sábado, 24 de maio de 2008

Tendas e trends...







Ontem tive a oportunidade de visitar mais uma igreja em Fortaleza. É a “igreja da tenda”, como é chamada pelos fiéis entusiasmados.

Para quem ainda não sabe, eu nasci em uma família protestante que se converteu em uma igreja Batista. Foi lá onde eu cresci e aprendi os primeiros passos da teologia protestante. De lá para cá já fazem alguns bons anos ( mas não revelo minha idade nem sob tortura!) vividos no meio evangélico. Já vi todo tipo de mudanças: desde a saída da minha família de uma igreja história tradicional para uma nova comunidade de cristão mais progressistas até que meu pai se tornou pastor de uma denominação neo-pentecostal. Hoje ele preside uma comunidade evangélica de cunho neo-pentecostal moderada.



Fui criado nesse meio, portanto, posso dizer que já vi quase toda a evolução da igreja evangélica nos últimos 20 anos. Hoje o que vemos é uma profusão de filiais de grandes impérios espalhadas pelo país semelhantes a “ Mac Donalds” religiosos. Eu vivi o início da Igreja Universal do Reino de Deus>; Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra, Igreja Bola de Neve, etc, só para citar algumas denominações neo-pentecostais.



Basicamente, a teologia destas “ igrejas” fundamenta-se na obtenção de poder, graça e prosperidade no aqui e agora. Curas miraculosas, “ passes espirituais” e , principalmente, promessas de obtenção de riquezas por meio de doações voluptuosas são os temas mais explorados por seus “ pastores”. A igreja evangélica já experimentou todas as modas possíveis e imagináveis em seu afã de arrebatar mais e mais fiéis.

Já passamos pela fase do “boom” da música, quando os velhos hinários foram substituídos por canções com uma roupagem mais contemporânea e de conteúdo espontâneo. Passamos também pela fase da “ quebra de maldições hereditárias”, nas quais acreditava-se que o sujeito tinha que quebrar as maldições herdadas dos pecados de seus antepassados.



Depois veio a era do “cair no espírito”, das línguas espirituais, dos “arrebatamentos”, “ dente de ouro”, “ unção do riso”; essa foi a fase das grandes e inovadoras manifestações do Espírito Santo.



Mais recentemente, os evangélicos passaram, e ainda estão passando, pelo delírio de “ Pink e o Cérebro”. Neste famoso desenho animado ( hilário aliás..) dois ratinhos tentam, sempre sem sucesso, com planos mirabolantes, conquistar o mundo.



Surgiu o movimento G-12 na Colômbia que se espalhou pelo mundo todo incitando os fiéis a conquistaram o mundo por meio da evangelização em massa, o trunfo? As células. Essa fase permanece até hoje. Na verdade, o G-12 é só um sintoma de uma moda que já vinha se estabelecendo: o ativismo. Em reação às igrejas protestantes históricas, começaram a criar os mais variados métodos para fazer a experiência religiosa o mais assimilável possível aos não crentes. É assim, sai moda, entra moda e os evangélicos todos vão como formiguinhas atrás de açúcar! Desesperados por algo que lhe tire do marasmo de sua parca, fria e superficial experiência espiritual.



Qualquer coisa ta valendo, contanto que eles sintam que estão no caminho certo. Se a igreja não cresce, eles logo encontram a solução: não estamos usando o método certo. Se os jovens não mais freqüentam a igreja, logo eles descobrem uma nova fórmula: temos que modernizar. Se os fiéis não são mais tão engajados, não tarda e eles encontram uma solução: O monge e o executivo.



Na verdade, o que menos os evangélicos fazem é refletirem sobre o impacto que sua dita relação com Cristo tem sobre suas vidas. Todas essas modas e ventos de novas doutrinas nada mais são do que tentativas frustradas de preencherem um vazio espiritual deixado por sua fé rasa e sem brilho. O fulgor e vitalidade de sua fé estão enevoados por um excesso de falso moralismo e afundados nas trevas de regras como “ não toque”, “não mexa”, “ não faça”.



A vida de Cristo nos crentes está apagada por uma fé acética que luta em não aceitar que nós somos na verdade “ humanos, demasiado humanos”. O brilho de Jesus está quase que todo apagado por olhos que vêem maldade em tudo; olhos disciplinantes que, como nos tempos de Jesus, não tiram a trave de seu olhos antes de tirar o cisco no olho do outro.

É assim que, através dos anos, os evangélicos tentam suprir o vazio de sua experiência de conhecer o verdadeiro Cristo com métodos, modas e princípios. Cada vez que os estudos em administração de empresas criam um novo método, em pouco tempo a igreja já o “ evangelizou”. Rapidamente, pastores encontram versículos bíblicos que justifiquem o uso de tais métodos para “ melhorar” a vida da igreja. É uma triste realidade, mas não é nada diferente das andanças da igreja católica que já passou por todo esse mesmo processo de decadência. O que a igreja Católica é hoje a igreja evangélica será daqui a não menos que 50 anos. Talvez menos.



Quanto a “igreja da tenda”...Já nem lembro como fui chegar neste ponto. Acho que tinha alguma coisa a ver com modismos e “ trends” no meio evangélico. De repente, a nova moda agora vai ser erguer tendas por todo o Brasil.....

5 comentários:

  1. Rapaz, muito bom isso. sei nem por onde começar. fazia tempo q não lia um post palavra-por-palavra na net. Isso tudo reverbera em muitas cordas minhas. Não sou protestante, nem cristão aliás, mas venho acompanhando essa balela toda há um tempo... Às vezes acho bom, pensando que isso é o signo do fim da religião, do desencantamento completo do mundo. Outras vezes, acho que essa é uma artimanha sutil, que leva a religião quase ao paroxismo pra mantê-la mais insidiosa do que nunca, e não sei se gosto disso não.
    Sei que uma vez entrei numa igreja neo-pentecostal, dessas hard core mesmo, e o pstor falou muito de dinheiro e tals e só citou a biblia uma vez, e foi exatamente aí que o sujeito gaguejou. Freud explica? haha

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  2. rs..talvez!tem um texto na bíblia que diz o seguinte: Como está escrito: "Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; E todo aquele que crer nela não será confundido." ( ROMANOS, 9:33). este texto se refere e Jesus. então, o pastor tropeçou exatamente onde tinah que tropeçar! hahahaha.
    abração!

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  3. É Rafa.... as igrejas da tenda vão proliferar. Já tem uma em São Luís, na curva do 90. Não é aquela que tu estás pensando. É outra denominação. O teu post está ímpar, certinho, começo, meio e fim afinadíssimos e cheios de verdade e graça. Beijo no teu coração.

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  4. É uma pena que deixamos de ser simplesmente sal da terra e luz do mundo para sermos uma mera religiao instituida igual ou pior a qualquer uma outra.

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  5. Rafael,
    Há alguns anos atrás, tivemos uma conversa com seu pai, que então era nosso "bispo" regional, acerca de algumas diretrizes administrativas da Instituição. Dentre as várias colocações, lembro-me de lhe ter dito "a igreja católica a qual nós crticamos hoje, começou como a igreja cristã em Roma... qualquer outra igreja cristã que comece a buscar e se empolgar com os mesmo valores, estará se tornando igual". Os acontecimentos posteriores revelam que seu pai tinha entendimento semelhante.Pelo que li, vc também.
    Agora, levar os outros a pensar é menos complicado, do que apresentar esperança,alternativa, sem correr o risco de que o que nós ajudamos a construir com nosso pensamento hoje, não se torne exatamente o que abominamos amanhã? Será que isso é possível?

    Um abraço.

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