quarta-feira, 21 de maio de 2008

Derrida, Caim e Abel.




Recentemente descobri uma preciosidade, o livro “ O animal que logo sou” , de Jaques Derrida. O livro veio num momento bem oportuno da escrita de um artigo no qual já estou trabalhando há mais ou menos 3 meses. O livro trata, brilhantemente ( e poeticamente )do limiar que há entre o humano e o animal. O autor busca desconstruir o conhecimento já existente, por isso que ele é chamado de um filósofo da desconstrução. Mas, o que realmente me chamou a atenção neste livro foi sua própria leitura do texto bíblico de “ Caim e Abel”. Lembrei-me disto quando no culto de domingo um pastor se utilizou deste texto para falar sobre “ dar o melhor que temos “ ao Senhor.

Há muito tempo que esta passagem bíblica me incomoda . As interpretações vigentes nunca me convenceram. Sou muito relutante em aceitar que Deus não aceitou o sacrifício de Abel simplesmente porque ele não oferecera “ o seu melhor” ou “ suas primícias”. Isso pra mim não passa de um falatório confuso e esteriotipado. Coisa que hoje em dia eu corro à léguas!

Para Derrida, o sacrifício de Abel foi aceito pois este funciona como uma alegoria para o surgimento do humano no homem. Assim como no Édem um cordeiro ( um animal) teve que morrer quando Adão e Eva se viram nus. Para Derrida, a vergonha é o principal sentimento que nos diferencia dos outros animais-- a capacidade de estarmos nus e percebermos isso. O conhecimento do bem e do mal. Assim foi com Abel. Ele sacrificou o animal em si. Houve uma passagem do animal para o humano; passagem esta que Caim não elaborou visto que permaneceu em sua conexão com a terra e seus frutos, ou seja, como parte dela. Abel é uma perfeita alegoria de uma passagem de um estado de natureza para o humano, eminentemente cultural. Desta forma, consigo ver muito mais sentido no texto e sua riqueza é descortinada. Por que Caim foi expulso da face de Deus e condenado e fugir para sempre? Por que Deus amaldiçoou Caim, mas deixou nele uma marca para que homem algum o assassinasse? Caim tornou-se então um assassino que não poderia ser vingado. Podemos pensar então, que Abel ( aquilo que é nós é humano ) jamais poderá matar Caim ( aquilo que em nós é animal). O animal em nós foi banido para um reino alheio ao nosso alcance simbólico, mas nós conhecemos seus efeitos. O animal em nós continuamente está à espreita: “ o teu desejo está à porta, cabe a ti dominá-lo”.

Foi assim que Deus alertou Caim sobre o perigo que lhe espreitava. Em outras traduções podemos encontrar: “ O teu desejo está à espreita, ou está entocado, como um animal procurando a melhor hora para atacar”.

Eis o animal em nós. Ele nos olha. Somos humanos, no entanto, nossa parte “ maldita” está sempre próxima. Não a conhecemos e gastamos muita energia para mantê-la longe, mas é impossível escapar de seus efeitos. O animal insiste, ou como diria Lacan: o real insiste. O " real" em psicanálise, é tudo aquilo que nos escapa; que é refratário à simbolização. É nossa parte de " mal-olhado", nossa parte maldita. Ele é o " furo" ao redor do que fazemos girar todas as questões acerca de nossa origem e sentido da vida como seres humanos. Caim e Abel surpreedentemente tornaram-se uma rica lição de psicanálise para todos´nós. Basta saber ler...ter ouvidos para ouvir.

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