domingo, 21 de fevereiro de 2010

Anunciou o anjo do Senhor



A glória da segunda casa será maior do que a primeira, anunciou o anjo do Senhor.
Há-- nos céus mais longínquos, nos viradouros dos ventos, nas perdidas noites sem luar— um anjo-fauno.  Só ele profere as palavras habitadas por Deus.  Esse anjo, miragem do Eterno, tem a habilidade de incorporar todos os sentidos: mágoas, lágrimas, agonias, temores e ânsias; metade no corpo, metade nas asas.  Há muitos planetas ao seu redor e ele passeia por seus anéis e luas sem o mínimo pudor. Na verdade, este anjo desconhece o pudor; a vergonha ele nunca compreendeu. São sentimentos vazios de sentido para ele. Mas, isso tem um motivo claro. Um ser proclamador, arauto supremo de “ ais” e “ poréns” jamais pode conhecer a vergonha e timidez. Às vezes ele voa nu por sobre o sereno da madrugada. Silencioso, batendo suas asas para se disfarçar. Seu vôo é como as muitas cores a desenhar aquarelas nos céus. Ele voa aos céus e aos céus dos céus. Lá onde o mistério reina entre os poderes maiores. Onde as aves sobem para não descer; lá de onde caiu Ícaro- o tal desajeitado. No perigoso céus e próximo ao torrente sol voa o anjo-arauto. Seu corpo é de escamas e sua língua gigantesca é sempre pronta para a batalha. Seus pés são amáveis e rápidos; deslizam por entre as nuvens. Ele faz das estrelas faíscas cegas.

Um dia, porém, foi lhe dado o pior dos destinos: profetizar contra os baixos céus. Lá habitam criaturas celestiais que, pelo tempo decorrido, brilham menos que as estrelas. E para a glória suprema, tudo que brilha menos que as estrelas perde toda sua dignidade, fortuna e serventia. Deus assim o quis e veio a palavra do Grande Eterno dizendo:

Faça chover teu fogo, gás e vicissitudes sobre as carnes opacas dos seres que já não brilham. Esses insossos que me causam náusea. Vai-te de céu em céu e arrasta teus clamores. Grita oh anjo-fauno teus agoures mais diletos e goza na destruição. Porque eu ferirei todo aquele que já não saboreia as cores essenciais; aqueles que perderam a sensibilidade do caminhar e cujo coração abriu em seu peito um buraco frio e insípido. Diz a todos que detesto os sem gosto. Aqueles para os quais a vida tornou-se uma série infinita de rancores e observações inúteis. Que odeio quem não vê; diz alto e claro a eles que não temem a repentina destruição que o Poderoso das nuvens quebra o brilho maculado. Que Eu oprimo a vileza e as sobras dos olhares.

O anjo-fauno é obstinado e respirando fogo virou-se para o Eterno Redentor e vociferou:

Todo mundo é banal. Oh Santa Criatura, todo mundo é banal! Tu o sabes muito bem. Que não há ser na terra que não seja imundo de terra e bastardo de alma. Todos rastejam na lama do entendimento e suas almas sempre comem dos besouros alados. Tu sabes que é preciso que toda fanfarrice seja perdoada porque senão como justificar as existências? Como pesar a própria balança? Ah, não faças 
nascer sobre mim terrível aurora; essa de anuncia tragédias sobre a impiedade. Porque tu o bem sabes como minhas asas também perdem suas penas. Tu sabes o quanto me cansa meus insaciáveis vôos e ter muita coragem causa-me danos irreparáveis ao coração. Poupa-me Sapiência Master. Salva-me e serei salvo desta grande miséria de julgar os baixos céus. Guarda contigo esse jugo. Nego-me ao sacrifício maior de punir o que é digno de ser punido. Serve-te de mim para outros malefícios.

O mal também é puro no Reino Inefável.  Sabe alguém  de mal maior do que o parir dos animais e o suplício de seus filhotes a cambalear? Conhecem maior malignidade do que a morte na savana?  O perigo de nossa ferocidade é cheio de maldade. No mundo do anjo-fauno mal pode ser para um grande bem e bem... Ah, isto já não se sabe muito o que é. Nunca se soube o que é o bem, esse prazer inefável de sentir-se feliz. Sempre essa obsessão míope de obter satisfação plena e a tal felicidade dos mortais. Nos céus dos céus abertos não se conhece tão palavra: f-e-l-i-c-i-d-a-d-e. É inútil tentar ser feliz e fazer o bem ao mesmo tempo.  

Eis o mistério da grande e segunda glória: que o bem e mal são neutros. Que tudo é neutro; tudo é branco e cristalino. Tudo é essencial acontecer nos altos céus.  O que acontece embaixo dos céus nunca se compreende porque as linguagens são intraduzíveis. E somente quando tudo se fundir em sol, estrelas, poeiras iluminadas, alfazema, terra e céus é que se compreenderá o que é a glória da segunda Casa. Também compreenderão a ressurreição dos mortos e a morte dos sempre mortos. Porque quem sempre vive, diz o arauto-fauno, vive para sempre; mas, quem sempre morre nesta vida morto será, para sempre e amém no porvir alado.



2 comentários:

  1. 'É inútil tentar ser feliz e fazer o bem ao mesmo tempo'.

    Pessimista ou realista ?

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  2. Eu acho sempre intrigante as coisas que você escreve/ publica. As vezes até um pouco indecifráceis quando se referem à seres distantes da realidade que podemos observar. Mas enfim, o que mais me atrai nisso é a composição disso tudo e uma verdade que pode ser pensada através destes seres. Justamente por ser desconhecido, é incomunicável a linguagem entre estes dois mundos.

    Tentarei decodificá-lo, aos poucos.

    Um abraço, meu querido.

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