Frase de novela da Globo:
“ você sabe , os melhores homens já tem namorada”.
A frase aparentemente trivial esconde uma verdade psicanalítica fundamental. As pessoas normalmente usam esta desculpa básica para justificar seus insucessos amorosos. Constantemente temos a sensação de que as melhores pessoas pelas quais nos interessamos já estão comprometidas; aí começamos um rosários sem fim de lamentações de como somos azarados; ou como a vida é injusta conosco e que todo mundo consegue se arranjar, menos a gente- a sorte parece não querer sorrir para nós desafortunados. A questão que se esconde aqui é nosso desejo. O tal desejo inconsciente que marca nossa divisão subjetiva, tão cara à teoria psicanalítica. Dizer que a subjetividade humana parte de uma divisão fundamental implica no fato de que há um “ outro” que pensa onde achamos que estamos tomando decisões tão racionais. Somos “pensados”, como gostava de dizer Lacan. Aqui no caso em pauta, a moça se reclama da fatal “coincidência” de só achar homens bons casados ou comprometidos. Freud falou tantas vezes dá famosa neurose de destino, isto é, o fato de que repetimos situações que nos levam ao insucesso; seja ele amoroso ou profissional. Alguém que se reclama de que todas as pessoas interessantes já estão comprometidas, deve se perguntar se de fato deseja o que quer. Nem sempre desejamos o que achamos que queremos. Quando alguém diz que ser feliz ou que quer encontrar alguém, está meramente expressando uma vontade. Atrás de toda vontade podemos encontrar um desejo- este o lugar onde somos pensados. Ser feliz não é fácil principalmente porque, na maioria das vezes, estamos inconscientemente nos sabotando e trabalhando contra nós mesmos. O desgaste de energia para fracassarmos é tão grande quanto para sermos felizes.
A mocinha em questão desconhece que o que ventila seu desejo, talvez, seja um desejo inconsciente de encontrar homens comprometidos, ou seja, homens impossíveis. Ao mesmo tempo todo sofrimento que ela sente nada mais é que o gozo sentido ao realizar seu desejo amando o homem impossível. Com o risco de parecer simplista aos olhos daqueles resistentes à psicanálise, faço mesmo assim a pergunta que não se cala:
quem seria o homem impossível? Freud responderia tão rapidamente:" Mas ora! Seu próprio pai!" O pai ou a mãe são as figuras que melhor representam este objeto impossível da satisfação de nossa pulsão, ou dito de outro modo, a felicidade. Nossa posição humana de animal que vive no interstício inexpugnável entre natureza e cultura nos coloca numa posição trágica frente ao desejo: ele não pode ser de fato satisfeito, senão parcialmente. Uma parte dele fica sempre vivo como um resto , se assim quisermos colocar. Este resto estará para sempre a causar toda a saga que chamamos de existir.
Voltando à nossa pobre donzela....
Seu desejo descontrolado, sem objeto real, desnaturalizado e, por isso mesmo, apto a eleger qualquer objeto para se satisfazer, fica por sempre insatisfeito. Podemos dizer, em linguagem filosófica, que se manifesta somente num vir-a-ser perene. Ela deseja seu pai como objeto impossível da pulsão e transfere para os homens esta sina infeliz: de só poder desejar o objeto proibido, porque o gozo absoluto seria a morte. Desejar o pai aqui seria, então, uma forma de defesa contra o gozo absoluto da COISA. Temos nossa donzela preza , por assim dizer, de seu sintoma. Uma boa análise poderia poupá-la de anos de sofrimento até que ela descobrisse, por si mesma, que é melhor se conformar com o sapo: o príncipe encantado, por mais sedutor que lhe parece, lhe é interditado.
