quinta-feira, 29 de outubro de 2009

This is IT


Não poderia ter título melhor: Michael Jackson realmente é " it".Poucas vezes na história da humanidade alguém representou tão bem " a coisa " como MJ. " A coisa" é exatamente o objeto inominável por natureza, aquilo que a psicanálise denominou de objeto a: o objeto para sempre perdido por excelência em nossa história filogenética. O objeto de satisfação nunca mais a ser encontrado em nossa buscar por prazer. Em termos freudianos, o seio como objeto primevo de satisfação e para sempre perdido. Essa experiência única de satisfação e completude que uma vez tivemos, mas que separados dela nunca mais podemos reencontrá-las, mas que não poupamos esforços para revivê-la. Segundo Lacan, o objeto a é o objeto causa do Desejo, isto é, aquilo que sinaliza uma falta inerente em nossa estrutura psíquica e que nos faz tentar, através do desejo, preenchê-la. Parece que fiz uma digressão, mas não.

Ontem almocei, tomei um belo dum banho e fui ao cinema assistir o aclamado “ This is it”, o último show de MJ. Minha sala estava lotada de espécimes assustadores: crianças, adolescentes ( todos os idiotados, o que está acontecendo com os adolescentes de hoje? Éramos idiotas assim em nosso tempo? Não sei), patotas e mais patotas, gangues de patricinhas faveladas e boyzinhos tirando fotos ( todas pro Orkut) e mascando seus famigerados chicletes que muito provavelmente acabariam embaixo das cadeiras. Fiquei tenso, na verdade, desesperado. Esperei o pior: a exibição do filme seria a anti-sala do inferno. Pensei em sair correndo; pensei em voltar na última sessão. Pensei: meu Deus” Por que me abandonaste! Qual não foi meu susto, quando as luzes se apagaram e o filme começou deu-se silêncio sepulcral. Fiquei bestificado. Nunca esperei isso. Durante anos indo ao cinema sou ciente do poder catastrófico de adolescentes à beira de um ataque de nervos, hormônios descontrolados, espinhas espirrando pus. Mas, Michael, tanto encarnou o semblante do objeto por excelência que simplesmente calou as avultosas pulsões adolescente e simplesmente, como dizem por aí, causou!

Mj causou nas telas. Manteve por quase duas horas todos em silêncio, embevecidos de desejo. Todos queriam ser Michael Jackson. Ele sustentou por meio de sua face branca e opaca o desejo de todos nós. A face translúcida do rei do pop brilhou mais uma vez com a luz de nossos olhos. Ele é o mistério de todos nós;manteve para sempre abertas nossas questões, nossas perguntas, nossos enigmas. MJ me deu uma sublime aula do que é a presença velada e silenciosa do analista que não faz muita coisa, além de causar o desejo de seu paciente.
MJ rules!!
Ainda sinto muito por sua morte. Muito e pela minha também.

sábado, 24 de outubro de 2009

Vida

O que é a vida? Será o silêncio, a mudez do ato? A palavra fria que cai aos pés de nosso interlocutor?
Será o fim de toda demanda? O Alvoroço do amor? A delicadeza de um olhar? As intermitências do Desejo?
Quando se apaga todas as trilhas para que o amor nos siga. 
É isso: apagar todas as trilhas e esperar pelo amor. Abrir toda a fraqueza e entregá-la a alguém. Assumir finalmente que se precisa sim da anuência de alguém e no fim , depois de ser abraçado, recebido, amado, finalmente saber que não precisava mais....

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Suicídio ou morte morrida?

"Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele fica só. Mas, se morre, produz muito fruto." – Evangelho de João.

Iniciei o processo de minha morte, e será morte matada, não morte morrida. Tenho pressa em morrer.  Preciso dar fim a minha vida, àquilo que chamo de vida humana. Ao que eu chamo “Rafael” e por todos sou chamado. Cometerei um suicídio agressivo, quero deixar marcas por todo meu ser. Verei meu ser caído aos meus pés e só assim entrarei no descanso. Esta é a única forma de vencer aquilo contra o qual sucumbo todos os dias, eu mesmo: minha fé em mim, meu amor, meu apreço por mim, meu espírito forte. Tudo irá morrer..Já venho morrendo lentamente, mas agora será morte súbita. Não deixarei cartas. Quando me acharem irão encontrar algo novo, de supetão vou derrubá-los da cadeira, pelo susto e ver: e tu quem és? E eu nada responder. Suportarei a falta de olhares? Sim, porque para um morto, para aquele que não mais deseja nada, que não está preso ao que vem de um outro, ninguém olha. Meus olhos não dirão mais nada e ao mesmo tempo dirão tudo que sempre quis dizer; dirão inclusive aquilo que os outros querem dizer para mim.
Vivi até aqui. A partir de minha morte, já não mais vivo, mas se viverá em mim e por mim.

sábado, 10 de outubro de 2009

Seminário Fé e Graça. dia 10 de outubro, 2009

Queridos amigos do Seminário Fé e Graça. Aqui vai um pequeno resumo do tema que tratei no último encontro. Hoje, iniciarei a minha fala pela leitura deste texto que escrevi para o Seminário passado , mas não tive tempo de falar tudo. Assim, dou-lhes uma revisão e introdução daquilo que , permitindo Deus, falarei hoje: o amor.  O texto, claro, é de minha autoria.


O que queremos de fato? Não queremos Deus. queremos uma religião. Queremos algo que aplaque nossas culpas e complexos psicológicos. Queremos usar a religião como uma muleta emocional. Não queremos Deus ou levá-lo a sério porque isso mudaria todo o plano de nossa vida. Mudaria nossos desejos, nossas motivações, nossa escolhas , nossas atitudes. Mudaria tudo. E por que não muda nada? Não muda nada. Não nos traz paz, não nos faz amar mais, nem perdoar mais. Ao contrário.  O que queremos é um arcabouço religioso que nos ajude a alcançar nossa vontade; nossos desejos, nosso coração podre e ambicioso. É por isso que queremos saber o que é pecado. Porque assim temos uma sequencia de regras e pronto! Temos nossa religião pessoal, temos nosso ópio. Temos nossa ilusão particular.  Não se  precisa assumir a responsabilidade por nossas vidas e nossos desejos e as conseqüências daquilo que desejamos para nossas vidas. É isso só isso o que  a religião faz. Dá um apoio psicológico. Nos ajudar a suportar a vida por meio de ilusões. Mas, Deus de fato, não queremos. Porque começar a levar a sério este primeiro mandamento requer muito de nós. Amar a Deus sobre todas as coisas. O que significa isso? Significa que ninguém pode ser Deus para nós. Nem nossos maridos e esposas,  filhos e amigos. Atinge em especial nossos relacionamentos. Por que vocês acham que o próximo mandamento atinge nosso próximo? Porque esta é a conseqüência natural do primeiro. Quando amamos a Deus acima de tudo nossa exigência sobre o outro desaparece ou pelo menos diminui consideravelmente. Aquele que está cheio de ágape, do amor verdadeiro de Deus, incondicionalmente aprende a amar os outros com o mesmo amor ágape.
Como eu aprendo a amar a Deus... parece-me que amar a Deus e a consciência que temos de quem somos e de nossos pecados tem íntima relação. É como se o pecado fizesse parte do grande processo de humanização do homem. Pois a quem muito perdoou, muito amou."


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Gracias..Gracias



O que é o desejo? Lacan dizia: "Nunca cedas de teu desejo". Mas, o que é o desejo? Desejamos o que queremos e queremos o que desejamos? Eis a pergunta clássica que alguem se faz em uma análise, e eis a pergunta que me faço sempre quando falo e quando ouço .

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Livrai-me , " Aquilo que há".



*Começamos finalmente a entender o propósito do amor; refratário que agora estamos aos beijos mofados e dos líquidos amargos das bocas estrangeiras. E dos corpos que ardem sem que seus donos saibam por quem ardem; mas seus braços abraçam friamente, sem dolo, sem desejo, sem tristeza. Você também consegue ver que tempo se perde entre as pernas sem beleza, sem viço- -escurecidas pela máquina franksteiniana do gozo?

Teria você coragem de abandonar seus próprios dentes a morder sua língua na hora da dor? Estamos perdidos neste quarto sem ar, enforcados e dependurados sobre nosso próprio suor. E o peso das palavras vazias ditas sem humor, sem pudor. Porque o pudor alimenta o amor que antes tínhamos por tudo. Quase nada é neutro em nossas vidas, porque somos culpados de atentar contra nosso próprio ardor.

Somos daqueles que pulam a fogueira intacta, intocada e sem pranto. E é o pranto que evita nossa perdição... No choro, na dor, na luta, aí está nosso descanso prometido.


Livrai-me! Oh! “ Aquilo que há”! Livrai-me Aquilo que há!
E tu queres ser leve? Despojado de disso tudo? Do cheiro vil dos vampiros? Como renascer sem morrer? Mas, é contra essa morte que lutas; com tudo que tens te debates contra os espinhos de tua coroa. É preciso uma coroa de espinho para aquele que vai ressurgir. A ressurreição dos valentes... Daqueles que permaneceram até o fim, e a lição de tudo isso é que o apressado deveras come cru. Ah que temos comido tudo cru, apressadamente corremos aos limites sem bordas do ponto mais distante do tempo.


Será que você vai me ouvir? Sim, porque queremos, e isso eu sei, o pudor das virgens, o ardor que delas se sorve pode arder por séculos... E por trás de nossas vidas seu desejo espreita.
Ah quiséramos ser virgens pálidas a bordar cartas de amor... O ensinamento de um coração que ainda espera, porque meu coração já cansou de aguardar aquilo que do sexo se desfaz e cai...cai aos nossos pés. Sim, Babilônia está caindo, mas que se faça ouvir meu grito de meu peito: que caia minha Babilônia! Dá paz ao meu leito de sonhos...
E tu que sabes do amor?



*Carta aberta aos amantes do amor

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Do gozo ao amor.


Duas frases de J. Lacan são muito caras para mim:
" Não existe a relação sexual" e " Só o amor pode fazer o gozo ceder ao desejo".




Lacan faz uma belíssima exposição acerca do amor em seu Seminário " Mais, ainda", exatamente aquele com o qual no momento tenho me deliciado.

Aquilo que a relação sexual promete ela jamais cumpre-- a sensação de completude, unidade, de plenitude; a sensação de que você pode realmente "comer" o outro, assimilá-lo, unir-se a ele, e , mais importante de todas, de que podemos sim usufruir do corpo alheio. O problema que Lacan coloca é que não temos acesso ao corpo como tal, ou o corpo real. Nosso acesso ao corpo do outro é mediado, irremediavelmente, pela linguagem. A linguagem, como todos sentem na pele, não comunica nada, ao contrário, “ trumbica”. Há maus-encontros na linguagem e a demanda que lançamos ao outro sempre cai no mal entendido. Assim, no sexo e no amor temos sempre o mal entendido como inimigo, por isso não existe a relação sexual. A “ trepada”, por assim dizer, existe, mas naquilo que queremos transformar o coito em “ fazer amor” infelizmente "isso" cai no impossível.

Mas, é gozado que tenhamos escolhido essa expressão “ fazer amor”. Isso nos leva à segunda frase que lhes expus: só o amor pode fazer o gozo ceder ao desejo. Nossa insistência em fazer com que a linguagem expresse nosso desejo em relação ao outro é tamanha, que queremos vencer o coito, a trepada, a foda, a angustia inominável de sermos animais, porém não tanto, com a tentativa de fazer amor. Do gozo, da angustia de “ comer” ser “ comido” queremos fazer, disto, amor. Diz Lacan também, que o sublime é a parte mais alta daquilo que está embaixo. De nossa pulsão animalesca de consumir e ser consumido queremos fazer amor, porque o gozo, em si mesmo, é mortífero. Comporta em si aquilo que há de mais mordaz da pulsão de morte: comer o outro, ser comido, ser consumido, consumir, fazer do outro nosso objeto de gozo. O amor, como liame de linguagem, como seda, invólucro de nossa cambaleante fala, nos dá acesso ao desejo. Só o amor pode produzir esta enganação, ludibriar o gozo e deixar o desejo dobrar a esquina.

O amor é o sublime, isto é, o mais alto que está embaixo. Porque sim, somos humanos, mas aquilo que nos faz humanos vem debaixo. De nossos gozo, excrementos, volúpias e agressões...Quando tudo isso é endereçado ao outro, velado pelo amor, pelo mal entendido..Quando o amor nos orienta ao mais além do gozo, o adiamento do prazer para o desejo que realiza uma vida...Em algum projeto de vida. O amor é a vida de resignação daquele que percebeu, finalmente, de que não se pode gozar todo, o gozo absoluto seria a morte. Aquilo que Freud chamou de sensação oceânica é levar o gozo ao ápice. É tentativa dos tóxicos, dos místicos, da religião, da ciência e do sexo. Todas fadadas ao fracasso, posto que a linguagem nos tira o acesso direto ao gozo. Agora, gozo perpassado pela linguagem é amor , é desejo, é alguma possibilidade de prazer, não toda. Amar é fazer um compromisso com o gozo, justamente que não se pode gozar tudo, sempre e o tempo todo. Mas, pode-se ter algum prazer; aquele que baixa sua fronte perante o gozo absoluto é o único que aprende finalmente a amar.

E você...tem aprendido a amar?