sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Super -Homem



Será isso que todos procuramos ? O super-homem que virá a nos restituir a glória dos reluzentes e brilhantes anos de nossa infância? De quando eramos o objeto mais doce e dourado de nossos pais? Quando acreditávamos que o mundo masculino tudo nos daria? A insistência da beligerância do poder? 
Quando insistimos no primado da afirmação fálica, seria isso a imaturidade? E como abri-se ao indizível feminino? Como abrir o peito para o nada ? Para o vazio ? Onde não há o resgate do super-homem , mas simplesmente resta a única saída de em si mesmo achar uma salvação.

Talvez como diria Freud-- cabe a cada um descobre de que forma pode ser salvo. Não há regra de ouro de salvação para todos;. nada que seja aplicável para todos se aplica a uma singularidade. 
Ha! Eis o grande oculto e difícil mistério:

Desistir da insistência no sentido! Abraçar o transbordar de nossos excessos sem crer no poder. Desistir de crer e insistir no pai; em sua palavra, em seu ofício e em sua consolação. Mas, como fazer isso? Desistir do grande consolo? Eis um motivo para empreender uma psicanálise: aprender a sofrer, ou sair de uma infelicidade especial para uma infelicidade ordinária. O divã é menos um lugar de preencher o vazio do que um espaço para ampliar esse vazio até o ponto em que a criatividade se impõe como um dever-- o único dever de viver e saber viver.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Grito.


O Grito, por Edvard Munch.- Acesse o link e saiba mais sobre o pintor. 


Haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.
Pode um grito suprir a alma?
Háaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Há o que?
Ah! O que?
Pode um grito alimentar a convicção de que sofro?  E de que meu sofrimento é legítimo?
Que meu corpo sofre de uma doença mortal; de carregar minha alma tão pesada.  O sofrível sortilégio  lançado sobre minha doce infância. Tudo aquilo que antes era nu e límpido hoje chora negras- copiosas lágrimas. E nem consigo chorar, o que seria uma bela libertação. Eu só choro perante belíssimos coros, novelas ou com os filmes. Livros quase nunca. Conversas também não. Quase ninguém tem o poder de me fazer chorar ou mesmo de me dá alguma consolação. As palavras que me dão não passam, como disse a um bom amigo, respostas padrões. Tentativas desesperadas de tapar o sofrimento com a peneira. E a angustia e a dor são como o sol - brilham com efusão; cegam os mortais de dor. Consolações padrões não surtem efeito. Não estou precisando de nada. Não quero nada. Furei o furo. Mordi a boca e sangrei profundamente. Tanto que surgiu um rio de sangue; são minhas veias e furações. Tudo ao mesmo tempo me dizendo que não há mais tempo para isso. E ainda assim quero viver parado no espaço de meu tempo.
E pode um grito curar uma ferida?
Se puder. Darei o maior grito. Talvez esse torpor, essa letargia seja a calmaria de uma grande onda. Quando a maré retrocede. E depois disso tudo darei o grande grito. O grande desespero de minha alma e aí então saberei se há comida num grito.
Pode um grito encher os lapsos ? 
Meu corpo gira em seu próprio eixo, como um planeta lunático expiro o último ar. Espero docemente o fim do meu deitar...Até quando eu quiser. Porque há um ritmo na vida. Quero respeitar o ritmo dos animais.  Os ursos hibernam por meses e ninguém os chama de preguiçosos. Porque Deus não me fez urso? Ou porque eu não posso comer e passar seis meses dormindo? Sorvendo meu próprio sangue.
Eu quero ser o vampiro que vai me morder e me transformar em morto-vivo. Não quero que seja outro a fazer isso. Já dei muito meu pescoço a morder. Quero a paz de deitar e ficar! E ficar lá sem esperar nada. Um chamado, ligação, convite ou encontro. Quero a paz de verdadeiramente ficar só. Será que posso suportar a grande solidão? O grande confronto?
Eu quero o grande choro...Só haverá grande clamor depois do copioso silêncio.
Silêncio do corpo, órgãos, boca e língua. Silêncio do sexo, vísceras e cabeça.
Cala-te como aquele que hiberna. Organiza tuas forças. Não dá a ninguém mais tua energia. Sorve tu mesmo tua força. Mas, como aprender essa natureza? De nada desperdiça.
Desperdicei muito e agora meu corpo cobra suas forças. A sábia alma cobra sua vitalidade e eu sei disso. Pode um grito acordar uma vida? Pode. Pode, sei que pode. Só não tive a força ainda para dar o grito alto, o grito torto- meu grito de liberdade. E grita-se porque exercer o desapego daquilo que nos desgasta é de uma dor maluca. Dor de escolher; dor de assumir o dever de podar a arvore. E só a árvore podada vai e dá muito fruto. Quero dar o grito da grande escolha: de beber o vinho novo. Mas, sabe-se faz tempo: não se põe vinho novo em odres velhos e nem se costura pano novo em pano velho. Fazendo isso os odres velhos se rompem e o pano velho se rasga.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

BBB 10



Sim, eu assisto BBB. Quem não assiste lance a primeira pedra.
O que o BBB prova é que os humanos  são humanos; cheios de contradições e vilezas. Héteros e homos; mauricinhos e alternativos, cabeças e sarados—todos revelam suas contradições sob algum tipo de pressão. E a pressão no BBB é calculada.  É super calculado para tirar o que há de pior no ser humano, e  somos todos piores no que nos faz realmente humanos. O que me irrita é quando escuto o público criticar alguns participantes porque simplesmente estão sendo humanos: iguais a todos nós. A produção da globo dividiu os brothers em duas casas, uma chique e uma pobre e depois esperou pra ver o circo pegar fogo. Qualquer um faria igual. Tal como na selva os mais fortes é que sobrevivem. Cada um de nós faria o mesmo: fofocas, leva-e-traz, exageros, mentiras e pitys. Tudo por um milhão de reais.  

Mas, a verdade é que o público não vota em quem age mais eticamente dentro do jogo. Na verdade, ocorre muito mais um processo de identificação. A população tem simpatia ou antipatia por um jogador e isso não se explica racionalmente.  A maioria das pessoas com quem tenho conversado não sabe por que não gosta da Angélica ( lésbica assumida) e nem porque gosta do Dourado ( homofóbico de carteirinha). Sentimentos de simpatia ou antipatia normalmente são inconscientes e dificilmente sabemos porque vamos com a cara de fulano ou sicrano; só sabemos que nosso “ santo” não bateu!  Dourado já proferiu frases antologicamente homofóbicas : “ Homem não pega AIDS de mulher, só de homem”; “  Não gosto de ser chamado de bicha, assim como não gosto de ser chamado de nazista”. Além disso, o lutador pediu que não se falasse em sexo durante as refeições logo após a Angélica e o Serginho ( gay efeminado assumido) terem comentado algo sobre uma festa gay. Tudo isso pesa contra ele. No entanto, a Angélica Morango que, antes tinha uma boa popularidade desceu ao Hades porque começou a fazer o que chamam de “ leva-e-traz” e fofoquinhas na casa. Bem, ela fez o que todos fazem diariamente no BBB desde a primeira edição. Mesmo assim o peso das fofocas de uma lésbica pesam mais na justa balança de nossa moral do que a homofobia declarada do professor de judô heterossexual. Por que se dá isto?

É simples. A sociedade brasileira é fácil de entender. Somos machistas e ponto. O machista na verdade não tem repúdio aos homossexuais; seu repúdio verdadeiro é contra o feminino. Um nojo de tudo aquilo que questiona nossa aristocrática lógica fálica. Mulher no Brasil ainda é artigo de segunda categoria; gênero fraco e sempre burro no trânsito. Então, como esperar que um país que tem medo de mulher não tenha  medo dos gays? Sim, porque é medo sim. Ódio, amor e medo andam juntinho. Aí fica difícil saber se alguém que é homofóbico na verdade sente atração ou medo. Acho que a fórmula poderia ser mais ou menos assim:

  tenho medo do que não conheço porque ás vezes, quando confrontado com o desconhecido acabo reconhecendo um pouco de mim nele. Sinto raiva porque vejo que  partes de mim borbulham quando vejo o Serginho dando pinta; me estremeço quando sei que o Dicesar faz o que eu só tenho coragem de fazer no carnaval e sinto-me terrivelmente atraído pela idéia duas mulheres juntas . Aí sinto ódio disso que me extravasa. Desses seres transgressores que botam a perder todo meu trabalho de anos recalcando minha sexualidade. Anos de poeira baixa se perdem quando me deparo com este ser que ousa questionar os limites de nossa moral.

Dourado ganhou a simpatia nacional porque catalisa sentimentos que correm por entre o subterrâneo do nosso povo: nosso precioso preconceito de uma sociedade escravocrata e colonial, sempre aterrorizada pelo estranho índio— O selvagem e primitivo intruso que anda nu e fuma maconha. 

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Um deleite.

Agradecido à querida amiga Rossana por ter recebido este video em hora tão oportuna.
Assistam e em seguida leiam o mais recente post Anunciou o anjo do Senhor, aí sim, os sentidos se unirão e aos de boa vontade se abrirá um deleite. O video tem legenda, caso não apareça logo de início clique em view subtitles  e você poderá escolher em qual idioma quer ver a legenda.

Anunciou o anjo do Senhor



A glória da segunda casa será maior do que a primeira, anunciou o anjo do Senhor.
Há-- nos céus mais longínquos, nos viradouros dos ventos, nas perdidas noites sem luar— um anjo-fauno.  Só ele profere as palavras habitadas por Deus.  Esse anjo, miragem do Eterno, tem a habilidade de incorporar todos os sentidos: mágoas, lágrimas, agonias, temores e ânsias; metade no corpo, metade nas asas.  Há muitos planetas ao seu redor e ele passeia por seus anéis e luas sem o mínimo pudor. Na verdade, este anjo desconhece o pudor; a vergonha ele nunca compreendeu. São sentimentos vazios de sentido para ele. Mas, isso tem um motivo claro. Um ser proclamador, arauto supremo de “ ais” e “ poréns” jamais pode conhecer a vergonha e timidez. Às vezes ele voa nu por sobre o sereno da madrugada. Silencioso, batendo suas asas para se disfarçar. Seu vôo é como as muitas cores a desenhar aquarelas nos céus. Ele voa aos céus e aos céus dos céus. Lá onde o mistério reina entre os poderes maiores. Onde as aves sobem para não descer; lá de onde caiu Ícaro- o tal desajeitado. No perigoso céus e próximo ao torrente sol voa o anjo-arauto. Seu corpo é de escamas e sua língua gigantesca é sempre pronta para a batalha. Seus pés são amáveis e rápidos; deslizam por entre as nuvens. Ele faz das estrelas faíscas cegas.

Um dia, porém, foi lhe dado o pior dos destinos: profetizar contra os baixos céus. Lá habitam criaturas celestiais que, pelo tempo decorrido, brilham menos que as estrelas. E para a glória suprema, tudo que brilha menos que as estrelas perde toda sua dignidade, fortuna e serventia. Deus assim o quis e veio a palavra do Grande Eterno dizendo:

Faça chover teu fogo, gás e vicissitudes sobre as carnes opacas dos seres que já não brilham. Esses insossos que me causam náusea. Vai-te de céu em céu e arrasta teus clamores. Grita oh anjo-fauno teus agoures mais diletos e goza na destruição. Porque eu ferirei todo aquele que já não saboreia as cores essenciais; aqueles que perderam a sensibilidade do caminhar e cujo coração abriu em seu peito um buraco frio e insípido. Diz a todos que detesto os sem gosto. Aqueles para os quais a vida tornou-se uma série infinita de rancores e observações inúteis. Que odeio quem não vê; diz alto e claro a eles que não temem a repentina destruição que o Poderoso das nuvens quebra o brilho maculado. Que Eu oprimo a vileza e as sobras dos olhares.

O anjo-fauno é obstinado e respirando fogo virou-se para o Eterno Redentor e vociferou:

Todo mundo é banal. Oh Santa Criatura, todo mundo é banal! Tu o sabes muito bem. Que não há ser na terra que não seja imundo de terra e bastardo de alma. Todos rastejam na lama do entendimento e suas almas sempre comem dos besouros alados. Tu sabes que é preciso que toda fanfarrice seja perdoada porque senão como justificar as existências? Como pesar a própria balança? Ah, não faças 
nascer sobre mim terrível aurora; essa de anuncia tragédias sobre a impiedade. Porque tu o bem sabes como minhas asas também perdem suas penas. Tu sabes o quanto me cansa meus insaciáveis vôos e ter muita coragem causa-me danos irreparáveis ao coração. Poupa-me Sapiência Master. Salva-me e serei salvo desta grande miséria de julgar os baixos céus. Guarda contigo esse jugo. Nego-me ao sacrifício maior de punir o que é digno de ser punido. Serve-te de mim para outros malefícios.

O mal também é puro no Reino Inefável.  Sabe alguém  de mal maior do que o parir dos animais e o suplício de seus filhotes a cambalear? Conhecem maior malignidade do que a morte na savana?  O perigo de nossa ferocidade é cheio de maldade. No mundo do anjo-fauno mal pode ser para um grande bem e bem... Ah, isto já não se sabe muito o que é. Nunca se soube o que é o bem, esse prazer inefável de sentir-se feliz. Sempre essa obsessão míope de obter satisfação plena e a tal felicidade dos mortais. Nos céus dos céus abertos não se conhece tão palavra: f-e-l-i-c-i-d-a-d-e. É inútil tentar ser feliz e fazer o bem ao mesmo tempo.  

Eis o mistério da grande e segunda glória: que o bem e mal são neutros. Que tudo é neutro; tudo é branco e cristalino. Tudo é essencial acontecer nos altos céus.  O que acontece embaixo dos céus nunca se compreende porque as linguagens são intraduzíveis. E somente quando tudo se fundir em sol, estrelas, poeiras iluminadas, alfazema, terra e céus é que se compreenderá o que é a glória da segunda Casa. Também compreenderão a ressurreição dos mortos e a morte dos sempre mortos. Porque quem sempre vive, diz o arauto-fauno, vive para sempre; mas, quem sempre morre nesta vida morto será, para sempre e amém no porvir alado.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Da letargia


* Quadro de Lucien Freud


Acordei às 8 da manhã e não pude me levantar.  Nada do que o dia reserva para mim todos os dias me apetecia. Abracei-me aos travesseiros e permaneci. Em meio aos barulhos matinais de latas, panelas e  suspiros mergulhei em sonhos cortados. O calor da manhã a me causar suores, mas nada grave: é que dormi perfumado. Tenho esse hábito agora de me preparar para dormir: escovar bem os dentes, escovar os cabelos; colocar uma boa roupa e me perfumar todo. Deve ser algo aprendido das parábolas das dez virgens; quero estar pronto para o arrebatamento final:

Para o dia da grande glória quando terei a certeza de não morrer de tédio. Quando e se eu for arrebatado no meio da noite por um amor sem nome; por braços firmes e convictos. Estar pronto para quando minha força for cortada e a vida finalmente se tornar suportável sem que eu tenha que passar mais uma hora deitado olhando os ponteiros girarem. É que aprendi a ver a vida de uma maneira insólita –dela não tiro grandes expectativas ou então tiro as mais enormes possíveis; aí tudo acaba ficando muito mais enevoado, sem brilho e sem alegorias. Como se tudo que me oferecem já vem gasto e usado. Aos meus olhos nada reluz, não quando acordo com essa consciência límpida.

Você que é tão esperançoso saia de sua pele cotidiana; de suas amarras, suas propriedades, seu dinheiro, família, filhos, mulher e afazeres e tente ser feliz assim mesmo.

Alias, tente ser feliz assim mesmo. Aí me conte tudo. Conte-me como você não pôde se levantar da cama. Depois me diga como você  suportou o dia inteiro sem um murmúrio, sem um suspiro, sem uma decadência. Portanto, Decaio todos os dias; só porque tenho que encontrar em mim a razão para levantar. Agora você que tem tantas razões, tantos dependentes, tantos outros além de si....Aí sim, você se levanta como um arauto da esperança.

A mim, como castigo eterno de ter nascido de cabelos em pé, resta-me ver a vida como um acaso cego e um desfilar de performances que só fazem sentido em meio aos performáticos. Eu gosto dos enredos; das história inacabadas e das vidas que não tem um fim, senão um desfecho.
Gosto de estar nesta letargia porque por ela me dou a maior das liberdades—não sonho acordado, só quando durmo.

E paz na terra aos homens de bem. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Segunda-feira meu filho.

Escute aqui meu filho.


Escute meu filho que a vida é dura. Sua vó lhe disse que tudo passa. Não passa. Nada passa. Os sonhos não passam; a dor não passa, o vento não passa, não pára. Nada pára. Você não passa; as memórias não passam, elas se amontoam numa lembrança grossa e negra como uma convicção cega de que não valeu a pena ter sido menos exigente, menos caprichoso, muito complacente. Não seja filho, complacente com as pessoas. A complacência é uma forma de masoquismo e não devemos ser masoquistas. Quem gosta de sofrer não sofre o necessário para acumular, como dizem os Escritos, “brasas vivas sobre suas cabeças”. Aqueles que têm a gravidade da vida como línguas de fogo sobre a cabeça só aceitam sofrer a seiva dura e seca da vida. Sim filho querido, a vida é seca, molhados somos nós. Esse povo de carne e osso.

Filho chamo-te pelo nome para lembrar-te teu nascimento. A gente nasce nessa terra. Nada é não-feito. Todas as coisas são feitas e, portanto, tudo acaba.
 Querido, não nutra ilusões de infinitude. A comida acaba, a geladeira esvazia, o corpo acaba, o rio seca, tudo fica mais quente e mais frio, o amor acaba e, ainda assim, nada passa. Fica a nostalgia teimosa coçando o peito. Tenha saudade querido. Saudade alimenta a alma do poeta. Seja poeta. Pegue na caneta e, de vez em quando escreva assim:



Sobre a mesa há papéis, cera e tinta.

Minha alma é uma escritura, densa, cheia de odores, sentes?

Cheira-me por tudo que é mais sagrado!

Quero sentir-me cheirado, abraçado, mantido em segredo em tua memória.

quero ser teu odor mais sagrado, metido em teu pescoço como uma corrente a te enforcar.

Sufocar-te de lembranças para nunca esquecer-me do meu cheiro.



Filho querido, limpa tua alma nas segundas-feiras. Toda segunda é dia de beber água, muita água. Limpa o limo das veias e coração. Bebe água filho meu. Nos dias  deve-se recomeçar mesmo que trôpego. Faz assim. Acorda, vira de lado, sente o nada ao teu lado. Dói o pescoço? Mexe a nunca, abre as janelas, cortinas. Deita-te novamente de bruços, deixa o mofo da noite passar. Grita baixinho a raiva de mais um dia, recorda-te que é segunda-feira e que Ele dá mais uma chance de Ser. Seja terrivelmente intenso. Escova os dentes com pressa. Não creias na Yoga. Irrite-se com a paz de cada dia e encha-se de toda selvajaria que puderes. Agora te devora antes de qualquer coisa. Não saias do quarto enquanto não te fartares de todo esse sentimento agudo de insatisfação, porque é ela, durante o dia que te colocará as maiores armadilhas. A angustia do “ e –o-que-mais” é que tem matado os fracos. Experimente isto: quando sentir vontade de vontade, como aquela de comer o que não tem na geladeira, deita e espera. Dorme com fome como os indigentes. Seja um indigente das vontades. O desejo é coisa malandra—tenta a gente, seduz, vende o querer mais do que vale e depois diz secamente: tente outra vez.

E não tente filho. Tentar é triste. Quando sentires a menor intuição de que tua vontade te engana toma um porre. Ou durma. O melhor seria ler um livro, então leia se te apetecer. Contudo, se necessário for entorpeceres o raciocínio, tanto melhor. Resistir à tentação nunca foi a saída certa. Todos caem, todos sucumbem, essa é a história da tentação. Nasceu com já com uma derrota e quem será maior que os primeiros homens? Logo nós, essa raça de muitos anos corrompida; que cedemos sem mais delongas ao nosso corpo nu? Se cederes, todavia não tenhas medo ou raiva. Aceita-te acima de todos os outros. Todos os teus erros. Teus pormenores. O âmago da vida de um homem são seus minúsculos e imperceptíveis movimentos curtidos na dor. A convicção mais aguda que lhe dou é de que o pequeno não passa. O passado se esquece das miudezas e tu sabes filho, o rancor e a mágoa são feitos de miudeza. Queres que eu te diga para não seres rancoroso? Não posso fazer isso. A mágoa e o rancor são professores, o problema é depender deles pra sempre. Sente teus remorsos, agouros, mágoas profundas e deixa que a amargura tente fazer morada em ti. Aí, de repente, como séculos se passassem entre dois segundos, foge rapidamente! Esconde-te lá no mais secreto de tua memória; lá onde a infância ainda habita em felicidade. Então, tu vais tomar proveito do meu maior ensinamento: que as coisas não passam assim como todo mundo diz e que, glória nas alturas, essa é a nossa única salvação.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Porque Deus disse.

Deus me disse.

Deus me disse que no fundo do mar tem uma sereia. Ela respira por entre os dedos, toda cheia de glória como os antigos querubins. É ela a vigia das grandes águas, dos grandes portões do antigo Jardim; nas nadadeiras duas espadas que flamejam quando beijadas pelas águas. Seu furor é como o quebranto dos deuses marinhos. Mas ela a nada teme.  Deus me disse que seus olhos podem ver três gerações dentro dos nossos, é preciso ter muito medo da sereia. Ela é onipotente. Só que ela habita numa incerteza tal que não sabe que pode tudo; se alguém um dia lhe abrir os olhos é o fim da raça humana, o tão esperado fim do mundo que terminaria com todas as nossas sandices esperançosas. É que não há esperança para os homens, disse Deus. 
Quando ela passa perto dos peixes eles mudam de cor, um pouco para se esconder e outro pouco para se exibir. Eles cantam enquanto ela os observa, tensa e rígida como uma pedra. A pele desta sereia... Seria... Sereia de um âmbar viscoso, uma pele lisa e macia guardando seus espinhos por dentro. Ela é rainha onipotente dos portais da glória. Raios, trovões, furacões e forças da natureza rezam em seu interior. Ela responde todas as preces da natureza. Seu furor pode derrubar os abismos gelados e as encostas arenosas marinhas. Serpentes negras são o estrado dos seus pés e ela é poderosa em sua majestade oculta. Um poder místico lhe banha os sexos, sim , porque ela é bi-sexual, produz todos os hormônios e a todas as criaturas atrai. Não há ser neste planeta que não sucumbiria aos seus sedutores encantos. E ela anseia por todos nós.
 
Ela tem uma casca macia e dura; seu rosto com seus traços retos acentuados por seus nariz que a tudo cheira e faz ensinar cheirar aqueles que nunca sentiram os odores essenciais. Em sua ignorância ela é pérfida, mas sabe perdoar. Teve que aprender o perdão e perdoou Deus por tÊ-la dado as chaves dos portais eternos.  Para barrar a entrada da glória, Deus me disse, ela deve eternamente não saber que tudo pode, porque é disso que vem o medo que ela mete nas gentes. Ao ficar de pé em frente aos portais do Jardim ela se eleva às magnitudes. De um salto seus raios penetram toda água. Roxo, vermelho, púrpura e dourado vão a sua frente. Iemanjá é nada perante seu uivo roco. Seu ventre se abre para mil estações: ventos, chuvas e torrenciais, é como um jorro sem cessar; o mijo celestial. Ela assusta todas as línguas. Daqueles que correm aos portais porque são eternos e como eternos enchem de esperança seus romeiros. Mas não há romaria que ela não destrua. Com ímpeto, força, gloria e honra,Deus me disse: ela deve.

Deus me disse que é preciso continuar as romarias aos portais. Os portais da ignomínia. Da vergonha do húmus humano. Da vergonha de ser essa raça trôpega, vacilante, lancinantes em sua carne. Continuar as romarias porque a sereia tem sede de existir, e ela só existe por meio aos portais gloriosos. Luxuriosos. De luxuria vil e sem mágoas! Ela goza das cores, dos dourados..Ha!! Os portais são eternos! Devem durar para sempre! Eles são a marca indelével da sofrível vida humana. Vida de carne e osso, intestinos e silêncio dos órgãos. Porque esta sereia é para quem tem ouvidos para ouvir e ouça! Porque Deus disse. Venham todas as raças e continuem a encontrar a serei doce dos antigos mares. Ela reina de direito, poder e fato. Não há homem ou mulher que possa lhe abrir os portais.

Tente você, porque Deus já me disse. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ao analista.

Depois de ler " àgua viva" de Clarice Lispector escrevi ao analista:


Ah. Ele há. Estou escrevendo isto para você. Nunca escrevi nada para um analista, mas resolvi ousar. Queria te mostrar que eu sou mais que o divã, que o que tu ouves. Que eu sou mais. E que há uma parte minha que você nunca consegue ver, porque eu não falo tudo e não consigo ser tudo aqui. Talvez uma vontade de ser tudo para alguém. Mas sabes, essa vontade já arrefece. Queria ao menos ser um pouco de mim para alguém. É por isso que hoje queria que você me visse, porque aqui nestas palavras estou me mostrando, consegues ver? É que quando falo misturo tudo de outra forma, aqui misturo tudo numa coesão gostosa, dos meus dedos. No divã falo com a língua e não com os dedos.


Falar com os dedos é melhor, porque na dor dos dedos sinto a vontade de sentir meu corpo vibrar. É porque só sei viver quando meu corpo vibra. Quando fiquei assim? Tão fremente pelo corpo? Tão necessitado que ele pulsasse enquanto vivo esta pena dura? Quando foi que apanhei e gostei?

Não é que eu tenha vergonha de falar, mas é que meus múltiplos se expandem ainda mais aqui quando escrevo, porque vou pensando e colocando os dedos para doer. É que não consigo viver sem uma dor não é isso?

Não, não é isso.

Quero te escrever porque queria que você me conhecesse, além dos seus ouvidos. Mesmo que seja para te cansar ou te fazer deitar num rio enfadonho assumo a culpa por tentar te seduzir. Não, nunca senti vontade de dormir com vc, ou te beijar, ou fazer sexo com você. Isso seria profanador, e eu não sou profano. Sou misturado, profano não. Sabe por que te digo isso? Porque eu quero saber o que há, no sentimento que tenho por você que fala de mim. O que há na sua sombra que revela todo meu corpo suado !

Te escrevo porque quero ouvir tua escuta, teu silêncio tórrido de esperanças. Na verdade, não escrevo para ti , escrevo para ...Não sei. Viu como emperra quando esqueço que estou escrevendo e me sinto em análise?

É melhor continuar a escrever para você mesmo. Esconde minhas faces. Me esconde dentro de você! Porque quando você fala todas as minhas palavras voltam-se contra mim e o véu que antes recobria meu corpo rasga-se. Você me olha por inteiro.

Te ofereço este escrito como a prova mais sublime de que eu preciso me expressar e você deve me amar.

Desculpe,mas há sensatez no descontrole.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Alomodóvar e meus braços partidos.

O Outono - Baco e Ariadne, de Eugenè Delacroix




Acredito na sensualidade.


Sábado assisti finalmente “Abraços Partidos”. Comentar Almodóvar pode ser escorregadio, é difícil escapar do tom clichê e tiéte. É por isso que decidi fazer um inventário de sensações:

O espanhol é uma língua muito sensual, principalmente nestes últimos dias em que estou mais crédulo da sensualidade. Uma saudade dos suores sensuais e do vento subindo a saia rodada. A língua falada aos meus ouvidos no filme me despertava uns arrepios mudos, que só tremulavam; os “esses” por entre a língua lambiam todo meu corpo. Sentia uma gota que escorria pelo queixo passeando pelo peito e barriga, fazendo uma curva até o sexo. A respiração ofegava com as palavras rápidas e os olhares lentos... Lentas as pernas juntas às minhas. Surgia o seguinte diálogo:

--Por que você gostaria de preencher essa lacuna com um ser tão egoísta? Gozo na coisificação das coisas. Um dia já senti tesão por taças de vinhos e por uma parede de vidro. Tenho medo de não lhe satisfazer, já dizia minha mãe: “tarado tem pau grande”.O tamanho fálico é a própria personificação do poder no universo masculino. Mas, ouvi o que você me disse da seguinte forma. É que você precisa de uma coisa, um ente para lhe tratar, ainda que momentaneamente como tal... Mas, ainda que submisso você tenha o controle da situação.

--Por que eu não sei exatamente, mas, pressinto que tenha a ver com minhas fantasias masoquistas. Sinto um prazer esplêndido quando sou visto como um objeto. E sim, preciso de um ser para sentir a consistência do me próprio ser. Seu corpo me excita – magro e branco. Esquálido e sombrio... Quase como um objeto cera. Um objeto de desejo que faz semblante de tanta coisa. Algo de translúcido. Facilita que eu te atrevesse com minha fantasia. Você se torna o fantasma de minha existência. Seus líquidos, seu cheiro. Seus lábios e seu nariz. Tudo aponta para mim, pro mais arredio de mim. Lá onde sinto tudo arrepiar, por dentro das palavras; do encanto amargo do prazer. Então eu gozo sobre nós dois. E todo o planeta arrefece os sentidos! Dou voz a todos os sentidos e minha língua repousa sobre a tua... Repleta de visco. Saliva por saliva trocam-se os mares pela boca! E o mar é tão amplo; por isso em francês “La mer” é feminino. É também a mãe- aquela que goza no mais além do sexo em si. Ela goza de sua amplitude, de seu vazio, de sua não-amargura e apego ao tronco das palavras. Goza misticamente como Santa D’Ávila! É por isso que é preciso acreditar na sensualidade, porque no corpo encontra-se a verdade da alma. É preciso domar o corpo e um corpo só é domado por outro corpo. Entende agora porque quero que você meta as rédeas em mim?

Quem não sucumbiu ao corpo nunca viu nada.