Antes de um acordo ideal entre o dito e o dizer, queremos dar lugar à suprema diferença entre o dito e o dizer de quem fala, e que leve em conta também a possibilidade de modificarmos nossa posição subjetiva em relação ao dito.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Alomodóvar e meus braços partidos.
Acredito na sensualidade.
Sábado assisti finalmente “Abraços Partidos”. Comentar Almodóvar pode ser escorregadio, é difícil escapar do tom clichê e tiéte. É por isso que decidi fazer um inventário de sensações:
O espanhol é uma língua muito sensual, principalmente nestes últimos dias em que estou mais crédulo da sensualidade. Uma saudade dos suores sensuais e do vento subindo a saia rodada. A língua falada aos meus ouvidos no filme me despertava uns arrepios mudos, que só tremulavam; os “esses” por entre a língua lambiam todo meu corpo. Sentia uma gota que escorria pelo queixo passeando pelo peito e barriga, fazendo uma curva até o sexo. A respiração ofegava com as palavras rápidas e os olhares lentos... Lentas as pernas juntas às minhas. Surgia o seguinte diálogo:
--Por que você gostaria de preencher essa lacuna com um ser tão egoísta? Gozo na coisificação das coisas. Um dia já senti tesão por taças de vinhos e por uma parede de vidro. Tenho medo de não lhe satisfazer, já dizia minha mãe: “tarado tem pau grande”.O tamanho fálico é a própria personificação do poder no universo masculino. Mas, ouvi o que você me disse da seguinte forma. É que você precisa de uma coisa, um ente para lhe tratar, ainda que momentaneamente como tal... Mas, ainda que submisso você tenha o controle da situação.
--Por que eu não sei exatamente, mas, pressinto que tenha a ver com minhas fantasias masoquistas. Sinto um prazer esplêndido quando sou visto como um objeto. E sim, preciso de um ser para sentir a consistência do me próprio ser. Seu corpo me excita – magro e branco. Esquálido e sombrio... Quase como um objeto cera. Um objeto de desejo que faz semblante de tanta coisa. Algo de translúcido. Facilita que eu te atrevesse com minha fantasia. Você se torna o fantasma de minha existência. Seus líquidos, seu cheiro. Seus lábios e seu nariz. Tudo aponta para mim, pro mais arredio de mim. Lá onde sinto tudo arrepiar, por dentro das palavras; do encanto amargo do prazer. Então eu gozo sobre nós dois. E todo o planeta arrefece os sentidos! Dou voz a todos os sentidos e minha língua repousa sobre a tua... Repleta de visco. Saliva por saliva trocam-se os mares pela boca! E o mar é tão amplo; por isso em francês “La mer” é feminino. É também a mãe- aquela que goza no mais além do sexo em si. Ela goza de sua amplitude, de seu vazio, de sua não-amargura e apego ao tronco das palavras. Goza misticamente como Santa D’Ávila! É por isso que é preciso acreditar na sensualidade, porque no corpo encontra-se a verdade da alma. É preciso domar o corpo e um corpo só é domado por outro corpo. Entende agora porque quero que você meta as rédeas em mim?
Quem não sucumbiu ao corpo nunca viu nada.
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Adorei. O filme e o texto.
ResponderExcluirEu estava com um pouco de vergonha por ter me excitado com qualquer simples toque que acontecia no filme. Mas era o clima, eram os silêncios cheios de olhares, era a proximidade (física mesmo) em que os atores contracenavam...
Fico feliz por ter me permitido a este filme.
ps.: "Mas, ainda que submisso você tenha o controle da situação.": Impossível não compratilhar disso.