Não sabemos mais aonde vamos parar. Agora a grande ciência quer controlar nossos sonhos. Que coisa ein? Qual seria a conseqüência disso?
Já se passaram mais de cem anos desde a mais importante obra de Freud, A interpretação dos Sonhos. O livro representa um texto fundador do discurso psicanalítico exatamente porque aponta que os sonhos traziam em si um sentido cifrado; uma mensagem inconsciente plena de sentido e ávida por ser desvendada. O sonho tornou-se então a marca da presença do desejo inconsciente, conceito primordial para a teoria psicanalítica. Foi nesta obra que Freud forjou a célebre frase: “ O sonho é e via régia que conduz ao inconsciente”. Anos de prática clínica puderam comprovar que os sonhos são a melhor via de acesso ao desejo do sujeito do inconsciente. Se assim é verdade, o que acontece quando alguém se angustia por seus sonhos e procura um especialista- um tecnocientista- para resolver e controlar seu sonho? É possível controlar o desejo? É possível controlar a palavra do inconsciente?
A tecnociência parece não conhece limites; assim minha pergunta já está respondida já que superabundam as técnicas e psicoterapias que são bem sucedidas em controlar e disciplinar o desejo. A questão agora é saber que tipo de sujeito vai emergindo na aurora do século XXI.
O fato das pessoas estarem procurando especialistas para controlar seus sonhos demonstra que hoje em dia não é mais interessante procurar o sentido ou a origem da angustia. Ninguém mais quer se perguntar por que se angustia; muito menos quer ter o trabalho de colocar em palavras ( ou não pode mais!) o que lhe pesa. A tecnociência busca, cada dia mais, cifrar o déficit dentro de uma norma e mensurar a deficiência ou o trauma a fim de evitar interrogar-se sobre sua origem ( ROUDINESCO, 2005, p. 89). Enquanto em outras épocas o sonho era marca de uma singularidade e subjetividade, hoje o sonho é um trauma a ser reparado, apreendido e moldado segundo o senhorio da consciência. É interessante notar que quando Freud iniciou os trabalhos com A Interpretação dos Sonhos ele estava ainda no processo de elaboração da morte de seu pai. Sabemos que a morte de seu pai foi um forte golpe sobre o jovem Freud, mas foi também por meio da análise de seu luto que grandes descobertas foram feitas para o nosso bem. E grande parte de seu luto e do que emergiu da morte de seu pai apareceram em seus sonhos/ pesadelos. A grande sacada da psicanálise foi de desvendar que por trás de nossas ações e pensamentos está o desejo de um sujeito cindido entre pensamento e emoção- demanda e necessidade.
Fico bastante assustado com a profusão de aparelhagem tecnológica que se propõe a dar fim ao sentido mitológico da existência humana. De nossas possibilidades de nos investigarmos livremente. Agora que medo será viver numa sociedade na qual as pessoas não mais contarão seus sonhos uns aos outros criando a boa conversa de rodinha.... Tive um sonho com cobra! Há cobra ...Tão falando mal de você! Ou outras interpretações que fazem circular as palavras e ao mesmo tempo dão alguma chance para que alguém se investigue, olhe para si mesmo e desvende sua vida interior. Ninguém mais vai acordar intrigado com o que sonhou; simplesmente, agora, podemos ligar para o médico e dizer: --Olá Dr., tive um sonho ruim. Você teria horário hoje para me atender?Eu gostaria de mudar meu pesadelo de hoje!
A tentação é enorme, senão vejamos qual a proposta dos cientistas : (...) muitos terapeutas usam intervenções comportamentais para reduzir os pesadelos ou guiar o paciente em direção a um "mastery dream" – usando a mente consciente para controlar a maneira selvagem do inconsciente ( ...) ou (...) Mude o pesadelo como quiser”, diz o manual. “Deixe que novas imagens positivas surjam no olho da sua mente para guiá-lo a ‘pintar’ o novo sonho (...).
A tentação é enorme, senão vejamos qual a proposta dos cientistas : (...) muitos terapeutas usam intervenções comportamentais para reduzir os pesadelos ou guiar o paciente em direção a um "mastery dream" – usando a mente consciente para controlar a maneira selvagem do inconsciente ( ...) ou (...) Mude o pesadelo como quiser”, diz o manual. “Deixe que novas imagens positivas surjam no olho da sua mente para guiá-lo a ‘pintar’ o novo sonho (...).
Quem sabe no futuro não tão distante ninguém mais sonhe...Ou pior ainda, quem sabe daqui a pouco ninguém conte nada a ninguém e cada um de nós saberá a qual especialista deve recorrer quando sentir vontade de endereçar algum sofrimento a alguém. Não tenho muitas dúvidas de que hoje afeta-nos uma crise de endereçamento; não sentimos mais que é legítimo endereçar uma demanda a outra sujeito.O rosto paranóico da ciência brilha bem mais forte que os semblantes do Grande Outro. Previsão apocalíptica? Certamente, mas penso que as trombetas já estão soando...
Nesse contexto questiono:
Cairemos todos num sono profundo livre de sonhos, pesadelos e desejo? Continuaremos sendo humanos como sempre fomos? Eis a pergunta lançada.
REFERÊNCIAS
ROUDINESCO,E. O paciente, o terapeuta e o Estado. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

É, boa pergunta. Hoje em dia o ser humano está individualista ao extremo,um exemplo disso é que não se encontram mais kitinetes para alugar pois existe uma grande procura por pessoas que querem morar só... Penso que é um indício de que a individualidade reina cada dia mais. As pessoas procuram relações virtuais pois é mais fácil não se envolver também. Não querem mais se haver com o outro e agora nem consigo mesmo!
ResponderExcluirSei lá onde vamos parar.
Derrida é precioso ao analisar o livro de Freud em "A escritura e a diferença" e vai além ao tratar a questão do sonho a partir dos egípcios e sua oneirocrítica. A tradução impossível do sonho, como a tradução dos hieróglifos, assusta e não querer mais sonhar é a prova de que o homem ainda quer sossego onde só há desassossego, calando o incalável. Mas é só mais uma ilusão...
ResponderExcluirHoney...missing you...acreditando q estamos ligados profundamente devo te dizer q meu assunto dos últimos três dias foi:sonhos.os q tive nas últimas duas noites são absolutamente descabidos,incompreensivos e por isso mesmo angustiantes (mas não tive nenhuma vontade de livrar-me deles) o fato é q qd leio teu post essa manhã sinto ainda mais falta de tua presença na cabeceira da cama p falarmos amenidades e complexidades (tb p falarmos mal dos outros).cm estão os primeiros dias?vc faz muita,muita falta...bjs.
ResponderExcluirSua frase acima de tudo, se mistura e se completa a uma outra que amo... "Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas..." de Clarice Lispector. Não gosto de nada muito explicado, gosto é das entrelinhas, elas sempre dizem verdades.
ResponderExcluirMeu blog vive em silêncio, não sou boa em monologos... Ando falando baixinho atrás das cortinas..rsrs