
“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas”. ( Fernando Pessoa)
Acordou como em todos os dias: inanimado. Virou-se procurando um corpo, ou quem sabe ao menos o calor de uma sensação de continuidade do seu próprio corpo. Queria pertencer; a fatiga que aqueles anos de solidão lhe causavam era como prender a respiração—doíam-lhe os pulmões. Revirou-se na cama mais uma vez e acendeu um cigarro; pensou se um dia alguém lhe daria um motivo decente para desistir do vício. Era tudo que o cigarro representava em tempos de vacas magras: um companheiro silencioso.
Desceu as escadas meio trôpego; tomou café às pressas, pegou o jornal e tomou o rumo da rua. A rua agora era uma manada indiferenciada para ele. Ninguém saltava da multidão; ninguém que captasse seu olhar. Sempre fora muito exigente com os olhares. Queria ser olhado. Cansara-se da transparência que o mundo lhe dera. Sentia-se como que translúcido. Ele não olhava para ninguém e ninguém lhe via. Fumou mais um cigarro. A fumaça subia fazendo círculos concêntricos que embebedavam seu olhar; não via nem era visto, e ser visto era tão bom. Afinal de contas,--pensou resoluto--, olhar e ser visto é o que dá sentido a uma vida tão banal como esta que nos foi dada.
Sentou-se num banquinho em uma praça bucólica para ler o jornal. Os contos de fadas eram mitos distantes para ele...Deixou-se carcomer por uma mágoa boa; boa como bicho de pé. Daquelas dores que tem serventia para lembrar que se está vivo. Coçou o pé...Leu mais um pouco e olhou. Finalmente olhou.
Viu num outro banco um olhar que lhe via. Viam-se no instante mesmo que o olhar de um chegava ao outro. Permaneceu com o olhar fixo; encarou mesmo. Não demorou muito, mas foi o suficiente para que pudesse perceber seus cabelos negros que esvaiam com o vento; caiam-lhe sobre a testa. Seu fino movimento de levar os cabelos com a mão lhe fizeram tremer os joelhos. Sabia-se visto: ternura e curiosidade. Sentiu-se olhado por olhos que lhe diziam mais ou menos assim:
“ Veja que te olho. O que há em ti que me chamou o olhar? Que me capturou completamente? Eu te olho como olho pra dentro de mim, e você tem esse traço especial das pessoas que nasceram para as exceções. Eu te olho pra te contemplar. Nada quero saber... Não é só curiosidade. Te olho porque me olhas como ninguém jamais me olhou”.
Levantou-se do banco num ímpeto cansado, mas levantou. Sabia que caso não se erguesse naquele momento, não haveria outro—olhares não se cruzam à toa—isso ele já sabia muito bem. Sentaram-se lado a lado. Sem nada dizer, suas mãos tocaram-se levemente. Um calor bom; um senso de pertença.
--Sabes que conversa sem contemplação é enfadonha. Você sabe...Eu não te conheço, mas eu te quero tanto....” todos temos um segredo, não pense que eu não posso ir mais devagar”.
---Não precisa ir devagar...You know I don´t know you, but I want you so bad. Você não pode guardar seu segredo sozinho…Eu sei que não pode. Eu te vi. “ultimamente eu tenho tido os sentimentos mais estranhos, sem nenhuma razão vívida para lutar”. Gostei do seu perfume....
--Usarei sempre. A verdade é que nem gosto muito dele, mas você gosta. Usarei sempre.
--Sabe que redenção você representa para mim? Não sabe...Mas não precisa saber. Você vai sentir... Lentamente que, mesmo sem saber, você me despertou. E despertar é muito bom. Obrigado.
--- Ainda é um começo e todo começo é muito intenso...Não soa um pouco ridículo, digo, assim juntos, como se nada mais houvesse? Patético ?
---Sim, é só o princípio. Não se preocupe...Vai ficar cada dia mais ridículo à proporção que o amor toma ritmo. O amor é o ridículo da vida, mas na vida, o que há de melhor é o amor. Então, ser ridículo é o mínimo que a vida exige de nós. Ser esperto é platitude. É pura encheção de lingüiça. O bom mesmo é amar.
--É amor o que sentimos?
--Sim, é amor. Sejamos então ridículos...Por muitos outros meses...
Ah! Feliz por ler algo tão bom. Desde que eu te conheço por gente, sempre te vi exaltar o amor de maneira muito racional, agora não, sinal de que vc ama. E como eu queria sentir isso. Ridículo ou não, para mim, Rafael, tu és uma poesia.
ResponderExcluirMeu Deus! Quando leio essas coisas percebo que nem tudo está perdido. Existe ainda nesse mundo, nesse mundo tão perdido, o amor... o Amor... Ridículo, como assim ele deve ser... :)
ResponderExcluirmuito legal amigo, as expressões e os conectivos entre os textos, o zelo pela linguagem, tá muito bom!
ResponderExcluirNossa, que texto Com um ritmo amoroso e caliente .Bem diferente.Seus escritos estão mais leves.Amar faz bem.Muito legal rapaz!continue amando.
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