terça-feira, 7 de junho de 2011

Feliz dia dos namorados.

O dia dos namorados se aproxima e a população já começa a ficar em polvorosa- a sociedade cria as necessidades e todo mundo começa a percebê-las como suas.  Outro dia uma assisti às reclamações de uma jovem que dizia não entender suas emoções; que elas eram contraditórias e perturbadoras. Logo me veio a seguinte questão: um cachorro não tem nunca dúvidas sobre qual a emoção prevalente no momento. E não venham me dizer porque ele é guiado somente pelo instinto e isso facilita a vida dele. Bem, isso é uma boa explicação teórica. Mas, hoje, quero ir pra outro lado.  Minha teoria é que todos sabem discernir exatamente qual a emoção prevalente no momento e qual necessidade requer ser atendida de pronto. O que ocorre é que há um conflito entre o que se autenticamente deseja e as necessidades que o outro cria para nós e que, em nos prendendo em nossos pontos cegos, consegue nos convencer de que aquilo que desejamos não é de fato o que precisamos. Que nossa satisfação está alhures. Então, de repente, ficamos “confusos”; dizemos não saber o que queremos. É como o dia dos namorados. Pra quase todo mundo a data não representa absolutamente nada, é um dia banal como qualquer outro.  O comércio investe, os burgueses seguem e o que resta fica entre um ressentimento disfarçado ou tristeza forçada.

Já faz algum tempo que uma amiga me sugeriu ler “Encontro marcado” de Fernando Sabino. O livro é um nostálgico retorno aos anos de juventude cheios de inquietações e busca por fundamento existencial.  A história trás o encontro de um grupo de amigos em busca de sentido pra vida; tudo perpassado por preocupações ideológicas e religiosas na busca pela felicidade. O que mais me marcou no livro foi o costume que o grupo de amigos tinham de se reunirem com o único e solene objetivo de “puxar angustia”. A coisa era simples: bebida, cigarro e “papos cabeças” ajudavam a gerar um ambiente pesado e triste que serviria para alimentar o  espírito reflexivo e crítico.  Posso falar de cátedra, já fui assim.  Adorava puxar angustia, costumava montar todo o cenário: vinho, música apropriada e solidão absoluta. Ambiente perfeito para me sentir superior ao mundo e excepcional. O tempo passou, eu mudei bastante e hoje dificilmente retiro alguma satisfação nesse teatro de amadores.  Ficar sozinho continua sendo um refúgio, mas hoje é um refrigério que me prepara para o contato com o mundo.  Não há profundidade alguma na solidão forçada e na angustia autopromovida. Ate porque não há necessidade alguma de puxarmos angustia: um hora ou outra ela aparece do nada e, para nossa surpresa, ela é de uma qualidade muito diferente da angustia que é só puxada.

Fica então minha dica para o dia dos namorados:  não puxe angustia só porque está sozinho. Faça algo diferente: vá a uma festa, convite os amigos para um drink ou simplesmente convite alguém para jantar, mas pague o jantar por favor. Caso decida ficar em casa mesmo, evite puxar angustia. Pense assim: a maioria dos casais não são tão felizes quanto você imagina em seus vãos momentos quando acende seu "baseado" de  angustia.... Feliz dia dos namorados.

4 comentários:

  1. Rafa, eu me sinto exatamente assim com relação à essas datas comemorativas impulsionadas pelo comércio e pela publicidade exacerbados. Enquanto o ser humano não tiver o domínio de sua completude, de saber ser feliz independente das ofertas externas, domar sua insatisfação, vamos ser eternamente manipulados.
    Feliz dos que conseguem se desvencilhar dessas armadilhas. Eu mesma não embarco nessa necessidade de presentear o meu marido apenas por ser dia dos namorados...Essa resolução, porém, aconteceu apenas após os trinta anos. Antes, eu também me angustiava se não lhe comprava algo...Enfim, superei a mania de querer ser a mulher maravilha.rsrsrs

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  2. Rafa, enquanto o ser humano não tiver domínio de sua completude alheia às influências externas, como publicidade, seremos eternamente insatisfeitos e angustiados. A primeira coisa que me vem a cabeça é a nova propaganda do Boticário, atualmente veiculada na televisão: "A vida é bonita, mas pode ser linda"!Como assim, meu Deus?
    Não deveríamos estar satisfeitos "apenas" com uma vida bonita?Qual o problema?Devo admitir que antes dos trinta anos também caía na cilada de comprar presentes no dia dos namorados, sob pena de me sentir ausente, culpada e imperfeita se assim não o fizesse.
    Hoje em dia, parei de tentar ser a mulher maravilha, sempre querendo agradar a todos e sem prestar atenção a quem realmente interessa: Eu mesma!

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  3. Vou compartilhar com meus colegas psicólogos que acham entender tudo sobre a natureza humana.

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  4. oiee... achei o blog por acaso..
    mas bacana a ideia, ainda mais para os que estão momentaneamente sozinhos e até mesmo os que tem namorado mas ainda assim sao pessoas solitárias.
    em meio a todo um comércio e nao importando o dia...
    deve existir uma pessoa feliz que anseia em dizer e expressar tal felicidade, nao importando o dia nem o presente recebido.

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