quinta-feira, 5 de junho de 2008

Protesto!



( A pintura é O Navio dos Loucos, ou A Nave dos Loucos, pintura de Hieronymus Bosch, leva o espectador para um mundo tanto real como surreal. Esta pintura critica os costumes da sociedade da época em que foi pintada, de forma alegórica: a devassidão e a profanidade presentes em todos os grupos sociais (incluindo o Clero, como se pode ver, em primeiro plano na pintura), o jogo e o álcool)


No boletim da I igreja Batista de Fortaleza neste último domingo saiu uma matéria sobre os transexuais e a cirurgia de mudança de sexo que agora poderá ser feita pelo SUS. O pastor manifestou sua indignação com aquilo que ele chamou de “ depravação sexual”. Ele diz : “ não quero pagar a depravação sexual de ninguem. Mas, o duro é que não me perguntam se eu concordo ou não. Lamentavelmente não tenho escolha: sou obrigado a pagar e pronto. O que posso fazer é registrar meu protesto. É o que estou fazendo”.

Acho lamentável que ainda existam opiniões de natureza tão fundamentalista e beirando o fascismo. É exatamente por isso que eu peço a Deus que os evangélicos jamais alcancem o poder político como eles tanto querem. O que o pastor sugere é que as minorias de nossa sociedade não tenha representatividade política e que nem sejam tratadas como cidadãos pelo Estado. É um elogio ao fascismo. Uma democracia representativa funciona exatamente ampliando os espaços para a diferença. Os deputados estão ali para representar seus eleitores, sejam eles héterossexuais, homossexuais, transexuais, bissexuais, brancos, pretos, católicos e protestantes.

Uma sociedade livre e democrática pressupõe que haja espaço para a diversidade que é a manifestação humana. O referido pastor usa o bobo argumento de que quem determina o sexo de uma pessoa é Deus. Quanto a isso eu prometo que escreverei um longo artigo dizendo o que eu realmente acho sobre isso. Mas, posso dizer agora que esta forma de pensamento é extremamente limitada. Qualquer pessoa que se dedique ao estudo da psicologia, sociologia ou antropologia saberá, sem muito esforço, que sexo e gênero são construções diferentes. Masculino e feminino, isto é, o gênero é uma construção social e historicamente datada. A constituição psíquica de um sujeito em masculino e feminino não segue exatamente seu sexo biológico.

Com isto não quero dizer que concordo com uma intervenção cirúrgica tão forte como a mudança de sexo requer. Estou simplesmente tentando mostrar que dizer que os transexuais são depravados sexuais é um pensamento radical e muito, muito perigoso. Se este pastor tivesse o poder, o que ele faria com o milhares de transexuais no mundo a fora? Certo. Primeiro lhes ofereceria a salvação a “ mudança de vida em Jesus”. Certo. E caso eles não aceitassem? Os obrigaria a vive isolados em guetos devidamente cercados pela polícia cristã a fim de que esses depravados não se aproximem nem um pouco de nossa santa sociedade cristã? É neste tipo de sociedade que os evangélicos querem viver?

Outro argumento usando pelo pastor é que o governo tem usado o “ seu “ dinheiro para financiar festas pecadoras como o Carnaval. Quanto a isto eu só tenho a dizer que, sendo assim, o gonverno não deve apoiar nenhuma manifestação cultural, seja ela carnaval, são joão ou as famigeradas Marchas para Jesus”. Quem foi que mandou os crentes marcharem para Jesus? Até onde eu saiba essas marchas não passam de um arremedo de carnaval fora de época dos crentes. Acho que eles deveriam deixar de ser recalcados e, já que querem cair na gandaia, que se joguem em uma boite ou mesmo num divertido baile de carnaval. Mas, não. Isso seria depravação sexual.

Enquanto isso, logo depois que leio este triste boletim, sobe no palco na igreja um grupo vocal interdenominacinal que se apresentava naquele domingo. De cara eu pude avistar uns três, não, minto, quatro homens um pouco diferentes no palco. Sim, eram nitidamente homossexuais. Entretanto, eram homossexuais “controlados”. Recebidos no seio da igreja eles foram “ transformados” por Jesus e agora não são mais depravados sexuais. Eles podem cantar, tocar, dançar ( e como temos tantos deles na dança!). Podem fazer tudo que as mulheres fazem, ou seja, podem ser bichas dentro das paredes da igreja na mais pura santidade.

É esse o tipo de sociedade que o pensamento fascista e retrógrado da igreja evangélica quer formar: uma sociedade hipócrita de excluídos. Ou vocês conhecem algum homossexual que foi transformado? Eu conheço vários que se dizendo transformados vivem uma vida infeliz de erros e acertos, entre depressões, culpa e tentativas de suicídio. A maioria vive uma vida aparentemente transformada, mas por de trás da cortinas vivem no submundo do sexo e da pornografia. Mas, o que a igreja quer não é mudança verdadeira: para ela o que mais importa é a aparência:dizer-se mudado por Jesus!

Depravação sexual é propor um tipo de sociedade inviável para se viver. Este é o projeto da moral evangélica: uma sociedade totalitária que aniquila todo e qualquer rastro de diferença. Em última instância—peço desculpas se agora me torno hermético—o que a igreja quer fazer é apagar a marca daquilo que nos faz mais humanos: a diferença sexual. Apagar a diferença sexual é entrar no reino da psicose. Alias, é isto que a igreja evangélica mais produz: desubjetivação, sujeitos psicóticos, lançados e capturados no desejo de um Outro todo poderoso representado pelas figuras despósticas de seus líderes.

Da mesma forma que o referido pastor escreveu seu boletim em seu pleno direito de protestar, eu escrevo este post como um grito de protesto contra esta moral aterrorizante que , num passado não muito remoto, alimentou tantas guerras e mortes. Basta citar as grandes cruzadas e a guerra entre protestantes e católicos. Isso sim, foi uma grande depravação sexual. É por este caminho que queremos seguir?

2 comentários:

  1. Uau! Que texto!

    A tudo se aplica quando lembramos dos radicalismos (dogmas) de outras igrejas. A síndrome do é porque é, é porque tem que ser, é porque estão dizendo que Deus quis que fosse. Se investigar bem a fundo, a palavra de Deus é mais de amor e compreensão ao próximo (incluindo, aceitando e reconhecendo as diferenças) do que de condenação ou segregação. O pastor se deixou levar pelos seus próprios preconceitos, ostentou sua moral num estandarte e quer fazer valer seu ódio às diferenças.

    Só esqueceu que o homem se aproxima ou se afasta de Deus de acordo com seus atos.
    Sem julgamentos morais. Sem prévias e injustas condenações estará mais próximo da divindade (seja ela qual for).

    Abração!

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