terça-feira, 30 de novembro de 2010

Quero o que desejo?

Frase de novela da Globo:
“ você sabe , os melhores homens já tem namorada”.
 A frase aparentemente trivial esconde uma verdade psicanalítica fundamental. As pessoas normalmente usam esta desculpa básica para justificar seus insucessos amorosos. Constantemente temos a sensação de que as melhores pessoas pelas quais nos interessamos já estão comprometidas; aí começamos um rosários sem fim de lamentações de como somos azarados; ou como a vida é injusta conosco e que todo mundo consegue se arranjar, menos a gente- a sorte parece não querer sorrir para nós desafortunados.  A questão que se esconde aqui é nosso desejo. O tal desejo inconsciente que marca nossa divisão subjetiva, tão cara à teoria psicanalítica. Dizer que a subjetividade humana parte de uma divisão fundamental implica no fato de que há um  “ outro” que pensa onde achamos que estamos tomando decisões tão racionais. Somos “pensados”, como gostava de dizer Lacan. Aqui no caso em pauta, a moça se reclama da fatal “coincidência” de só achar homens bons casados ou comprometidos.  Freud falou tantas vezes dá famosa neurose de destino, isto é, o fato de que repetimos situações que nos levam ao insucesso; seja ele amoroso ou profissional. Alguém que se reclama de que todas as pessoas interessantes já estão comprometidas, deve se perguntar se de fato deseja o que quer. Nem sempre desejamos o que achamos que queremos. Quando alguém diz que ser feliz ou que quer encontrar alguém, está meramente expressando uma vontade. Atrás de toda vontade podemos encontrar um desejo- este o lugar onde somos pensados. Ser feliz não é fácil principalmente porque, na maioria das vezes, estamos inconscientemente nos sabotando e trabalhando contra nós mesmos. O desgaste de energia para fracassarmos é tão grande quanto para sermos felizes.
A mocinha em questão desconhece que o que ventila seu desejo, talvez, seja um desejo inconsciente de encontrar homens comprometidos, ou seja, homens impossíveis. Ao mesmo tempo todo sofrimento que ela sente nada mais é que o gozo  sentido ao realizar seu desejo amando o homem impossível. Com o risco de parecer simplista aos olhos daqueles resistentes à psicanálise, faço mesmo assim a pergunta que não se cala: 

quem seria o homem impossível?  Freud responderia tão rapidamente:" Mas ora! Seu próprio pai!"  O pai ou a mãe são as figuras que melhor representam este objeto impossível da satisfação de nossa pulsão, ou dito de outro modo, a felicidade.  Nossa posição humana de animal que vive no interstício inexpugnável entre natureza e cultura nos coloca numa posição trágica frente ao desejo: ele não pode ser de fato satisfeito, senão parcialmente. Uma parte dele fica sempre vivo como um resto , se assim quisermos colocar. Este resto estará para sempre a causar toda a saga que chamamos de existir.
Voltando à nossa pobre donzela....
Seu desejo descontrolado, sem objeto real, desnaturalizado e, por isso mesmo, apto a eleger qualquer objeto para se satisfazer, fica por sempre insatisfeito. Podemos dizer, em linguagem filosófica, que se manifesta somente num vir-a-ser perene. Ela deseja seu pai como objeto impossível da pulsão e transfere para os homens esta sina infeliz: de só poder desejar o objeto proibido, porque o gozo absoluto seria a morte. Desejar o pai aqui seria, então, uma forma de defesa contra o gozo absoluto da COISA. Temos nossa donzela  preza , por assim dizer, de seu sintoma. Uma boa análise poderia poupá-la de anos de sofrimento até que ela descobrisse, por si mesma, que é melhor se conformar com o sapo: o príncipe encantado, por mais sedutor que lhe parece, lhe é interditado. 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Agrupando forças.

Caros leitores, não esqueci de vocês. Demorei a postar esta semana porque o mestrado tem tomado muito tempo. O Dito continua vivo e ativo. Aproveitem para colocar a leitura em dia! Postei muitas coisas nos últimos meses; garanto que tem gente que tá precisando se atualizar nos posts. Em breve estou indo para casa para o natal e terei mais tempo para escrever. Aguardem posts natalinos e de fim de ano cheios da minha típica amargura, tão típica para o fim de ano. No momento estou agrupamento as forças e meus restos humanos que eu insisto em perseguir. 

domingo, 21 de novembro de 2010

Fragmentos de um pensamento em construção.

Tempos sombrios esses nossos. O que pode acontecer quando o inumano tomar de conta novamente do humano? Evolução? Mudanças na espécie? Novos ares? Tempos?  Seria a comida que comemos dirá alguém.  É a tv. Internet. Orkut. Aí todo mundo dá  as mais variadas explicações. De por que estamos tão conectados e ao mesmo tempo cada vez mais solitários. A força humana que  uma carta de papel tinha um e-mail, hoje em dia, raramente tem. O impacto, o trabalho implicado e o laço criado não são mais os mesmos. Não que a internet não seja capaz de criar laços, ao contrário, ela os cria todos os dias. A questão é que qualidade de laço social – se o laço social em si, pela sua natureza discursiva é virtual, a internet leva a virtualidade do laço para o extremo. O ponto de referência discursiva que posiciona as relações fica completamente volatilizado na sociedade virtual- imagética.

 A internet não é mais questão privada de cada computador; ela é uma rede social que englobou completamente o real dentro do virtual, talvez gerando uma confusão da qual dificilmente se consegue sair. Pessoas inconsistentes, vivendo num tempo volátil são pessoas que se sentem atraídas por um ambiente volátil como a internet. Toda tecnologia ou descoberta científica surge a seu tempo e somente quando a sociedade está preparada não só para produzi-la, mas principalmente para aceita-la e incorporá-la. Assim, não parece ser a internet que cava no homem as famosas relações “líquidas”, mas é uma sociedade liquefeita que gera seus próprios sintomas. E como se sabe, um sintoma não é em si bom ou mal: dele se goza. Entretanto, se dele gozamos é porque ele próprio diz algo singular sobre nossa existência. Assim, é dele também que vamos tirar uma saída criativa para sair da paralisia sintomática. Quero dizer com isso que é o sintoma mesmo que pode manifestar sua mensagem salvífica. Do mesmo modo, a internet em si só não transforma as relações. A fragilidade do laço é que conclama a exacerbação da virtualidade da relação humana. 
Homens liqüefeitos  acham a internet um lugar perfeito para desistirem, muito mais rapidamente, de sua humanidade. 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Trecho- Felicidade clandestina

"Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa ,adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o,abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante." 
Felicidade Clandestina. Clarice Lispector.

O Centro fértil do ser.

Nestes dias o que preciso mesmo é voltar a Clarice. Tudo tem sido um retorno. Retorno ao centro vazio do nosso ser quando todas as coisas ainda estavam por ser construídas. Passeio pelas ruínas que tão cedo erigi. .  Observa-se toda a cidade nova pensando na cidade antiga; procurando o centro nem que seja para ter a boba e já adivinhada revelação de que o centro não se deixa achar. Todo processo, todavia, não está em achar o centro, mas em buscá-lo, circulá-lo, simplesmente acreditar no centro. Bem aí toda a base para a crença per si. O centro fértil do ser, se querem assim. Um buraco artesanal do qual corremos, só pra depois, de tanto correr, resolver olhar para trás. Tecer o buraco com bordados, tricô- toda costura que houver. Olhar pro buraco sem estupefação. Lambê-lo sem auto-piedade alguma. Olhar o centro e ver que está lá a matéria bruta do que somos, sem disfarces ou agradados quaisquer.
Volto à Paixão segundo GH, Um Aprendizado ( novamente) ou Água Viva?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sangrar o humano.

Eu sempre soube a resposta, porque ela sempre me constituiu. Inteiramente vazado e homem humano. Ela é simples, mas sua realização é um pouco morrer. É dessa morte que fugi: have my way; isto é, me safar da vida. Glória nas alturas que alguns discernem os golpes da vida; ela golpeia a todos a todo momento. Alguns, entretanto, escapam dos golpes aos anestésicos; outros lutam contra os golpes. Outros, seres da exceção, sentem os golpes romper sua carne e sangram até morrer. Sofri os golpes e tentei estancar o sangue. Árdua tarefa correr sangrando. Corri sangrando.  Descobri num susto que a solução estava sempre perto de mim: a morte sempre foi o centro do cristianismo não? Para esta morte, no entanto, não há redenção. Morrei para, enfim , ser humano. Aceitar minha humanidade resvala em aceitar também a humanidade de todos os outros. Que nada...Ser humano é simplesmente aceitar e lutar para ser quem ser é. é isso. 

domingo, 7 de novembro de 2010

Domingo.

Acreditem quando digo que os trabalhos domésticos  ajudam a aceitar a tristeza e domesticá-la. Apesar de domingo ser o pior dia para domesticar tristezas; elas ressurgem mais ferozes aos domingos. Talvez porque no sábado alguns de nós extrapolam um pouco e o domingo cobra alguma coisa de nós. Ou quem sabe ainda porque o domingo em casa traz a nostalgia do lar. Nostalgia não é coisa boa – normalmente é saudade de coisas que nunca vivemos e sobre as quais colocamos as maiores esperanças. E a esperança que colocamos em grandes pessoas acaba, no fim , nos fazendo ver que os sonhos eram grandes demais e as pessoas pequenas demais para eles. E de quem é a culpa? Certamente não é das pessoas. É dos sonhos. Hoje ponho a culpa na nostalgia. Esse   passado que  não existe e produz um futuro tão imaginário quanto ele mesmo. 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Deslocamentos do feminino :Dilma presidente.

Elegemos uma mulher para presidente. E agora José?

Durante a campanha Dilma usou muito pouco a cartada “sou mulher”; usou mais no fim e a meu ver não conseguiu convencer as eleitoras de que ela também era mulher. Conversei e convivi com mulheres de todo tipo durante a campanha e pude sentir que pairava no ar um tipo muito peculiar de antipatia contra a então candidata .Antipatia compartilhada amplamente por vários setores da sociedade: mulheres, homens e até (choquem-se) homossexuais.  A rejeição sofrida por Dilma e os comentários pejorativos tais como: bruxa, sapatão, durona, agressiva e violenta não representam um rechaço às suas feições sisudas de pouco brilho. Como sempre acho que há mais, sempre mais. A figura de Dilma, juntamente com toda sua história combativa e de liderança, deve causar nas outras fêmeas a velha inveja fálica. Muitas mulheres  ainda acreditam que sua redenção está no casamento branco-gelo, nos filhos e nas tendências estéticas.  Os símbolos de poder devem ser  “ adequados” a uma mulher de brio. Onde quer que esta sagração do feminino esteja arraigada a imagem de Dilma ricocheteia como ódio.  Uma mulher como Dilma no poder profana uma noção de feminino permitida e arraigada em nossa sociedade; algo que ainda precisamos desmontar. A mulher pode trabalhar como os homens- contato que esteja com o batom e a saia em dia; a mulher pode até ser motorista de ônibus- mas sem perder sua “feminilidade”; a mulher pode sim tudo que o homem faz- contanto que ela dê um toque de perfume de rosas. Mutatis mutandis, isso vale também para os gays. O bom gay, e isso eu ouvi de um gay ( pasmem-se novamente!) é o “discreto”, “não-afeminidado”, em outras palavras: comportado. Já as loucas, as afeminadas, isto é,as tão conhecidas “bichas”, são gays de segunda categoria e seu comportamento é tachado de  “ desnecessário”.
Quando a presidente eleita pronunciou a desgastada paráfrase --Sim, as mulheres podem—abriu-se para mim um novo sentido, antes denegado.  Até porque, de fato, o que ocorre contra o feminino neste caso não é da ordem de um recalque, mas sim da denegação. A denegação é um mecanismo de defesa em que o sujeito se recusa a reconhecer como seu um pensamento ou um desejo que foi anteriormente expresso conscientemente. Assim, todos sabem que há diferença sexual, isto é, masculino e feminino são marcados por uma completa impossibilidade de complementaridade. Além disso, falar em masculino e feminino,ao invés de macho e fêmea, abre espaço para que haja uma permuta de lugares, já que homem e mulher para a espécie humana não são lugares anatômicos, mas nichos subjetivados.  Mesmo sabendo disso, preferimos negá-lo e rapidamente colocar em seu lugar uma imagem fetiche do feminino. No lugar de ativamente afirmar sua diferença a mulher acaba se tornando um mero apetrecho ao masculino. A diferença vai pro beleléu.
Dito isto vou dizer-lhes o que ouço minha presidenta dizer:
“Sim, as mulheres podem ser diferentes”. O fato de que as mulheres podem já está amplamente provado. O que está em pauta agora é se elas, se o feminino e todas as suas mais diferentes manifestações podem ser diferentes. Se é possível uma mulher pode ser mulher marcando sua diferença mais singular. Sim, as mulheres podem atravessar o lugar que lhes foi tão generosamente permitido por todos, e ser mulher da forma que deseja e pode.  Indo mais fundo no seu discurso o que eu ouvi foi o seguinte: “Sim, as mulheres podem ser diferentes e eu sou sim uma mulher”. Dilma manda um claro recado aqueles que a acusaram exatamente do pior dos crimes: o crime de não ser mulher. No final das contas, Dilma em seu primeiro discurso como presidente da República disse em alto e bom som: sim, eu sou uma mulher. Lidem com isso. 


leia também o excelente artigo da professora Sandra Helena no O Povo: