para mim: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. Esta é A VERDADE fundamental de toda fé cristã: somente em Deus colocamos nossa esperança. Isso que dizer que esperar de um outro ser humano aquilo que somente Deus pode nos dá é uma empreitada falida antes mesmo de começar.
Foi assim que num segundo ( como é típico de uma revelação) eu perdoei. Simplesmente perdoei. Aos desavisados, perdoar não quer dizer esquecer. A mágoa passa com o tempo. O perdão serve para nós mesmos. Quando perdoamos percebemos que ninguém é perfeito; que nós mesmos não somos perfeitos e que não podemos exigir de ninguém mais do que um ser humano pode ser: um ser húmus. Perdoar é ao mesmo tempo ser trespassado pela condição humana de ser-para-falta, como também ver no outro nossa própria falta. É só assim que eu consigo entender a conexão entre estes versículos:

Amarás ao Senhor teu Deus de todo coração. Não colocarás nada, nem ninguém na posição que somente Deus consegue ocupar, esse lugar deve permanecer vazio. Assim, vocês poderão perdoar as falhas uns dos outros, quando perceberam que só há um Pai e que todos vocês são semelhantes: irmãos que dependem de um só Supridor. Só assim vocês serão capazes de se amarem, sem cobranças e rancores.

Uma boa semana a todos na Graça de Deus,

Rafael.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Paris te amo


Existem programas de sexta-feira a noite que me encantam muito. Um deles é ficar em casa na companhia de poucos amigos ( quando digo poucos quero dizer realmente, pouquíssimos amigos; no meu caso, dois), abrir um vinho, ou uma coca, ou quem sabe simplesmente copos d’água; alugar um filme e se refestelar. A escolha de hoje foi “ Paris je t’aime”. Um filme singelo, porém, de uma beleza singular. A proposta do filme é mostrar o cotidiano de pessoas que moram em Paris. Nunca tinha visto um filme que mostrasse Paris tão nua perante as câmeras: sem eufemismos ou uma imagética nostálgica. Paris está crua na vida de cada personagem que vive seu “ pão de cada dia”. não se ouvem lamentos ou um sentimento niilista ou com pretensões existencialista. Se eu quiser dar uma categoria devo alojá-la na literatura. Assistir ao filme é como ler uma coletânea de contos; a mesma rapidez e fluidez de um bom conto. Cada estória flui sem começou ou fim deixando o espectador com a mesma sensação de “ falta-a-ser” que é tão própria da vida.
Sendo hoje sábado, recomendo o mesmo programa aos solitários de plantão que andam por aí reclamando da vida chata que levam: vá à locadora mais próxima e peça “ Paris te amo”. Você vai adorar. Quem sabe ajude a ampliar sua solidão. É como eu disse para um amigo esses dias: “ a gente não luta contra a solidão...para vence-la é preciso deixar que ela nos vença...É preciso amplificar nossa solidão até que se escute para que ela veio. Mas, é preciso escutar. A solidão fala, mas enquanto reclamamos dela não escutamos sua voz”. Falando nisso...Sugiro também a leitura de Rilke, o poeta. Fará muito bem a qualquer um: solitário ou apaixonado.