Foi ao banhar-se que ele viu a noite com rugas pretas. A água era profunda e densa que lhe caia sobre a cabeça; quente como um jorro divino. Uma chuva de meteoritos agora eram seus pensamentos: noite vaga e vazia; sem escrúpulos havia lhe roubado a sensatez. A alegria de suas decisões tomadas no choro árduo e seco. Debussy tocava alto e sensato. A música e água eram sua redenção. Melodia e o morno da água secavam o estribilho reticente da culpa. Reinava uma decepção calma, quase cautelosa e sem avisos. O passado provara que as decisões depois da ação culposa eram inúteis.
....A melodia planava sobre seus cabelos acariciando sua nuca selvagem. Os ares eram doces e as palavras faltavam...Caíam podres do pé. Os pensamentos sussurravam seus agouros. Ele sabia que a noite passaria em claro, mais uma vez. A água limpava os cheiros nus; o cheiro de lama, o azedo . O sono era o aviso mais certo. Além do cansaço, suas pálpebras eram pesadas. Caia a água. Doce. Ferro e suor. Sangue e ópio. Nada era certo naquela noite de arrependimentos: os corpos, dos homens e das mulheres lhe cortavam a alma. O corpo é uma lástima, um arremedo de linguagem. Não diz nada. O corpo só pede e a música diz! O que ao corpo se nega sai pelos dedos e pela língua em palavras maduras. Deixem as palavras maduras! Elas caem do tronco de água que escorre pelo ralo junto com seu presente. Insólita era a noite com Debussy. E os dedos tocavam o piano rapidamente, m-e-l-o-d-i-c-a-m-e-n-t-e; tristemente o piano solando sua dor. Sem saber Debussy purificava tudo. Mas, o cheiro continuava. Sabão em pedra, duro e seco ao sol. Duro e seco ao sol era o sexo, como carne seca frita no sol era o desejo desse homem: se passar do ponto enche-se dos vermes...Lavava-se as carnes para comer antes do sal.
E a água limpava dos vermes de seu sexo. Escorriam-lhe pelo corpo como sanguessugas, rebeldes, irremediáveis. No chão caiam como frutos podres, olhos vazados eram os vermes. Mas, um olho, um olho lhe viu. Era verme também—limpo pela água e por Debussy. Pegou o verme pela mão, olhou-lhe os olhos e, cansado, balbuciou qualquer palavra. O banho cumprira sua função.
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