sábado, 5 de abril de 2008

Sonhando acordado



( para ler ouvindo " Olha" na voz de Bethânia))

Ele sabia que estava sonhando. Em seu sonho seu amor tinha os cabelos perfumados, a pele macia e tênue—parecia seda. Em seu sonho sentavam-se juntos à mesa; sentavam-se lado a lado; olhar com olhar. Um suspiro abafado subia-lhe o estômago ao escutar aquelas palavras: --...então, se eu estava procurando algo em alguém acho, acho não!, eu encontrei. Ele não esqueceria aquela sensação, quase boba, de veneração alucinada por aquele olhar. Em seu sonho tudo era aroma: cabelos. Boca. Corpo. Tudo exalava uma novidade revivida; uma paixão reencarnada. Em seu sonho tudo era tão cálido. Uma luz morna que aquecia seu coração enquanto segurava a mão do seu amor; eles sabiam que se existia algo de especial na cidade acontecendo naquela noite, era ali entre eles que acontecia. Em seu sonho o primeiro beijo vinha com um ímpeto de um raio que cai em noite solitária: tudo atrai sua força. Era um beijo fluído, como se os lábios de ambos fossem feitos um para o outro: a paixão tomava ritmo.

Em seu sonho...Ele sonhava que não acordava, mas acordou. Virou-se na cama e se lembrou das louças sujas do dia anterior. Os restos ainda estavam sobre a mesa. Virou-se na cama novamente...As delícias da noite anterior povoaram seus sonhos, tudo ainda era puro aroma: seu cheiro continuava nele, impávido. Destemido. Envolvente. Virou-se por uma última vez e novamente sonhou. Sonhou que o mundo era uma fazenda. Sonhou com um pôr-do-sol solene numa tarde de outono. Sonhou novamente com seu amor, sentados ao cair da tarde. Mãos dadas a sentir o calor da pele envolver os braços unidos. O canto crepuscular dos pássaros. Era fim do dia, mas o amor não arrefecia. Sonhou que eram outros em uma outra vida. Era uma vida alegre; uma comunhão de olhares. Sonhou que o olhar do seu amor continuava colado ao dele-rente a sua íris.
Em seu sonho....Ele sonhava que não acordava, mas acordou. Dessa vez pegou o telefone.

--Sonhei com você – disse com voz sonolenta, propositadamente para seduzir.
-- Eu também. Sonhei que tínhamos uma fazenda.....
--...e tinha uns pássaros a cantar....
---...é ..eu lembro. Eu também sonhei – disse em tom profético.
--- sim, eu também lembro...você estava lá. Eu sonhei o seu sonho....
---verdade....Fui sonhado por você e você por mim.

Despediram-se com um beijo. Ambos felizes: afinal, suas vidas não eram apenas um sonho. A vida é um sonho quando a sonhamos sozinhos, sem ninguém para dividi-la. Mas essa não era só isso. Era um sonho sonhado junto. Duas almas que sonham juntas nunca estão sozinhas. Seja nesta vida; seja em outra vida, ou mesmo em outras vidas. Almas que sonham juntas, uma sonhando o sonho da outra, não estarão jamais separadas.

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