sexta-feira, 16 de maio de 2008

Isabelando...


Peço desculpas ao leitor pelos dias de ausência. É que em fim de semestre me sobra pouco tempo, e o pouco que sobra eu dedico aos encantos de Morpheu, meu fiel escudeiro.
Hoje passo rapidamente para lançar uma questão ao alto, vamos ver se dá cara ou coroa.
Recentemente todos ficaram enjoados de ouvir ( pelo menos eu já estou cansado ) a estória da “ menina Isabela”. Aliás, não perderei a oportunidade de uma piada de mal gosto e cáustico humor negro. Já dizia Freud que o humor é uma das melhores formas de elaboração de nossa angústia. Então lá vai.
Depois do episódio Isabela eu criei um singelo neologismo, o verbo “ isabelar”.
“ ISABELAr”: lançar pessoa ou objeto de uma altura de no mínimo seis andares cujo autor do lançamento é pessoa desconhecida, e/ou um misterioso terceiro. Por exemplo: “ mulher, deixe de me apoquentar senão eu te “ isabelo” lá embaixo!”.
Não viram graça nenhuma né?
Pois, este é exatamente meu ponto hoje. Agora mesmo li no jornal que na China um terrível terremoto assolou o país. Segundo o jornal, foi o maior terremoto desde a criação da República Popular da China em 1949. Estima-se que mais de 50 mil pessoas morreram e milhares ainda estão desaparecidos. É uma verdadeira tragédia. Mas, o que realmente surpreende ainda mais é o fato de que ninguém que eu conheça, ou mesmo os meios de comunicação, comentam esse fato de maneira tão exaustiva como comentam o “ caso Isabela”. Por que se dá isso? Por que a morte de uma garota causa mais frenesi que a morte de 50 mil pessoas na China?
Não tenho pretensões de dar a resposta, minha intenção é tão somente lançar uma questão e ver que efeitos ela pode causar no leitor. O mínimo que posso fazer é propor uma hipótese, que, só se configura por enquanto em minha opinião pessoal sustentada por um discurso que me atravessa, a saber: a psicanálise.
Vivemos numa sociedade violenta e cercada por criminosos em cada esquina. Em cidades como Fortaleza o medo praticamente domina todas as pessoas. Mesmo assim, o inimigo é invisível. Quem são os nossos inimigos e quem é o responsável por tanta instabilidade? Não se sabe dizer. Lançamos reclamações contra entidades como “ o governo” ou mais metafísicamente, a “ violência”. Mas, realmente, o que é “ a violência” e quem é “ o governo”? E acima de tudo, quem é o responsável pela instabilidade social e econômica na qual vivemo? Alguns poderiam bradar: o capitalismo!
Eu não discordo. Mas, ainda resta a mesma pergunta: quem é o capitalismo? Ainda existe a figura do capitalista? Em tempos de capital globalizado, onde já existem empresas virtuais cujos acionista podem estar em Pequim, New York e Brasil, onde está a cara deste grande Senhor capitalista? Não existe. É um amo sem rosto.
Talvez por isso que os pais de Isabela podem estar fazendo semblante de um inimigo palpável que ameaça desestabilizar os laços sociais. Eles não só atualizam e lançam a céu aberto sentimentos que estão latentes em todos nós, tais como o ódio e a violência, como também se apresentam como possíveis bodes expiatórios para uma culpa que não encontra redenção.

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