"Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa ,adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o,abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."
Felicidade Clandestina. Clarice Lispector.
Eu não tenho medo de Virgínia woolf, mas de Clarice sim, tenho muito.
ResponderExcluirCriar as maiores dificuldades para nao querer saber que o Outro não existe, mas o gozo sim. Gozar aos pouquinhos como com um amante, economizando, para o fim não ter fim.