Elegemos uma mulher para presidente. E agora José?
Durante a campanha Dilma usou muito pouco a cartada “sou mulher”; usou mais no fim e a meu ver não conseguiu convencer as eleitoras de que ela também era mulher. Conversei e convivi com mulheres de todo tipo durante a campanha e pude sentir que pairava no ar um tipo muito peculiar de antipatia contra a então candidata .Antipatia compartilhada amplamente por vários setores da sociedade: mulheres, homens e até (choquem-se) homossexuais. A rejeição sofrida por Dilma e os comentários pejorativos tais como: bruxa, sapatão, durona, agressiva e violenta não representam um rechaço às suas feições sisudas de pouco brilho. Como sempre acho que há mais, sempre mais. A figura de Dilma, juntamente com toda sua história combativa e de liderança, deve causar nas outras fêmeas a velha inveja fálica. Muitas mulheres ainda acreditam que sua redenção está no casamento branco-gelo, nos filhos e nas tendências estéticas. Os símbolos de poder devem ser “ adequados” a uma mulher de brio. Onde quer que esta sagração do feminino esteja arraigada a imagem de Dilma ricocheteia como ódio. Uma mulher como Dilma no poder profana uma noção de feminino permitida e arraigada em nossa sociedade; algo que ainda precisamos desmontar. A mulher pode trabalhar como os homens- contato que esteja com o batom e a saia em dia; a mulher pode até ser motorista de ônibus- mas sem perder sua “feminilidade”; a mulher pode sim tudo que o homem faz- contanto que ela dê um toque de perfume de rosas. Mutatis mutandis, isso vale também para os gays. O bom gay, e isso eu ouvi de um gay ( pasmem-se novamente!) é o “discreto”, “não-afeminidado”, em outras palavras: comportado. Já as loucas, as afeminadas, isto é,as tão conhecidas “bichas”, são gays de segunda categoria e seu comportamento é tachado de “ desnecessário”.
Quando a presidente eleita pronunciou a desgastada paráfrase --Sim, as mulheres podem—abriu-se para mim um novo sentido, antes denegado. Até porque, de fato, o que ocorre contra o feminino neste caso não é da ordem de um recalque, mas sim da denegação. A denegação é um mecanismo de defesa em que o sujeito se recusa a reconhecer como seu um pensamento ou um desejo que foi anteriormente expresso conscientemente. Assim, todos sabem que há diferença sexual, isto é, masculino e feminino são marcados por uma completa impossibilidade de complementaridade. Além disso, falar em masculino e feminino,ao invés de macho e fêmea, abre espaço para que haja uma permuta de lugares, já que homem e mulher para a espécie humana não são lugares anatômicos, mas nichos subjetivados. Mesmo sabendo disso, preferimos negá-lo e rapidamente colocar em seu lugar uma imagem fetiche do feminino. No lugar de ativamente afirmar sua diferença a mulher acaba se tornando um mero apetrecho ao masculino. A diferença vai pro beleléu.
Dito isto vou dizer-lhes o que ouço minha presidenta dizer:
“Sim, as mulheres podem ser diferentes”. O fato de que as mulheres podem já está amplamente provado. O que está em pauta agora é se elas, se o feminino e todas as suas mais diferentes manifestações podem ser diferentes. Se é possível uma mulher pode ser mulher marcando sua diferença mais singular. Sim, as mulheres podem atravessar o lugar que lhes foi tão generosamente permitido por todos, e ser mulher da forma que deseja e pode. Indo mais fundo no seu discurso o que eu ouvi foi o seguinte: “Sim, as mulheres podem ser diferentes e eu sou sim uma mulher”. Dilma manda um claro recado aqueles que a acusaram exatamente do pior dos crimes: o crime de não ser mulher. No final das contas, Dilma em seu primeiro discurso como presidente da República disse em alto e bom som: sim, eu sou uma mulher. Lidem com isso.
leia também o excelente artigo da professora Sandra Helena no O Povo:
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É, fica muito claro o motivo da PRESENÇA DA DILMA ter suscitado tanto ÓDIO. Eu nuca vi nada parecido. FOI E AINDA É UM GRANDE FENÔMENO. Penso que para que esta nossa cultura mude e o patricarcado caia de vez, vai ter muito pano pra manga. RSRS...
ResponderExcluirADOREI O TEXTO.