Deus me disse.
Deus me disse que no fundo do mar tem uma sereia. Ela respira por entre os dedos, toda cheia de glória como os antigos querubins. É ela a vigia das grandes águas, dos grandes portões do antigo Jardim; nas nadadeiras duas espadas que flamejam quando beijadas pelas águas. Seu furor é como o quebranto dos deuses marinhos. Mas ela a nada teme. Deus me disse que seus olhos podem ver três gerações dentro dos nossos, é preciso ter muito medo da sereia. Ela é onipotente. Só que ela habita numa incerteza tal que não sabe que pode tudo; se alguém um dia lhe abrir os olhos é o fim da raça humana, o tão esperado fim do mundo que terminaria com todas as nossas sandices esperançosas. É que não há esperança para os homens, disse Deus.
Quando ela passa perto dos peixes eles mudam de cor, um pouco para se esconder e outro pouco para se exibir. Eles cantam enquanto ela os observa, tensa e rígida como uma pedra. A pele desta sereia... Seria... Sereia de um âmbar viscoso, uma pele lisa e macia guardando seus espinhos por dentro. Ela é rainha onipotente dos portais da glória. Raios, trovões, furacões e forças da natureza rezam em seu interior. Ela responde todas as preces da natureza. Seu furor pode derrubar os abismos gelados e as encostas arenosas marinhas. Serpentes negras são o estrado dos seus pés e ela é poderosa em sua majestade oculta. Um poder místico lhe banha os sexos, sim , porque ela é bi-sexual, produz todos os hormônios e a todas as criaturas atrai. Não há ser neste planeta que não sucumbiria aos seus sedutores encantos. E ela anseia por todos nós.
Ela tem uma casca macia e dura; seu rosto com seus traços retos acentuados por seus nariz que a tudo cheira e faz ensinar cheirar aqueles que nunca sentiram os odores essenciais. Em sua ignorância ela é pérfida, mas sabe perdoar. Teve que aprender o perdão e perdoou Deus por tÊ-la dado as chaves dos portais eternos. Para barrar a entrada da glória, Deus me disse, ela deve eternamente não saber que tudo pode, porque é disso que vem o medo que ela mete nas gentes. Ao ficar de pé em frente aos portais do Jardim ela se eleva às magnitudes. De um salto seus raios penetram toda água. Roxo, vermelho, púrpura e dourado vão a sua frente. Iemanjá é nada perante seu uivo roco. Seu ventre se abre para mil estações: ventos, chuvas e torrenciais, é como um jorro sem cessar; o mijo celestial. Ela assusta todas as línguas. Daqueles que correm aos portais porque são eternos e como eternos enchem de esperança seus romeiros. Mas não há romaria que ela não destrua. Com ímpeto, força, gloria e honra,Deus me disse: ela deve.
Deus me disse que é preciso continuar as romarias aos portais. Os portais da ignomínia. Da vergonha do húmus humano. Da vergonha de ser essa raça trôpega, vacilante, lancinantes em sua carne. Continuar as romarias porque a sereia tem sede de existir, e ela só existe por meio aos portais gloriosos. Luxuriosos. De luxuria vil e sem mágoas! Ela goza das cores, dos dourados..Ha!! Os portais são eternos! Devem durar para sempre! Eles são a marca indelével da sofrível vida humana. Vida de carne e osso, intestinos e silêncio dos órgãos. Porque esta sereia é para quem tem ouvidos para ouvir e ouça! Porque Deus disse. Venham todas as raças e continuem a encontrar a serei doce dos antigos mares. Ela reina de direito, poder e fato. Não há homem ou mulher que possa lhe abrir os portais.
Tente você, porque Deus já me disse.
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