Para quem não sabe, informo que serei titio. Tive o prazer de passar alguns dias no confinamento com meu cunhado, responsável pela dádiva que será receber um novo membro na família Pinheiro. Conversamos muito sobre a paternidade, já que ele será um pai jovem e de primeiríssima viagem. Como diz o ditado: Mater certissima, pater semper incertus. O pai sempre entra na relação enviesado, em segunda-mão e quase sempre depende da boa vontade materna para se fazer presente com sua prole. Caso não conte com a boa vontade materna, ele precisa buscar forças naquilo que lhe foi transmitido por seu próprio pai para invadir o domínio materno e fazer valer seu Nome. Isto é, se a maternidade é algo que todos tomamos como um “dom” natural, a paternidade é, por excelência, simbólica, e requer do homem que esteja bem arrimado ao chão de seus antepassados...
Falo tudo isto para chegar ao ponto que me diz respeito: para ser pai é preciso, antes de mais nada, ter sido filho. Não é a toa que Cristo precisou ser Filho a fim de aperfeiçoar por meio de sua vida a divindade e através de sua morte a humanidade. O acento é sempre posto sobre a morte de Cristo; eu o ponho agora sobre sua vida. Deus viveu como filho para aperfeiçoar a si mesmo enquanto divindade: Um pai não é pai sem antes ser filho.
Aqueles que fazem análise sabem o quanto algúem se estrebucha num divã para dar conta de ser filho. A frase de Goethe famosa na pena de Freud se mostra exemplar: . “Aquilo que herdaste de teu pai, conquista-o para fazê-lo teu". Conquistar neste contexto pode deslizar em variados significados. O que me vem agora em específico é o de “ lutar numa batalha”; “ tomar posse de um território”. Numa batalha há sangue, mortos e feridos. Numa luta dessa magnitude, quem pode sair dessa em paz? Ou como se diz, “ bem resolvido”? Nunca se sabe. O que eu sei é uma verdade que só tem a minha própria experiência como filho para atestar. Se é verdade que o pai é sempre incertus, esta incerteza ecoa tanto do lado do pai quanto do lado do filho. Se o pai luta para fazer-se pai frente ao amor insano de uma mãe, ao filho cabe também livrar-se um dia da incerteza de sua filiação e entregar-se sem medo ao abraço paterno. Não é fácil ser filho de um pai, mas é de uma paz sem comparação. Como diz o antigo hino: “ Paz, paz quão doce paz, É aquela que o Pai me dá". Sei bem que alguns não tem pai, outros tem motivos bem concretos para odiá-lo- é a vida selvagem também. Outros também, nunca se tornam filhos do pai, permanecendo eternamente com a pesada alcunha de serem " filhos da mãe"... Mas, muitos, como eu, estão muito mais enredados em sua própria incerteza do que nas atitudes do pai real. Nos casos triviais, como é o meu, a responsabilidade está em nosso lado de atravessar o vale da fantasia de não estar a altura do amor paterno e descansar na certeza de que o pai está ao nosso lado. Lutar com o pai é necessário, mas bom mesmo é quando se consegue, finalmente, separar o pai idealizado do pai real de carne que está bem na nossa cara. E ele, tanto ou mais do que nós, deseja ser amado, abraçado e reconhecido.
Puxa! Adorei o q disse.Alias, sempre venho aqui refletir com vc.
ResponderExcluirParabens ao mais novo titio.
Beijo