domingo, 30 de dezembro de 2007

Feliz alma nova!



E lá vem um novo ano. Sei que é um clichê nojento, mas não consigo evitar dizer que o ano passou muito rápido. Acho que minhas pegadas andaram mais rápida que meus próprios pés. Fiquei olhando para trás tentando entender por onde andei e porque fiz tudo que fiz e não deu em nada. Fiz tudo que fiz, e andei por onde andei porque foi assim que foi. Não é destino nem providência divina, é que foi assim que aconteceu, e não podia ter sido diferente pelo simples fato de que foi como foi e como podia ter sido.

Com isso quero dizer que eu agi como agi foi porque eu não podia fazer de outra forma, ou porque não quis agir de outra forma ou simplesmente porque não sabia ser de outra forma. É assim que termino o ano sem culpa alguma. Certa vez ouvi de alguém que a culpa não serve para nada. É a mais pura verdade. Sentir-se culpado pelo que se fez ou deixou de fazer não nos ajuda em nada; não ajuda a mudar de atitude e nem gera arrependimento. Não sinto culpa por nada. Na verdade, sinto uma expectativa grande pelo novo ano que começa. Pressinto que um mar de oportunidades, escolhas, destinos e caminhos se abrem para mim. É assim com todo ano: não há nada programado, não há destino, não há absolutamente nem um plano traçado ou sina obrigatória. Tudo que há é da ordem da mais pura possibilidade. Como diz o ditado bíblico “ para Deus tudo é possível”. Sim. Tudo é possível porque Ele é a eterna possibilidade. Nele tudo é possível e está entregue em nossas mãos. É verdade que de tempos em tempos ele mexeu os pauzinhos e algo de milagroso cruza nosso caminho, mas não é sempre assim. Pela minha experiência vejo que Ele prefere ficar como um pai coruja que vê seu filho andar de bicicleta pela primeira vez—sabe que o filho vai cair, mas não o priva das muitas quedas que darão o tão sonhado equilíbrio. Ele vê de longe, de uma distância segura, mas longe o suficiente para fazer de nós seres autônomos, com força própria. Posso estar errado, mas acho que isso explica porque nossas orações são monólogos; exceto pelos fanáticos que dizem ouvir a voz de Deus.


Em 2008 cabe a mim fazer escolhas boas e, principalmente racionais. Quero tentar, ao menos uma vez na vida, usar minha razão para alguma coisa. Nunca deixarei de viver com paixão pela vida e por meus sentimentos, mas neste ano quero racionalmente ser intolerante comigo mesmo. Ontem disse para alguém que o título deste novo ano será O ano da intolerância. Na mesma hora esta pessoa me disse que eu nunca fui muito tolerante. Ledo engano. Sempre fui tolerante demais com tudo e com todos, especialmente comigo mesmo e meus desejos obtusos e masoquistas.

Mas, é interessante como chega um momento ( acho é que são os ventos de uma velhice que já anuncia cálidos porém certeiros agouros) em que cansamos de tolerar nosso próprio masoquismo e percebemos que, acima de tudo, todos merecem ser felizes, incluindo nós mesmos. Acho que estou chegando nessa nova era.
É com isto em mente que anuncio a chegada do Ano da intolerância para mim. É algo do tipo: ame-o ou deixe-o. alguns hão de concordar comigo que : tentamos ser bons para os outros e de nada vale; quando somos piores do que realmente somos, também de nada vale. Então, é preciso ter coragem de assumir que somos todos insuportáveis. Assumir que somente nós mesmos nos aceitamos como somos e que ninguém mais está disposto a nos suportar com tudo que somos e com tudo que sentimos. Esta é uma libertação sem par. Apesar de parecer uma entrada num mundo extremamente solitário, pelo contrário, continua sendo uma entrada solene no mundo das coisas possíveis.

Sendo como somos, sem tirar e nem nada acrescentar, corremos de fato o risco de sermos muito solitários. Ao mesmo tempo, temos a possibilidade de encontrar pessoas ( ou quem sabe uma pessoa) que goste do que veja ( viva à diversidade!) e estejam disposta a nos suportar por algum tempo. Não todo o tempo porque já sabemos que ninguém é capaz disso, mas ser suportado e amado por algum tempo já é alguma coisa. Mesmo que seja por pouco tempo seremos amados por quem nós somos e não por uma imagem mal feita e mal talhada de alguém que nunca fomos ou seremos.

Estimado público, é com muita honra que, em alto e bom som, anuncio o Ano da Intolerância. Não só para comigo mesmo, mas para com todos aqueles que tentarem tirar ou acrescentar uma vírgula na minha famigerada existência. Custou-me muitíssimo conseguir ser o que hoje sou e jamais permitirei que alguém ache isso ruim. Continuarei aceitando as posições contrárias e críticas de qualquer ordem, mas asseguro-me o direito de não levar em consideração nada que contradiga o que minha alma sempre soube. É. Durante 2007 sempre soube todas as respostas em minha alma, ainda assim, não resisti à tentação de buscar uma boba confirmação no outro. Por que? Quando sempre tive minha alma para buscar conselho e conforto? Nunca estive só. Sempre tive a mim mesmo, mas era como se estivesse adormecido entre densas brumas de insegurança.
Que venha 2008....Sem medo, com coragem e uma pitada de insanidade, sigo em frente..Eu e minha alma. Juntos, jamais sozinhos. Um fazendo companhia ao outro. Fazendo assim, espero que em algum lugar do caminho encontremos outra alma acompanhada. Cansei das almas solitárias. Elas são sedentas; vampiros de sentimentos. É como Caio Fernando disse uma vez: “ num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece a outra”. Faço votos de que neste novo ano eu e minha alma cruzemos com almas especiais...deixo as desertas para peregrinos mais inexperientes...

Feliz ano novo !

Rafael Pinheiro.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Uma estória da carochinha.

Uma amiga pediu que eu escrevesse um texto de natal. Não sei se todos sabem, mas sou cristão convicto. Desta forma, o texto que segue é um texto cristão. Não peço que o aceitem, e nem que o respeitem. Muito menos que o leiam. Mas reservo-me ao direito de escrevê-lo sem justificar porque acredito em algum que não posso ver, nem tocar. Não me justifico porque acredito em alguém que, normalmente não responde minhas orações, mas ao mesmo tempo me apaixona tremendamente com silêncio....Sim. Eu creio e confio em Deus. Aqui está o texto.

“... deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino...” ( Jesus Cristo)

É noite. O céu está estrelado. O luar é tão claro que faz os bichos acordarem. Algo de puro e transparente corta o ar, como uma sensação de uma notícia urgente. Na verdade, nesta noite, nenhum animal do campo consegue dormir. As aves voam como se fosse dia. O movimento do gado acorda os pastores que velam por seu rebanho. Algo nas estrelas parece fora de lugar, fora de ordem. Os pastores do campo conhecem bem o movimento dos astros: algo mudou. Eles examinam o céu à procura de uma explicação para a repentina mudança nos ares; mas nada parece explicar o que se passa. Desta vez, não há pressagio, as estrelas nada falam--a não ser por um brilho especial, uma luz doce que alcança não só seus rostos, mas especialmente seus corações. As dúvidas e medos do dia anterior de nada valem nesta noite. Tudo é eterno num só momento. As lembranças mais vívidas que emergem são as mais tenras memórias de infâncias: dias ensolarados,banhos de cachoeira, comida da mamãe; tardes de outono, folhas secas ao vento....

Ao mesmo tempo, não é o mistério que dá o tom da noite. Não. Pelo contrário. Cada um deles sente como se seus anseios mais cotidianos fossem realizados nesta noite. Como se uma revelação, que eles já esperavam há muito tempo estivesse por acontecer.
Foi assim, como num clarão de um relâmpago repentino que tudo se fez dia. As estrelas se iluminaram com força sem igual. A lua tornou-se um grande sol e toda a noite se fez alegria. Em seus corações uma dor ardente se transformava em pranto. De joelhos os pastores admiravam o grande evento. De uma ponta a outra o céu se rasgava; nuvens desciam como se fosse dia claro. De uma fenda na noite um coral de seres magníficos enchia o ar com cores brilhantes. Prata, azul celeste, púrpura e amarelo dourado coloriram a abóbada celestial como uma pintura.
Seus corações quase não podiam suportar tanta certeza: era hoje. Algo de maravilhoso se anunciava com força majestosa. Foi então, que numa multidão de vozes se fez ouvir por toda parte um coral ao mesmo tempo assustador e reconfortante:

“ Não tenham medo filhos de Adão; porque eis que trazemos boas novas que será de grande alegria para todos os povos! Porque na cidade do rei Davi, nasceu hoje o Salvador, que é Cristo , o Senhor de todos. E assim será que encontrareis um menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura”.

Neste mesmo momento os pastores atônitos assistiram ao maior espetáculo já visto. Do mais alto céu se podia ouvir um coro divino. Vozes em harmonia cantando as grandezas de um lugar onde a dor já não existe; onde todas as lágrimas são apagadas, e todas as tristes memórias já não são mais. Ao ouvir aquele canto celeste, seus corações se encheram da mais pura paz e certeza de amor. Em meio a tantas vozes se podia ouvir claramente, anjos a cantar: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”.
Com uma certeza de amor jamais então experimentada, os pastores se levantaram. A jornada seria longa, mas seus corações estavam aquecidos de uma alegria sem igual. Juntos começaram sua caminhada rumo à cidade do grande rei Davi. Nada poderia impedi-los de ver, com seus próprios olhos, a alegria em forma de gente....



Esta é uma das minhas visões daquele dia tão especial no qual nosso querido Jesus encarnou entre nós. Eu poderia dizer ainda de tantas formas, tantos quantos fossem os anseios do meu coração. Cada um de nós fala dessa noite da forma que Cristo lhe toca.

A mim, ele me toca como a alegria mais profunda que eu jamais experimentei. Alegria nenhuma se compara ao dom de conhecer a Cristo e deixar que ele inunde de alegria um coração aflito. Imagino que para alguns esta noite não tenha significado algum; para outros não passa de uma fantasia humana. Uma estória bem criada para fazer dormir inocentes criancinhas. Acho que é por isso que Jesus disse que o Reino de Deus pertence à inocência de uma criança.

Nós os adultos já temos o coração muito ferido; desconfiado, amargo e marcado pelas mentiras que a vida nos conta. Mas é preciso ser como uma criança: confiante, sem medos e sem preconceitos para acreditar em uma estória tão feliz. Nosso coração adulto tende a desconfiar das alegrias e da bondade humana. O coração de uma criança, ao contrário, só acredita na bondade, no amor e na confiança no próximo. Portanto, este é o meu convite para todos neste natal: Recebamos esta velha “estória da carochinha” do natal com a alegria e fé de uma criança. Lembram de quando crianças era tão fácil para nós acreditar em Papai Noel? Exatamente. Voltem a esse tempo quando seus corações ainda eram abertos à esperança. Não desistam de esperar. Aqueles que esperam em Deus têm suas forças renovadas. Que neste natal, cada um de nós tenhamos o coração como o de uma criança para receber o nascimento de Cristo, todos os dias em nossos corações. Crer no nascimento de Jesus é acreditar de novo no amor. É acreditar no amor ao outro. Crer no nascimento de Jesus é acreditar na força da humanidade. Feliz natal a todos!

domingo, 16 de dezembro de 2007

Tende piedade de nós.

É preciso algo além de disciplina interior para evitar reclamar da vida. Não gosto das pessoas que só sabem reclamar da sua sina, de amores perdidos, de sorte mal amada. Gosto de preferir uma coisa meio: “se você crer em Deus, erga as mãos para o céu numa prece, agradeça ao Senhor, você tem o amor que merece”. Mas nem sempre consigo ser tão traiçoeiro comigo mesmo. Por vezes, me pego correndo atrás de mim mesmo; perseguindo-me além da conta. Chego a correr mais rápido que eu, uma luta injusta saber meus defeitos e fraquezas. Talvez fosse melhor me deixar alcançar; colocar-me a conversar comigo mesmo e deixar que eu ouça as vozes que me querem dizer segredos e ilusões. “Senhorinha levada batendo palminha, fugindo assustada do bicho papão...”. É a parte de mim que precisa reclamar e dizer o quanto odeia as obrigações de felicidade. Uma voz bem minha e que me arranca amargura das brechas do coração--daqueles lugares que não cicatrizam bem. É de lá que brotam flores murchas que não se pode dar a ninguém. Mesmo assim, se oferece as flores. Pétalas caídas de uma imensidão tão triste... Tão poética... Tão cálida. De tão frágil,tudo ao redor parecer ser tão pesado, tão denso e escuro. Tudo sem graça. Minha parte de pétalas não quer saber do ridículo, ou das regras que ensinam a ser menos ridículo. Ás vezes ela chora prenha, outras áridas e inférteis. Ouço gritos roucos que me dizem verdades objetivas: duras e ásperas. Minhas reclamações não alcançam ninguém. Aliás, quase nada em mim alcança alguém. Porque para alcançar é preciso saber dizer em palavras vulgares, no entanto, o mais importante não pode e nem deve ser dito senão pela poesia de palavras costuradas. As palavras secas dos que dizem não sofrer, não servem para nada. A não ser para ferir corações já por demais feridos. É...Os humanos não têm pena de si mesmo. É preciso também muita coisa para não se ter pena de si próprio, quando ninguém mais sente piedade de você.
Piedade meu Deus. Tende piedade de nós....

"...os seres..., ávidos de gozar a vida, sentem frequentemente a nostalgia de coisas infinitamente delicadas: frieza virginal, misteriosa atração do inacessível...Não sei como definir tais coisas. Aparentemente, são muito materiais e muito sanguíneos, até um pouco grosseiros, e niguém suspeita dos devaneios romanescos e sentimentais a que se entregam, porque esses homens bulhentos e robustos têm uma alma cheia de pudor. débeis virgens pálidas não escondem mais pudicamente o que se passa nas suas almas. Compreendes ....Que estes íntimos sentimentos, impossibilitados de se exprimir na linguagem vulgar, façam artista o homem que os tem?É incapaz de dizer o que sonha; nós é que temos de crer na vida misteriosa que dentro dele se agita e que, de tempos em tempos, produz , á luz do dia, uma flor de muito delicado aroma..."
Niels Lynne ( J. Peter Jacobsen)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Socorro




Foi no ano de 2002 que minha vida deu uma verdadeira reviravolta. Tudo mudou. Abandonei o curso de Direito no 7º semestre; literalmente fugi da UFMA e fui estudar psicologia no Ceuma. Quando me perguntam se sempre quis ser psicólogo, minha resposta é rápida: sim, sempre. Ainda hoje guardo com carinho o primeiro livro de psicologia que ganhei de presente, da minha querida amiga Érica Bandeira. Ela me deu um livro de psicanálise em 1997, no ano em que escolhi fazer o vestibular para Direito. Trilhas confusas que até hoje não entendi me levaram ao curso de Direito, mas a paixão e curiosidade pela vida me levariam por caminhos que desembocaram, inevitavelmente, no meu encontro com a Psicanálise.

Mudar do Direito para a Psicologia não foi só uma mudança de graduação, mas foi a abertuda de janelas em minha vida que poucos compreendem. No entanto, graças a Deus, sempre encontramos um ou outro que consegue ver o que ninguém jamais ousou ver. E assim foi comigo. Neste mesmo ano conheci uma das pessoas mais queridas e importantes para minha vida: minha querida Socorro. Ela sabe muito bem; muitos antes de eu ver a revolução que ocorria em minha vida, ela viu; gostou do que viu e me recebeu.

Assim, durante dois anos que passei no CEUMA, o apartamento de Socorro tornou-se um lugar de refúgio; não só para mim, mas para ela mesma. Sei que parece paradoxal, mas é como disse Caio Fernando de Abreu: “... num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Durante dois anos inteiros Socorro foi minha confidente, amiga e , porque não, uma grande mulher na minha vida. Nunca fomos namorados, nem amantes ( como muitas almas desertas gostam de crer). Fomos e somos muito mais do que isso. Socorro e eu somos algo que,nem mesmo nós ainda compreendemos.

Ambos nos conhecemos num momento crucial da vida: um recomeço. Um recomeço para mim em todos os sentidos; e para ela, um recomeço todo especial: depois de muitos anos ela decidiu voltar para a graduação e enfrentar todos os medos e preconceitos que alguém, no momento de vida em que está sofre porque deseja mais. Eu e Socorro desejamos muito mais do que a vida estava nos oferecemos. Ela me ofereceu a mão amiga, e eu lhe dei meu coração. Em pouco tempo estávamos unidos por um desejo de ser e poder mais.

Depois de cinco anos, recebo a notícia emocionante: Socorro agora é psicóloga. Não sei descrever a emoção que sinto. Para mim, ainda falta um ano inteiro para que eu alcance essa graça. Meu desejo me levou por um caminho que nos separou fisicamente, mas nunca na alma. Imagino que hoje todos os choros contidos, choros chorados e choros acolhidos naquele apartamento nostálgico no qual vivemos por dois anos, agora valem a pena. Acompanhei de perto a trajetória de uma mulher corajosa, persistente e , acima de tudo, uma das mentes mais brilhantes que conheço. Com ela aprendi sobre o amor; sobre a vida; aprendi a paciência. Aprendi a ouvir mais do que falar; aprendi que na vida, não podemos ter tudo. Aprendi o que significa realmente se doar ao outro. Com Socorro aprendi que eu podia e tinha o direito de recomeçar minha vida.

No dia de hoje sinto como se sua formatura fosse a minha. Sim! Porque de alma grudada com a dela reconheço que também me formei. Claro que ainda não me formei psicólogo, mas me formei junto com Socorro aquilo que hoje sou.

Minha querida amiga, receba meus mais sinceros votos de felicidade e sorte. A caminhada que você trilhou mal começou. Obrigado por me apresentar à vida. Obrigado por me fazer ver que é possível recomeçar. Obrigado por me apresentar à Psicanálise ( você é meu Fliess) , serei sempre grato. Obrigado, acima de tudo, por abrir as portas da sua casa para mim. Agora é hora de continuar o seu recomeço. Você sabe o quanto acredito em você, ás vezes mais do que acredito em mim mesmo. Você sempre foi uma excelente psicóloga—pelo menos o foi para mim. Sua carreira como analista será brilhante, disso eu não tenho dúvida. Para ser um bom analista basta uma coisa: ter uma alma que reconhece a outra alma. Isso você tem de sobra. Seja muito feliz. Nossa caminhada não termina. O que aconteceu conosco foi exatamente o que Cristo quis dizer quando disse: “eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”.
Parabéns querida amiga.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Dias como esse

Tem dias que ficamos completamente sedentos; de uma sede inexplicável, seca e muito, muito torta. Algo dentro de nós aponta para lugares que nunca estivemos; todos eles muito nostálgicos que nos remetem a um tempo quando parecia que “ nunca sentiríamos fome outra vez”. É o que eu chamaria do sentimento Scarlett O´Hara. É quando fazemos promessas impossíveis e das quais não nos lembramos no dia seguinte. É exatamente nestes dias que estamos mais suscetíveis a paixões relâmpago; carinhos maltrapilhos e orgias do Desejo. É claro que as orgias do Desejo não se restringem ao sexo, mas justamente aos seus derivados: os excessos, os vícios—-as paixões que só servem, momentaneamente, para aplacar a saudade da gente mesmo .
Acho que encontrei as palavras. É saudade da gente mesmo.Em dias como hoje, várias lembranças surgem: um parente querido que se foi, e que você nem se dava conta que sentia falta dele; uma música que trás de volta bons momentos do passado; um choro que foi chorado com tudo que tínhamos e que deu a impressão que nunca mais choraríamos novamente. É um choro repleto. Talvez seja essa a questão—faz muito tempo eu não choro um choro pleno. Daqueles que deixam a alma mais limpa. As orgias do Desejo não resistem a um choro nostálgico... Daqueles que nos trazem de volta ao centro de nós mesmos. Aquele lugar onde sabemos exatamente o que precisamos e jamais nos submetemos a nada menos satisfatório. É o lugar onde as orgias do Desejo não nos alcançam, porque já sabemos do que sentimos falta.
Sentimos falta de um cheiro familiar; de um abraço despretensioso. De alguém que nos acolhe com satisfação. Sentimos falta de um lugar seguro onde não se precisa fingir o tempo todo que não temos necessidades que só um outro pode suprir. Sim, estou falando de um lugar onde realmente afirmamos aquilo que nos faz seres humanos: precisamos do afeto que só se encontra no outro.
Em dias como este...Sentimos tanta falta do toque e do olhar de um outro que faríamos tudo para tê-lo, e , ao mesmo tempo, sentimos tanto medo de pedirmos e não recebermos nada. E pedir e nada receber é uma das piores coisas do mundo. Talvez seja por isso que Cristo certa vez disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrarei, batei, e abrir-se-vos-á. Porque todo que pede recebe; e o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á. E qual de vós é o homem que, pedindo-lhe pão seu filho, lhe dará ma pedra? E pedindo-lhes peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas”.
Acho que Jesus já sabia em que tipo de sociedade estaríamos vivendo hoje, onde pedir é algo indigno e querer ser amado é demonstração de fraqueza. É por isso que gosto de Jesus: ele nunca tinha medo de que fossemos sempre humanos, mesmo que isso implique fraqueza, ou aparente derrota. Ele, acima de todos, sabia como ser grandioso, parecendo ser tão pequeno.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Pobre sofre

21:33 . Temperatura: 30 graus.

Já faz algum tempo que eu não falo do meu mal-estar de viver em comunidade. Quem sabe depois do relato da minha segunda-feira todos entendam, finalmente, a grande máxima da humanidade: no Brasil, pobre sofre.
Minha saga hoje começou cedinho. Levantei cambaleando da cama como se não tivesse dormido a noite toda. Já acordei cansado. Tomei um banho frio e comecei a me preparar para ir até a UNIFOR só para atender um paciente. Andei até a parada sob um sol escaldante. Agora vejam só: ainda são 8 :00 da manhã, e aqui na tal da terra do sol, já temos calor e luminosidade suficiente pra dar câncer de pele em um zulu. Pronto. Peguei meu famigerado Cidade 2000/Papicu e fiz minha primeira visita ao fétido Terminal do Papicu. Bem, o terminal é um epicentro de calor no meio do cu ( explico- o Papicu, bairro onde moro, é dividido entre o papi e cu: o papi é a parte melhor, o Cu, a parte mais periférica), povoado de ambulantes e pessoas, quase todas, desclassificadas. Esperar um por favor ou um mero obrigado aqui no Ceará já é coisa rara, imaginem dentro deste anti-sala do inferno. Mas é assim que começo meu dia, quase todo santo dia.
Bem, como se não bastante toda essa saga para chegar até a UNIFOR, quando adentro os portais do SPA ( serviço de psicologia aplicada) descubro que meu paciente não veio porque uma das super-hiper competentes secretárias da recepção cancelaram a consulta. Motivo? Um outro estagiário, também chamado Rafael , estava doente e pediu que todos os seus pacientes fossem cancelados. Agora, os erros aqui são muitos. Primeiro que a louca da secretária não se deu ao trabalho de checar de qual Rafael se tratava, colocando em cheque o tratamento do meu paciente. Depois que o outro estagiário sonhaaaaa que ele tem secretária. Não podemos pedir que as secretárias cancelem nossos compromissos dessa forma. Mas ele sonha que já é um psicólogo famoso. Assim é que dois incompetentes tornaram meu dia mais infernal.
Saindo da UNIFOR, lá vou eu para o Iguatemi tentar comprar um chip da OI. Sim, vou mudar meu número. A OI está com uma promoção bem legal. Mas isso é periférico. O importante é dizer que agora, às 10:30 da manhã o sol já me causa queimaduras superficiais na pele ( perdi meu filtro solar). Já no Iguatemi tento comprar o tal do chip. Primeiro problema: “ senhor, pré-pago só com dinheiro”. Já fico puto porque queria pagar com cartão de crédito. Tento com o débito automático ( que é pagamento à vista). A idiota vira pra mim e diz “ – Não senhor. É só com dinheiro mesmo”. Meu deus! Em que planeta eu estou? Eu ás vezes me pergunto minha gente! Aí , com toda placidez que é me é peculiar, vou até o caixa do Banco do Brasil. Aqui começa realmente a parte difícil.
Primeiro vamos combinar uma coisa: se os velhos têm mais direitos do que nós jovens, então que façam um caixa exclusivo para velhos, grávidas e outras minorias. Simplesmente eu passei mais de 40 minutos na fila porque não parava de chegar velho. Minha gente, um horror. Acreditem, eu respeito a velharia, mas tudo tem limites. Eu também sou cliente do banco, e como vocês podem ver, sou quase deficiente mental. Eu não suporto ficar muito tempo na fila observando seres energúmenos ( agora já não me refiro aos velhinhos, mas a todos que tentam usar as máquinas), que não sabem mexer com máquinas simplórias como um caixa eletrônico. Gente, uma anta lá, uma mulher mal vestida, passou tanto tempo digitando a senha errada que o cartão foi bloqueado. Enquanto isso, eu, pacientemente, vejo passar todos os caquéticos na minha frente. E eu, morto de dor nas pernas, suando em bicas (o ar-condicionado da agência é inútil), espero pela minha sagrada hora de sacar míseros 20 reais para o chip.
Finalmente chego ao caixa e o que acontece? Nenhuma caixa naquela agência leu meu cartão. Então, 40 minutos de tortura só serviram para fazer de mim um mestre da paciência. O que eu podia fazer a não ser andar até a outra extremidade do Xoping ( sim, é assim que o Aurélio escreve Shopping, chocante não?) e tentar sacar em outro caixa. Chegando lá o que eu encontro? Mais velhos. Realmente o Brasil deve estar melhorando. Antigamente não se via tantos velhos. Acontece que os velhos europeus são mais ativos e, portanto, não atrapalham a vida alheia como aqui. Nesta altura do meu post já sei de vários leitores meus que estão ávidos por me apedrejar. Eu não recomendo. Mas sim. Continuemos.
Lá estou eu com minha nota de 20 reais na mão; corro desesperado para comprar meu chip. O tempo passa e já estou faminto. No meio do caminho, como de costume, uma estúpida, gorda e , novamente, mal vestida, esbarra em mim. O que acontece? Ela consegue me dá um soco no saco! Genteeeeeeeeeeeeeeeeeee, a louca me deu um murro nos ovos! Eu quase morro. Agora, imagem vocês... Ela pediu desculpas? ÒBVIO que não. Aqui ninguém pede desculpas ou diz obrigado. São palavras proibidas em Fortaleza, por motivos que eu jamais descobrirei. Acho que remonta à seca..não sei.
Finalmente consegui comprar a merda do chip. Pronto. De volta à UNIFOR, isso já às 16:00, sol a pino, minha pele nórdica se derretendo procurei minha orientadora de estágio. Nada. Sumida. Mas descobri que tirei mais um 10. pá!
Da UNIFOR fui pra minha rotineira análise. Meu analista , como sempre, me deixou maluco. Na volta , de novo terminal do PapiCU. Às 20:00 um calor de 30 graus. Suor, gente feia, mais suor; esperando meu querido Papicu/ Praia do futuro. Lotado. Uma coisa gozada acontece aqui: as pessoas se aglomeram bem na porta do ônibus. Eu tive que me espremer até a saída e ainda desci na parada errada.
Chegando aos finalmentes....cheguei em casa quase às 21:00, torrado de calor, vermelho, pele queimada—já posso vislumbrar os câncer ou as lesões de pele que quem mora numa terra de sol 365 dias no ano.
A única coisa que restou a fazer foi preparar um escalda pé, passar litros de hidrantes no rosto e cuidar da minha cabeça, porque sabe como é: pobre sofre!!!

Feliz Navidad!

Mal o natal se aproxima já começo a ouvir as velhas ladainhas de sempre—pessoas que dizem não gostar do natal por motivos diversos: “ como posso comemorar com tantas pessoas passando fome? Por que vou ser conivente com uma festa que não passa de uma fétida ode ao consumo?” . Blá, blá, blá. Todo ano é a mesma coisa. E todo ano eu manifesto o quanto gosto do Natal, ou como gostam de chamar os gringos “ The Holidays”. O Holiday envolve não só o natal, mas as festas de ano novo também. Bem, eu raramente acredito nessas desculpas que alguns amigos me dão do por que detestam tanto o natal. Até porque estes mesmo “filantropos natalinos” se esbaldam ou se esbaldariam no Reveillon se pudessem--muita cerveja e festa pela chegada de um ano novo. Algo que acho interessante é que o natal estimula um consumismo ao contrário. Vou explicar. O consumismo ao contrário é esta consciência-social-natalina, que só se manifesta nesta época do ano como uma espécie do retorno do recalcado social.

Normalmente algumas pessoas passam o ano todo com a sua consciência crítica um pouco pacificada, mas quando chega o natal cada um faz o que pode: sopão, doação de brinquedos, Natal sem fome, Natal feliz, etc e etc. Fora outras tantas intervenções sociais natalinas.
Entendam bem, não estou recriminando. Eu mesmo sou engajado em uma campanha de cestas básicas para o natal, no entanto, não o faço por culpa ou pela dita consciência crítica. Participo destas campanhas pelo mesmo motivo que não deixo de festejar o natal: aproveito a oportunidade para fazer laço. O natal não deixa de ser uma época do ano com um forte apelo simbólico, principalmente para o mundo ocidental-cristão. É a única oportunidade institucionalizada na qual todo o mundo pode parar e pensar um pouco em temas como solidariedade, família e comunhão com o próximo e com Deus ( para quem acredita, para os que não acreditam não é só o natal que não faz sentido, a vida toda fica um saco). Ainda que a sociedade do consumo tenha pervertido as festas e rituais de nossa sociedade, é preciso oferecer resistência.

Os rituais sempre foram algo importante para manter a civilização humana no que diz respeito aos laços sociais que a sustenta. É por causa disso que ainda me alegro quando chega o natal. A melancolia natalina, aquela tristezazinha que sentimos, para mim, é um leve bocejo de nossa alma que gostaria que os laços fossem mais estreitos; que as pessoas fossem mais tolerantes, que houvesse paz no mundo e oportunidades iguais para todos; e principalmente que os pais se voltassem para os filhos e os filhos para os pais. Então, por que calar esta data que nos faz bocejar? Não estou de acordo, ainda que respeite profundamente aqueles que acham o bocejo tão doloroso – cada um tem sua própria estória natalina--, mas para mim, o natal ainda é uma data especial. É no natal que revejo algumas pessoas que passo o ano todo distante; exatamente porque estou tão inserido num sistema que distancia as pessoas, mas que, como que por um efeito de tiro pela culatra, este mesmo sistema acaba nos reunindo, pelo menos uma vez no ano. Sei que para alguns, pareço soar reacionário, mas esta não é a idéia. Pelo contrário, estou falando de resistência. Os festejos de fim de ano não são uma invenção recente. A celebração das festas de fim de ano antecede o Cristianismo em cerca de 2000 anos. Tudo começou com um antigo festival mesopotânico que simbolizava a passagem de um ano para outro, o Zagmuk.
Para os mesopotânios, o Ano Novo representava uma grande crise. Devido à chegada do inverno, eles acreditavam que os monstros do caos enfureciam-se e Marduk, o seu principal deus precisava derrotá-los para a continuidade da vida na Terra. O festival de Ano Novo, que durava 12 dias, era realizado para ajudar Marduk em sua batalha. A tradição dizia que o rei devia morrer no fim do ano para, ao lado de Marduk, ajudá-lo em sua luta. Para poupar o rei, um criminoso era vestido com as suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo morto levava todos os pecados do povo consigo. Assim, a ordem era restabelecida. Um ritual semelhante era realizado pelos persas e babilônios. Chamado de Sacae, a versão também contava com escravos que tomavam o lugar dos seus mestres. A Mesopotâmia, conhecida como mãe da civilização, inspirou a cultura de muitos povos, como os gregos, que englobaram as raízes do festival, celebrando a luta de Zeus contra o titã Cronos.
Assim, repito cada cultura possui seus rituais que lhe dão certa estrutura de sustentação dos laços sociais que nos unem. Acabar com os poucos rituais que ainda existem em nossa civilização seria como minar aquilo que oferece, mesmo que de forma capenga, uma oportunidade de revitalizarmos a comunhão que faz de nós seres humanos.
Um feliz natal a todos!
Rafael Pinheiro.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Amar se aprende amando

Já era tempo de voltar a escrever. Ontem li uma reportagem sobre Clarice. É o lançamento de mais uma coletânea de cartas, desta vez, cartas que ela escrevia para suas irmãs- “Minhas queridas—é o nome do novo lançamento. Num dos trechos ela diz que necessita escrever; precisa escrever mais do que precisa amar. Gozado não? Parei por um tempo para pensar se isso ocorre comigo. Prefiro escrever a amar? Não sei ainda responder. Ainda acho que prefiro amar. Se escrever for um substituto para o amor, prefiro amar. Mas não acho que Clarice disse isso. Prefiro pensar que ela só escrevia porque muito amava. As cartas que escrevia para seus amigos quando morava fora do país, eram carregadas de amor, saudade, nostalgia. Ela escrevia porque a necessidade de amar era tamanha que, mesmo à distância ela encontrava uma forma de amar e estar em contato- as cartas. Conta a reportagem que um dia Clarice chegou ao ponto de ir ao cinema carregando uma das cartas que recebera de de suas irmãs no sutiã. Junto ao peito ela achou que teria sua irmã mais perto de si.
Penso que Clarice cometeu um pequeno equívoco ao dizer que escrever é melhor que amar. Na verdade, escrever é simplesmente mais uma forma de amar. Talvez seja por isso que minha inspiração tenha desaparecido por algum tempo- porque havia dado férias ao meu coração. Estão lembrados? Pois bem, achei que já era tempo de tirar o coração da gaveta, afinal de contas, a única coisa que amadurece nas gavetas é maracujá; e não existe a expressão “ coração de gaveta”. Para amadurecer, o coração precisa estar sempre fora- para fora- em direção a algo ou alguém. É preciso aprender a amar. Drummond tem um poema que se chama “ Amar se aprende amando”. Selecionei um poema que talvez seja emblemático deste novo momento.

Consolo na Praia

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

De "Amar se Aprende Amando"

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

L'amour

O amor é uma força estranha. Ele espreme e tira de nós o que há de melhor e o que há de pior, resta-nos escolher o que ele vai tirar de nós. Eu já não sei mais o que o amor vai tirar de mim, porque, esqueci-lhes de dizer que ele também arromba nossa vida; é paradoxal eu sei, mas caso vocês ainda não saibam, o amor tem regras que lhe são próprias. Ninguém as conhece, somente ele. Ele não respeita nenhuma regra. Tem regras só mesmo para nos deixar desnorteados... Sem rumo. É por isso que tenho medo do que o amor pode fazer comigo. Sim, porque o amor sozinho é perigoso, tenho sentido suas garras. Quando elas repousam sobre mim e nada agarram; é muito perigoso. É por isso que o amor só é seguro quando temos alguém para amar. Só então ele tira suas garras do nosso coração e as estende ao outro. O amor só é suportável quando temos um outro. Sem o outro, o amor é sofrido--sozinho; mal, até perverso. Ele nos consome tudo que temos. É preciso amar, porque só amando é que curamos o amor. É verdade, o amor é doente e quem ama, está doente também. Sem alguém para amar o amor nos corrói e, tudo que resta, é uma doença sem cura que nos mata lentamente, sem nunca matar. Porque ninguém, sou testemunha, morre de amor. De amor, se sofre.

domingo, 28 de outubro de 2007

Le petit prince


Não dá pra entender. São 2 da manhã e cá estou tentando parar de sofrer. Sim, escrever é uma das melhores formas de dar conta de um sofrimento. O mais gozado em tudo isto é que estou de luto hoje por alguem que morreu, que eu não sabia que já estava morto. Estou de luto por alguem que eu nunca vi na vida e nem ao menos conhecia de longe. Ele se chama Gregory Lemarchal. Encontrei-o por acaso enquanto procurar novas versões da música Hymne a L'amour, eternizado na voz de Edith Piaf. Por mero acaso dei de cara com este garoto que morreu aos 23 anos. Sua voz é limpa, angelical; algo que realmente me tocou profundamente. Desta vez eu realmente não faço idéia porque, mas eu estou desolado em saber que ele simplesmente morreu antes de completar os 24 anos. Gregory morreu de uma terrível doença genética chamada de mucoviscidose. Eu não páro de chorar todas as vezes que o escuto cantando Hymne a l'amour. Talvez porque essa música, desde que eu vi o filme sobre a vida de Piaf, está em minha mente constantemente. Ela sempre foi uma canção que mexe muito comigo e depois do filme parece que algo que se arrebentou dentro de mim e que não pára de jorrar. Como as lágrimas quando eu descobir que Gregory se foi tão novo. Não sei que idenficação macabra me uniu a ele, mas algo de profundo. POr isso eu não queria deixar passar e registrar que a morte dele me pesa muito. Vamos. Pensem o que quiserem. Desde que eu sou um lunático que entro em luto por pessoas idealizadas aos quais eu nunca conheci, até a dizerem que estou apaixonado por Gregory. Pensem tudo. Pois tudo é verdade. Algo nele me foi patológico- no sentido de pathos, paixão e sofrimento. Não sei ainda o que pode ser. Tenho somente uma vaga idéia . Acho qeu Gregory, junto com Piaf abriram portas de amor em meu coração que estavam fechadas.

Descanse em paz " petit prince".

ps: no meu blog vocês encontram um video com sua performance.
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=10260813701071291909

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Filipe



Mais um aniversário de Filipe. Falei com ele ao telefone. Ele fala pouco quando está ao telefone; ele espera e ouve. Não sei o que ele quer ouvir, então falo como se eu falasse com um bebê. Algo que me ocorreu hoje é que no tom e no espírito da sua voz eu não sinto que ele é um bebê, ou que eu falo com uma criança. É como se além das palavras ele quisesse dizer algo--como se fosse uma saudade há muito guardada em seu coração. Fiquei pensando o que ele esperava ouvir de mim... Enquanto eu pensava no que dizer era como se eu também esperasse que ele me dissesse algo. Mas ainda não sei o que.

Ele sempre me faz parecer mais idiota do que já sou. Minha “normalidade” tomba ao ouvir sua pequena voz. Tudo que nele parece torto me entorta mais ainda: minhas muitas palavras também nada dizem e o pouco que ele diz vem carregado de algo que me ultrapassa. Na corrida das palavras ele sempre ganha. Ele ganha porque ele fica em silêncio ao telefone como se sentisse que a presença fosse suficiente e as palavras...ah..as palavras são , às vezes, desnecessárias. O que carregam as palavras? Também não sei; mas imagino que seja algo impossível de ser dito. Filipe se limita a nada dizer; ou porque não sabe dizer ou por não saber como dizer intui, sem palavras, o que as palavras carregam. Filipe tem sua própria linguagem porque ele também é. Certamente ele não é como todos somos e por isso mesmo enfrenta uma linguagem mais profunda: ele fala profundamente pelo silêncio. Das poucas palavras que ele me fale sempre está presente um pedido: “ irmão, volta casa”. Depois vem o silêncio; a espera. Ele espera que eu volte...Ou talvez que eu entenda o que é voltar pra casa. Ele espera...Silencia; ouve e respira. Eu sinto, e ele sente a presença ausente que é falar ao telefone.

Hoje, mais uma vez, Filipe desperta em mim um dito que eu não posso dizer, mas que insisto em tentar dizer: tentar explicar o que ele significa para todos nós. É algo que , infelizmente, ainda não sei dizer. Mas cada vez que tento dizer percebo o quanto ele continua sendo, sempre, especial. Especial porque, mesmo sem saber, ele faz mover um desejo firme de continuar procurando um sentido. Meu irmão continua uma incógnita, um enigma para mim; e como todo enigma ele guarda em si mesmo a resposta para seu mistério. É doloroso dizer, mas preciso terminar dizendo que , fatalmente, ele é um autêntico enigma: só ele sabe seu verdadeiro significado e, talvez, eu nunca saiba pois ainda não me acostumei a ouvir o silêncio; e o silêncio é a linguagem que ele sabe falar. Não. A deficiência não é dele; porque ele, mesmo que com dificuldade fala, já eu , sou completamente incompetente quando se trata de ouvir os silêncios e os espaços de incerteza.

Feliz aniversário querido irmão. Obrigado por me fazer escrever meu melhor. Filipe nunca será capaz de ler as coisas que ele me faz escrever, mas não tem problema: ele já sabe tudo que acabei de dizer-ele é o mestre.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O gato


A luz da noite parecia terna hoje; nada irritável como de costume. Na rua um gato solitário passeava sozinho. Respirava estreitamente à procura de seu destino certo; ele era preto e todo mundo sabe que gato preto dá azar – ele sabia disso – era negro de alma também.

Seus passos eram trôpegos, mas sempre sensíveis a sua sina: de forma alguma ele era insensato. Caminhava solenemente como quem vai ao cadafalso. Seus ossos já carcomidos pela idade ainda doíam do dia anterior--um Corcel preto passou perto de atropelá-lo, as costelas lhe roubavam o fôlego. Andava simplesmente triste e desvairado, misteriosamente começava a aprender a se resignar aos fatos inevitáveis da rua: a dureza das calçadas; o temor das sarjetas mal habitadas; ratos corajosos ávidos por sangue; a crueza daqueles que passam – a rua tem um coração de metal.

O gato desfilava no meio da rua; a esta hora os carros dormiam, ele era o rei da avenida. Estava certo que seu desfile teria um efeito arrebatador sobre a gataria. Aqueles gritos nervosos e incertos da cambada no cio eram promessas de fertilidade – já se passaram anos desde a última orgia. Sua única preocupação era ser fiel ao seu fado. Fatalmente morreria hoje--na solidão de uma esquina vaga, de uma esquina abandonada por outro gato preto. Queria morrer solitário, sem piedade ou pieguice de qualquer marca. Queria morrer feito pierrô; ingênuo e sentimental.

Gato preto tem tempo certo pra morrer, não tem sete vidas como todos os outros; tem uma vida e esta quase sempre mal vivida. Sempre conviveu com gatos de outras cores que o olhavam com desdém, como quem olha para carne pouco vermelha, daquelas que deixam compradores em dúvida quanto a sua saúde. Ele nunca deixou de lado a mágoa, sempre cultivou o rancor da indiferença. A cor da pele marcou o tom de sua alma.

A madrugada avançava lentamente trazendo em seus ventos a perturbadora certeza: ele iria morrer hoje. Só e confuso. Queria morrer antes do nascer do sol. Seu plano era a morte sem doença e não observada. Era preciso ausência de luz. Nada de platéia. O choque deveria ser pela notícia. Bastaria alguém espalhar a notícia e sua alegria seria completa. A dúvida agora pairava sobre o método – como haveria de morrer? Seria uma morte dura, rápida e sem dor ou recheada de crueldade e sadismo? A platéia de certo que gozaria muito mais sensualmente com o sadismo expresso do que com a agressão dispersa em metáforas complicadas. Pronto. Já estava escolhido. Seria brutal, visceral e marcante.

De plano em mãos, porém sem saber como executa-lo continuou vagando ao som de uma ópera distante. Do alto se ouvia a soprano cantar um lamento árduo. O gato perseguia seu plano cego – a rua vazia não lhe oferecia perigo, a não ser nas ruelas úmidas onde habitavam outros gatos. Os espectadores! Precisava evitá-los. Morte para ele pressupunha solidão—o espetáculo é o achado, e depois o funeral - pensava resoluto.

Repentinamente avistou uma alameda vazia. Entrou ofegante; a morte suspirava tons sangrentos... Seus ouvidos ardiam. Tudo aconteceu tão rápido, difícil da narrar. Do alto de um prédio, das escadas de incêndio, das sacadas abandonas; dezenas de gatos revoltos desceram em ataque voraz. A voracidade com que devoravam sua carne deixaria perplexo qualquer expectador. Ele morria agonizando. A dor maior era que, não só tinha a tão repudiada platéia, como era ela mesma que o devorava risonhamente. O espetáculo era sórdido e sádico como ele planejara, mas lhe fora roubado o direito de executá-lo. Morreu frustrado e louco. Seu plano não se consumara.

Os gatos fedidos agora saíam em procissão imponente, felizes e satisfeitos: tinham cumprido sua meta , o plano dera certo: mataram um gato preto.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Vai, Carlos! Ser gauche na vida



No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no mei do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.



Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

Hoje em uma de minhas aulas ouvi uma colega criticar os poetas porque alguns poemas não fazem sentido, e que, basta ter fama que se pode escrever o que quiser. Obviamente que discordei prontamente e decidi homenagear Drummond ( já que elas citaram expressamente este poema como " enrolação") com o post de hoje. Imagino que as únicas pessoas que podem dizer que este poema é uma enrolação são aquelas que nunca tiveram uma pedra no meio do caminho. Além do mais, mesmo que o poeta ás vezes se engane, é mais uma prova de que na tentativa de dar sentido à existência, sempre haverá uma pedra no meio do caminho. Quem sabe até o poema não faça muito sentido e termine sem terminar; mas não foi porque Drummond queria " enrolar" ou porque ele não tivesse nada melhor pra dizer mas, simplesmente porque apareceu uma pedra no meio do seu caminho. Acerto ou erro de Drummond eu jamais aceitarei que alguém diga que este poema é uma "enrolação". Enrolação é covardia e não há nada covarde sobre este poema, pelo contrário ele foi muito corajoso ao expor sua inadequação perante a vida- inadequação esta que é de todos nós quando somos conclamados a dizer algo sobre o "indizível" e nos deparamos com a pedra no meio do caminho. Tentar encontrar um (1) sentido para um poema como este é beirar a loucura. Na poesia, e neste em específico, estamos no registro não de um (1) sentido , mas do duplo sentido, da metáfora. Mas realmente é pedir demais que todos compreendam isso facilmente. A repetição na linguagem está exatamente firmada no duplo sentido, e como tal , o que para alguns é genialidade, para outros é “ enrolação”. o próprio Drummond ao comentar sobre o frenesi que seu poema gerou nos meios intelectuais da época disse:

"Entro para a antologia, não sem registrar que sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais".

A ignomínia da tal colega de classe causou tanta angustia em mim que me lancei a pesquisar sobre outros poetas que utilizaram o mesmo estilo. Deparei –me com o Canto Noturno de um pastor errante da Ásia, composto por Giacomo Leopardi publicado em 1831:

Por que estes ares infinitos, este
Infinito profundo, sereno, esta
Imensa solidão? e eu, que sou eu?

Muitos outros séculos antes Petrarca escreveu: "Tra la spiga e la man qual muro è messo?", o sentido do verso é mais ou menos este:“ No momento em que tudo parece estar obtido, surge inesperadamente um obstáculo de permeio”.

Quero terminar minha simples apologia dizendo o que eu disse a minha ingênua colega:
A genialidade de um escritor é nos fazer pensar que aquilo que lemos nós também somos capazes de escrever, mas no fim, se realmente tivermos “ ouvidos para ouvir” perceberemos que nem em mil vidas seriamos capazes de escrever algo semelhante.

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no mei do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.



Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Has she lost the will to live?


Estive ausente do blog por algum tempo. Talvez por falta de tempo ou orgulho demais para escrever algo de que eu não possa me orgulhar. Enfim, estive fora porque quando escrevo para o blog estou me arriscando muito. Nos últimos tempos a última coisa que quero fazer é correr risco; como isto não é possível, tento minimizar a todo custo a probabilidade de ser traído por meus demônios. ( gostaram do neologismo a lá “objetivando metas”?) .

Agora que parei para escrever noto em mim algumas mudanças significativas; algumas delas me impulsionam a abandonar o blog. Mas acho que isso seria exatamente afirmar que, na verdade, não mudei nada. É então, que lutando contra minha impulsividade, e contra os resíduos de uma mudança ainda em processo que não cederei à tentação de dar fim ao blog. Vou continuar me expondo aos riscos que envolvem o ato de escrever.

Percebam que já escrevi dois parágrafos e ainda não disse nada sobre as tais mudanças ou, principalmente sobre os riscos que não estou disposto a enfrentar. Muito menos falei sobre como foram minhas últimas semanas. Ótimo! Tive sucesso! Pelo menos uma mudança pode ser mencionada: parece que estou começando a vencer a impulsividade feroz que há em mim. Uma conseqüência disso é que a necessidade de exposição de minha vida particular ( que é quase uma exigência de um blog) diminuiu. Não sinto que ter ou não platéia faz da minha vida mais ou menos patética, ou mais ou menos interessante. Uma parte de mim ainda urge que eu faça dos últimos acontecimentos um teatro irônico e divertido, mas essa parte não parece estar forte o suficiente para vencer a outra parte que traz uma versão mais humilde: nas três últimas semanas estive envolvido na organização de um bem sucedido congresso de psicanálise. O tema foi Violência, culpa e ato. Tudo saiu bem, mas fiquei sem tempo para fazer umas das coisas que me dá muito prazer - escrever.

É, parece que não pude evitar um grande risco. Acho que com este post contido e singelo, alguns dos meus leitores poderão pensar algo parecido com o que os fãs de Cher pensariam se vissem sua musa sem maquiagem: “* Has she lost the will to live?”

* será que ela perdeu a razão de viver?

sábado, 15 de setembro de 2007

Lulanês

O Lula ataca outra vez:

"Eu me despeço do premier com a sensação de que construí novas oportunidades para o Brasil. A sensação de que arrumei um novo amigo, por que não dizer um companheiro? Porque acredito que a política é feita na base da relação humana", afirmou o presidente". Folha de São Paulo, 15 de setembro.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Até semana que vem estarei ausante . Enquanto o congresso Violência, Culpa e Ato não terminar de me matar. morri.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

A Saga


Dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem.Concordo. Agora ninguém diz quem é o maior inimigo do homem. Mas agora, acabou a procura- Eu, Rafael, ei de revelar quem é o maior inimigo do homem:

Um computador.

Esses monstros quixotescos que invadem nossas casas; capturam nossos corações,fazem brotar em nós uma dependência emocional que nenhum psicólogo jamais estudou. Sim, feras dantescas, sem coração, malignos e perversos. Eles entram em nossos lares com promessas de uma grande revolução; tecnologia, rapidez de informação e acesso ao mundo inteiro: mentira. Eles tem vida própria! Sabem de nossas fraquezas e neuroses e atacam justamente quando estamos mais enfraquecidos. O meu finado computador por exemplo ( que Deus o tenha) passou desta para uma melhor, mas antes ele fez o que ele sabe fazem melhor: me deixou em frangalhos emocionais. Travou, reiniciou sem motivos, não ligou, mandou mensagens alienígenas- fez de tudo.
Agora , eis-me aqui escrevendo de um novo desktop.Um novo romance se inicia. Tudo está a mil maravilhas, a não ser o som . Ele resolvendo ficar mudo, sem causa aparente. Penso que pode ser ainda o período de adaptação a sua nova casa e novo dono.
Sim..é como num relacionamento. Preciso entendê-l, amá-lo, aceitá-lo tal qual ele é.
Sim, meu querido pc ( como gosto de chamá-lo) eu o amo, e te desejo, sempre , o melhor
do seu novo dono.

rafa.

domingo, 26 de agosto de 2007

silêncio

..e seu eu calar a minha voz? E guardar pra sempre dentro de mim tudo que existe?
..e se eu guardar para sempre a minha voz e nunca mais contar cada sentimento que se passa em mim?
...e seu decidir que ninguem nunca mais entrará no meu mundo?
....e se eu fizer um luto do convívio? vai ajudar a esquecer das pessoas ?

não quero deixá-las a par de nada.

silêncio e mistério.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Lentamente...muito lentamente.

...Lentamente tudo ao seu redor se partia. Ele precisava de estabilidade. Sob sua mesa os papéis, jogados a esmo, tinham sua própria forma de se organizar- ao léu , ao vento. Em seus pensamentos sentia braços ao seu redor- sua fantasia mais sensual: ser carregado por braços fortes e invisíveis. Sua fraqueza seria então sugada para outros mundos; braços de âncora que lhe dariam o maldito amparo. Há alguns dias que ele caia vertiginosamente; era sua escolha: deixar-se cair para não ter que andar. Cair lhe poupava as forças. Claro! Ele tinha que regrar sua energia. Metade dela era para respirar, a outra metade para manter as pessoas afastadas o suficiente para que não lhe roubassem mais energia.
...Lentamente tudo ao seu redor derretia. Ele precisava de visibilidade. Sentia que ninguém o via. Não como ele queria. Ele desejava...Desejava olhos que soubessem ver que ele nem sempre estava triste. Ás vezes, quando um raio de sol meio torto iluminava sua testa, gotas felizes escorriam pelo rosto...era feliz, mas ninguém olhava. Sem pessimismo, ele estava terrivelmente triste. Sua fraqueza estava sendo agora sua fortaleza em dias de desamparo.Já faz algum tempo que ele corria forçosamente rumo ao rumo que lhe deram. Correr lhe dava forças. Claro! Ele tinha que gastar sua energia. Metade dela iria para respirar, a outra metade para manter as pessoas perto o suficiente para roubar-lhes um pouco de força.

....Lentamente tudo ao seu redor escurecia..........

sábado, 18 de agosto de 2007

Só vendo

Em um só dia consegui reunir em minha cabecinha os filmes Mudança de Hábito, Evita e, daqui a pouquinho Bonequinha de Luxo.Só Deus sabe o que será de mim depois deste dia. A tristeza continua companheira e pelo visto não me abandonará tão cedo.
Bom dia tristeza....

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Novo Amor


Minha mais recente descoberta musical:

Jorge Drexler. Recomendo muitíssimo- Doce, alegre, triste e romântico na medida certa ( I know, almost impossible). Mais uma melancólica memória de BsAs.
Proclamo meu novo amor e paixão:

Drexler.

jorge Drexler - Todo Se Transforma
Jorge Drexler

Tu beso se hizo calor,
luego el calor, movimiento,
luego gota de sudor
que se hizo vapor, luego viento
que en un rincón de La Rioja
movió el aspa de un molino
mientras se pisaba el vino
que bebió tu boca roja.

Tu boca roja en la mía,
la copa que gira en mi mano,
y mientras el vino caía
supe que de algún lejano
rincón de otra galaxia,
el amor que me darías,
transformado, volvería
un día a darte las gracias.

Cada uno da lo que recibe
y luego recibe lo que da,
nada es más simple,
no hay otra norma:
nada se pierde,
todo se transforma.

El vino que pagué yo,
con aquel euro italiano
que había estado en un vagón
antes de estar en mi mano,
y antes de eso en Torino,
y antes de Torino, en Prato,
donde hicieron mi zapato
sobre el que caería el vino.

Zapato que en unas horas
buscaré bajo tu cama
con las luces de la aurora,
junto a tus sandalias planas
que compraste aquella vez
en Salvador de Bahía,
donde a otro diste el amor
que hoy yo te devolvería......

Cada uno da lo que recibe
y luego recibe lo que da,
nada es más simple,
no hay otra norma:
nada se pierde,
todo se transforma.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007


Nunca pensei que uma cidade pudesse entranhar tanto na alma quanto Buenos Aires. Sim, entrou em minhas veias; cada recôndito, cada rua penetrou profundamente e se misturou com desejos antigos....Minha alma se lavou e se sujou nas ruas de BsAs...meu coração despertou para anseios que dormiam e para outros que estavam sob hipnose. Uma hipnose dura e burlesca da qual eu já era enojado...mas não despertava. A cidade de Borges me veio como um soco no estômago..soco perfeito que até agora dói frio e denso. As imagens da cidade vão desvanecendo...Fica sobre mim um peso melancólico dos ares portenhos. Atrevo-me a roubar as palavras de Borges para tentar explicar meu espírito saudoso:
“ ya no quedan imágenes del recuerdo: sólo quedan palabras”.

domingo, 29 de julho de 2007

POr Chico

Deixa em paz meu coração.....

sim, é um pote até aqui de mágoas.

e qualquer desatenção....pode ...e será a gota d'água.

estou tomando a gota d'água mais longa da minha vida...quase não desce.

deixa em paz meu coração ...

obrigado Chico.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Agora Samba Julian.

Vou escrever sobre o que? Sempre temos sobre o que falar, só não sai na hora certa e nem do jeito certo. Mas imagino que se eu tentar as coisas podem aparecer. Mas nesse momento eu não quero tentar. Aliás, eu quero anunciar a todos que eu desisti de tentar:
1 . desisti de tentar ser agradável
2. desisti de tentar ser tolerante
3. terminantemente desisti de tolerar a bondade humana disfarçada de sensatez
4. afinal desisti da sensatez. Pelo menos daquele que se camufla só para gerar fofocas. Como diz meu amigo M.C, prefiro as babaleias às fofocas.

Tenho dito. Creio que deixei claro porque eu sou o criador da mais brilhante comunidade do orkut: Gotas Amargas. Sim ,estou amargo; não porque a vida perdeu o sabor, mas falta é tempero mesmo.
Tertmino com um grande aforismo: " samba Juliana...samba!"

terça-feira, 17 de julho de 2007

palavras

Eu não saberia dizer...Não vi quando começou. Tudo que sei é que meu centro se inclinou. Está em um lado que eu não consigo ver; é um ponto cego de minha alma.
É impossível descrever, mas é como se eu não tivesse nada a dizer e, ao mesmo tempo tenho tanto a dizer-as palavras é que se atropelam de mãos dadas.

sábado, 14 de julho de 2007

Só Eu vejo


Quando eu sentir que tenho algo pra falar eu falo. Estou na lua minguante..dizem que depois vem um novo ciclo.

Realmente não tenho nada a dizer neste momento da vida. Simplesmente consigo sentir que os astros se movem, e como eles eu me movo de uma forma desesperada e silenciosa; fazendo um ruído cego que só eu vejo.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

quinta-feira, 5 de julho de 2007

não passa disso

Chega uma hora em que as vozes se calam ; só se pode ouvir um coração surdo bater que diz: continua a vida que elã não passa disso.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Dançando e ofendendo.


(cinco, seis, sete, oito)
Plié, demi-plié, arabesque, do-si-do, cara de cu!, gran jeté, comedor de bosta!, glissade de sous, flic-flac, pas de deux, cheira-rola!, degagé, stomp, stomp, cambré, pas marché, prega-frouxa!, filho de um pablito-boqueteiro!, demi-brás, developpé, elancé, pivot, senta no meu Aloísio e samba!, failli, demi-plié, plié.

Garipeira da beleza.


" ..o vento e a vela me levam distantes..."

ha..cansei. Definitivamente cansei... Como a vida é fácil. Difícil sou eu. Tudo é fácil. Eu devia ouvir Rilke e me aferrar ao difícil, porque o fácil já me é uma nódoa branca...Me enoja. O fácil não tem me trazido absolutamente nada: principalmente não tem me trazido para mim mesmo...mesmo assim, ainda reclamo de não me gozar como todos gozam. Não sei gozar a vida na facilidade....porque sou difícil. Mas a vida é fácil. Difícil sou eu. Repito e repito.
Difícil sou eu.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Saudades de mim


Preciso de mim mesmo. Que saudades de mim mesmo. Saudades de quando em mim havia um alguem que se fazia uma companhia gostosa e densa. Que saudade é essa que sinto se não é de mim mesmo?
É sim..saudade de mim e o cinema....Eu e um livro...eu e um amigo. Eu e minha companhia sempre aprasível. Nada como confiar em si mesmo e só de si esperar abrigo.

ABrigar-me em mim mesmo na certeza de um terno e contínuo abraço. Basta os tambores...é chegada a hora de escutar meu coração.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Amar se aprende amando.


"O mundo é grande e
cabe/ nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe/ na cama e no
colchão de amar. O amor é grande e cabe/
No breve espaço de beijar.

O ser busca o outro ser,
e ao conhecê-lo/
acha a razão de ser , já
dividido./ São dois em um :
amor, sublime selo/
que à vida imprime cor,
graça e sentido.

Amor-eu disse- e floriu uma rosa/
embalsamando a tarde
melodiosa/ no canto mais oculto do jardim,/
mas seu perfume não chegou a mim."

Drummond em " o mundo é grande" e " amor" de Amar se aprende amando.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Tão minha...só minha.


Chega uma hora que cansa. Solenemente decido que não preciso mais deixar ninguém à par das minhas dores. Minha existência é tão minha, e à parte de tudo, é inútil compartilhar. Além de tudo isso, mesmo sendo duro admitir, ninguém tem obrigações com minhas dores; nem entendem. Quando dizem que entendem, não passa de pérfido fingimento. Como as pessoas fingem mal. São péssimos personagens. Já eu, finjo muito bem, e , a partir desta data, mais ainda fingirei. É só fingindo que se pode passar pela vida. Fingindo ser feliz, fingindo ser melhor do que se é....fingir para não ter que explicar. Para não ter que explicar aquilo que é impossível de ser explicável. É que no mundo de hoje, é preciso explicar solidão, porque ninguém mais estende a mão. no mundo de hoje, é preciso explicar que se quer amor, porque há poucas pessoas disponíveis para amar.

Não há o que falar, nem o que dizer. Tudo que é dito carrega consigo o perigo de não ser compreendido, ou de ser. O que seria pior?

sábado, 9 de junho de 2007

MInha dor meus apelos


Que caiam as fronteiras e que se atei fogo às cercas brancas da existência. Que se anule o nome existência. Então, minha existência fica sem nome e sem esteio. Apoio-me em nada, e em coisa alguma procuro suporte.
“...vem , mas vem sem fantasia, que da noite pro dia você não vai crescer....”

quarta-feira, 6 de junho de 2007

SOu eu mesmo.

Onde eu estava com a cabeça que deixei meu centro ir para as beiras? Onde eu estava com a cabeça quando desconfiei de mim mesmo? não há certeza melhor e maior do que si mesmo.
Onde estava meu centro quando eu fugi de mim mesmo e me deixei cair em braços de ignomínia? Quando acreditei na falácia dos semi-deuses? Onde estava meu cérebro quando me conformei com este mundo? “ não vou conformeis com este século”. São Paulo era muito sábio...burro sou eu. Um burro inteligente que pensa que, em algum momento, pode ser burro. Não se pode. Eu não posso. Sou eu mesmo!
Quando esqueço que sou eu mesmo; que não posso ser nada além de mim mesmo. quando esqueço que eu mesmo posso ser desejado por mim mesmo e por um outro mim mesmo.....difícil de entender? É isso mesmo. Volta sensata ao dadaísmo, de onde nunca deveria ter saído. Haaa.....! ser o que se é . mais difícil que mudar. Mas só quero mudar se for para ser o que eu sou . “ Eu mesmo, a charada sincopada que ninguém da roda decifra!!”.

Álvaro de Campos

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Não sou nada.


Às vésperas do meu aniversário estou regado à Caetano e Nietzche; não sei qual dos dois está mais presente neste exato momento. Acho que Nietzche me lembra hoje que é "preciso aprender a arte de esquecer: quando se completa vinte e oito anos é necessário esquecer do que para trás fica. É necessário não se arrepender de nada. Aprendi que a vida sempre tem razão-todas as vezes. No meu caso, percebo que tudo em mim sempre teve razão; dores e paixões; mortes e vidas; afastamentos e aproximações; quente e frio. Tudo serviu para retirar os limites da minha existência. Eu não escolheria nada diferente, pois eu não sei como seria se algo fosse diferente. Prefiro o que foi ao perigo de continuar fazendo parte do rebanho que é a humanidade.
Sinto-me novamente vivo como uma pele que surge das profundezas de um mar de incertezas. As certezas que construí ao longo dos anos, a cada ano que passa, se desfazem em meio às minhas verdades inventadas.


"Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".

( Fernando Pessoa)

terça-feira, 22 de maio de 2007

é isso aí...


Eu faço minhas coisas,
você faz as suas. Não estou neste mundo para viver


de acordo com as suas expectativas.


E você não está neste mundo para viver de acordo


com as minhas.


Você é você, e eu sou eu.


E se por acaso nos encontrarmos, é lindo.


Se não, não há nada a fazer".


( F. Perls)

sábado, 19 de maio de 2007

Ainda Chico....


Ainda estou escutando Chico. Eu deveria estar estudando, mas não pude. A cada dia que passa mais eu sinto que devo fazer o que eu posso, e no momento não posso estudar. Chico me arrebata e inflama meu coração. Isso é bom- saber que meu coração está inflamado. Está vermelho por coisas que eu não posso ainda ver- é uma vermelhidão que arde aumentando toda a percepção das coisas ao meu redor....

“ ..talvez a espera da garota que naquele tempo andava longe...muito longe de existir”.
( Chico)

Sim, como um tecido inflamado ao vento faço poesia roubada de contos contados por ventos fugidos. Os pensamentos se desvanecem, e muitos deles não são meus. Devo a Chico a sensação de inflamação. Algo inflamado é algo que cresce, e crescendo pode até matar. Mas eu não temo morte morrida; nem morte morrida de desespero. É bom saber-se desesperado; é melhor que não saber. É melhor que pensar que se é alegre quando a alegria é um disfarce de uma tolice essencial. Eu já disse que gosto de ser sonso: o sonso essencial. Mas entre ser sonso e disfarçar minha tolice com alegria, prefiro ser sonso. Ser banal.

Obviamente, sei que não sou banal, mas as tentativas de sê-lo são diárias. Algo me diz que se eu fosse banal eu seria mais feliz...

“ no teu riso teu silêncio...serão meus ainda e sempre...dura a vida alguns instantes...”
( Chico)

Chico diria que “ cada instante é sempre”....No instante que vivo agora preciso viver a inflamação; não só do coração, mas da alma inteira. Viver a inflamação é uma coragem que só os tolos- os tolos tristes, possuem. Tenho coragem...

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Chico


Hoje a noite é do Chico. Ele me ajuda a esgotar os significados. É só ouvir Chico que eu começo a dizer coisas que antes queria dizer, mas não sabia. Decidi que hoje vou ouvir o Chico como nunca ouvi--quero prestar atenção no seu tom de voz, na música e, principalmente, nas letras das músicas. São elas que me enriquecem para continuar me alegrando.

O Chico é mais ou menos como um bom vinho, só que quem tem que amadurecer sou eu para ouví-lo. A cada momento ele se torna mais vivo. É isso mesmo, sou fã de carterinha.

uma letra só pra explicar porque gosto tanto do homem:


Onde andará Nicanor?
Tinha mãos de jardineiro
Quando tratava de amor
Há tanta moça na espera
Suas gentis primaveras
Um desperdício de flor
Onde andará Nicanor?
Tinha amor pro porto inteiro
Um peito de remador
Ah, quem me dera as morenas
Pra consolar suas penas
Para abrandar seu calor

Olha elas sempre aflitas
Bata o vento ou caia chuva
Cada uma mais bonita
E mais viúva
Todas elas fazem ninho
Da saudade e da virtude
Mas carinho
Queira Deus que Deus ajude


Onde andará Nicanor?
Tinha nó de marinheiro
Quando amarrava um amor
Mas há recantos guardados
Nos sete mares rasgados
Sete pecados tão bons
Onde andará Nicanor?

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Arthur

Este é meu cearense preferido, o Arthur.

Hoje é seu aniversário por isso , resolvi escrever algumas palavras de reconhecimento.
Quando eu decidi vir morar em Fortaleza eu sabia que seria difícil, e que a solidão seria meu pior inimigo. Então, entrei no orkut e anunciei minha chegada na comunidade da Unifor. Foi a primeira vez que tive contato com o coração generoso e disposto a acolher do meu querido Arthur. Ele foi o único que respondeu meu post, me passou seu msn e todos os contatos. Começamos nossa amizade alguns meses antes da minha mudança definitiva para Fortal. Jamais esquecerei o dia que fui assistir à primeira aula na Unifor- psicologia social—e lá estava ele! De braços abertos me recebeu como se me conhecesse há anos! Rapidamente me senti em casa. Ele me introduziu em seu círculo de amigos e, em pouco tempo ,a solidão foi se dissolvendo em meio ao seu acolhimento. E foi assim todo o tempo em que ele esteve no Brasil. O Arthur é a única pessoa que agüenta ouvir minhas reclamações ( que são muitas ) o dia inteiro. Ele ouve, e ouve, e ouve...Sempre com consideração e respeito.

Quando penso nele lembro-me de um texto da Bíblia que diz que devemos levar as cargas uns dos outros, e assim estaremos cumprindo a lei de Cristo. Sendo assim, o Arthur sempre cumpriu em minha vida a lei de Cristo; e ele sabe disso muito bem.

Hoje ele está na Espanha, mas em breve estará de volta à terra da luz. Quando ele se foi ele achava que logo eu me esqueceria dele e que a saudade diminuiria, ledo engano: a saudade sempre esteve firme, porque não há nenhum outro amigo aqui que tome o lugar que ele abriu no meu coração.

Volte logo querido amigo. Parabéns e muita vida pra você.

Amo muito você,

Rafa.

sábado, 12 de maio de 2007

Mãe


Querida mãe,

Enquanto penso no que dizer para minha mãe neste dia dedicado a ela, a única coisa que me vem a cabeça é que ,como filhos, devemos passar mais tempo com nossas mães. A única coisa que consigo pensar é em como a minha mãe me faz falta e como faz falta também o tempo que deixei passar sem estar com ela o quanto ela gostaria que eu estivesse. Penso também na fidelidade do amor materno-que aprende desde cedo a se doar. É uma doação que eu ainda não aprendi. Se eu verdadeiramente quero aprender a amar, preciso olhar para minha mãe. Preciso me lembrar de todas as noites nas quais me arrumei para sair e não foi com ela, e ainda assim, ela permitiu que eu partisse; e mesmo que no fundo houvesse ciúmes ou saudades, mesmo assim ela me deixou ir. Amou-me e me deixou ir. Não há maior amor.

Lembro de Maria, mãe de Jesus. Teve em seu ventre o Rei dos reis; o amou até o fim, mais do que todos nós, e mesmo assim deixou seu filho ir... E ele foi até a morte. Mas ela nunca o deixou. Foi com ele até à cruz. É a maior de mãe de todas.

Neste dia das mães não posso deixar de pensar que a minha mãe também, que sempre me amou, nunca me impediu de ir. Sempre amou e insistiu em amar. Amou tanto alguém que hoje, talvez não seja mais o menino que ela carregou nos braços e que, quem sabe, ela nem mais reconheça. Mas ela ama. Ser mãe é algo completamente incompreensível, mas ao mesmo tempo é possível experimentar o amor materno. Meu presente hoje é perceber que preciso de mais tempo com a minha mãe. Hoje alguém me disse que eu preciso abrir os olhos para as coisas que estão ao meu redor. Então, estou abrindo, e uma das coisas mais belas que estão ao meu redor é a minha mãe e o amor que ela depositou em mim; eu não posso ser displicente com este amor. Nenhum filho pode. É uma leviandade das mais cruéis. Há tanto a aprender com nossas mães. Eu especialmente, tenho muito ainda a aprender com a minha mãe. Ser filho também é difícil. Passamos meses dentro delas; depois nascemos e passamos mais alguns anos debaixo de suas saias. Depois, resolvemos que precisamos sair de perto delas e termos nosso espaço. Mas chega um tempo em que sentimos que precisamos voltar pra bem perto delas e reviver tudo de novo. Só que agora já não temos medo de nos perdemos dentro delas. Regressamos ao seio materno e sentimos falta do tempo que perdemos tentando nos separar delas. Foi necessário; foi natural – mas foi um tempo que se perdeu, e não há nada mais doloroso.

Mas, o belo de tudo isso é que o caminho de volta está sempre aberto. Sabe por quê? Porque é semelhante ao amor de Cristo; é quase ágape: nós amamos nossas mães porque elas nos amaram primeiro. O caminho do amor nunca se fecha.

Meu presente neste dia das mães é:

Estou pronto para o caminho do regresso. Obrigado mãe por sempre me amar; confiar e me deixar ir.

Amo você, mãe, de todo coração. Obrigado por tudo.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Não sou um escritor


Já não tenho mais dúvidas de que sou um péssimo escritor- só escrevo quando sinto inspiração e isso para mim é um tormento. Ontem na Tv um homem –que não sei se é cineasta ou escritor, ou algum outro artista menor—disse que a inspiração não tem nada a ver; que os artistas românticos pintavam ou esculpiam por encomenda e que o prazo e a demanda em nada atrapalhavam sua criatividade e genialidade. É fato. Reconheço que ele está correto. No entanto, eu só escrevo quando a inspiração me toma e me obriga a dizer algo; só consigo escrever quando algo me compele de tal forma que, se eu não o fizer, todo meu ser se remexe e me comprime. Só escrevo se a angustia me acua; ela é um carrasco, mas também é minha professora. Daquelas bem malvadas que ainda usa de castigos corporais: todo meu ser resvala ao seu chamado.

Escorrego de um salto alto de certezas e caio num forçoso bater de asas que costuma dar numa escrita qualquer. Fazendo assim, penso que não sou escritor mesmo. Escrevo porque é um sintoma. E não é um sintoma que se apresenta a todo momento- vem quando quer. Não sou dono nem mesmo disso. Sinto que me ressinto de não ser dono de minha inspiração. Vejo que me magôo comigo mesmo quando me vejo sem nada a dizer sobre alguma coisa específica. Fico confuso; sinto-me angustiado e perdido quando não encontro em mim motivo para escrever...

.... Muita angustia por não ter inspiração acaba produzindo inspiração para escrever tudo de novo.... Fico mais angustiado porque o dilema só tem resposta quando sento para escrever. É como um vício. Não se sabe como começou; é difícil precisar; mas sabe-se que a compulsão é firme e se sustenta em tantas vontades e desejos que seria impossível enumerar uma delas sem falar de todas.

....escrevo... , Mas não sou um escritor.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Family



Desde sexta-feira estive ausente do mundo cibernético devido a uma gripe quase fulminante. De acordo com o segundo médico que me atendeu é uma gripe no sentido científico do termo; creio eu que isso deve ser o codinome para Peste bubônica, porque eu quase morro. Mas o doutor quis me poupar e simplesmente disse que era uma gripe bem tipificada. Eu prefiro pensar que eu tive a Peste e sobrevivi. Devo dizer todavia, que só sobrevivi por causa da minha família cearense.

Engraçado que lembrei de uma passagem no Evangelho quando Jesus estava com seus discípulos atendendo as multidões, quando sua mãe o chama. Jesus, não podendo atender ao chamado de sua família de sangue, faz uma pergunta: “quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? Aqueles que me ouvem e andam comigo, esses são minha mãe e meus irmãos”. Acho Jesus fantástico porque definia sua vida em seus relacionamentos; ele nunca desprezou sua mãe, até porque todos sabemos que ela foi a única que esteve com ele até o fim; mas ele sabia que aqueles com os quais nos relacionamos e que estão conosco em todo tempo, esses são também nossa família.

É desta forma que agradeço aos meus caros amigos que cuidaram de mim nestes dia de convalescença.

De forma especial, não posso deixar de agradecer ao meu caríssimo Rafa Branco por te me acolhido em casa quando a Peste tava quase me levando. Brigado Rafa!

Beijos e abraços a quem couber.

Nas fotos de cima pra baixo, da esquerda pra direita: eu, Rebeca ( minhoca), Marta.

Na segundo foto: Marta, Eu e Rafa Branco.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Saudade

( Ao som de Ennio Morricone- The Mission)

Alguns devem imaginar que ter um blog é coisa de adolescentes. Eu também pensava isso quando não tinha um. Mas pra mim ele se tornou uma necessidade. Primeiro que é um local onde você escreve e é lido, ainda que por poucas pessoas. Segundo, todos gostam de falar e desabafar e sempre ter uma audiência passiva. Eis o blog---ainda que não seja tão passiva assim porque tem os comentários, mas posso sempre apaga-los, como eu gosto de dizer, placidamente.

Vamos aos desabafos.


Hoje preciso lidar com a saudade. Morar longe de casa e dos seus não é tarefa fácil, mas acredito que escrevendo posso chegar a algum significante que dê sentido ao vazio.

Vazio. Foi exatamente isso que senti ao ler um email do meu pai hoje. Não pelo email em si, mas por ver que a vida continua em São Luís; e ela continua sem mim. Talvez seja o que há de mais cortante na vida seja isso: ela continua não importa o que. No email ele me contava de suas felicidades e de projetos, dos quais, pela distância, não posso participar diretamente. Ontem à noite conversei um pouco com minha irmã ao telefone e tive a mesma sensação: a vida prossegue. Júlia ( nossa poodle) está prenha. Jack ( outro poodle) vai ter que ir embora lá de casa porque está neurótico; mamãe não agüenta mais. Espero que achem uma boa casa pra ele. Mas isso não deve interessar meus leitores.

Ainda na busca de encontrar significantes para minha saudade, fui ao dicionário procurar ajuda. Se não estou enganado Cecília Meireles disse que se tivesse que levar consigo um só livro para uma ilha desabitada, levaria um dicionário. Na época não concordei, mas hoje vejo que ela foi muito sábia. O dicionário é um poço de significantes. Então vejamos:

Saudade:


1 sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável.

Etimologia
lat. solìtas,átis 'unidade, solidão, desamparo, retiro'; der. do lat. sólus,a,um 'só, solitário', que se conservou nas línguas hispânicas, esp. soledad, port. Saudade.




Acho que vou me apegar à palavra “retiro” e ao ” afastamento de um lugar e ausência de certas experiência e determinados prazeres já vividos”. É isso que é saudade. Mas sinto que devo expandir. Saudade é ter que continuar vivendo; mesmo sabendo que as experiências dantes vividas não param de acontecer só porque não estamos mais presentes. A vida continua; as pessoas continuam saindo juntas e fazendo planos para o futuro. A cidade não pára; os amigos não deixam de se reunir; os cachorros engravidam; compram-se novos móveis; algumas pessoas se mudam. Outras de casam; outras começam a namorar; algumas terminam o namoro. Em suma: quando você volta, nada está como você deixou. Tudo muda e isso só aumenta a saudade, pois sabemos que o período que estivemos fora está perdido para sempre. Acho que é isso que intensifica a saudade. Mas há pelo menos uma consolação quando você sente falta de pessoas amadas. É que se elas realmente te amam – como é o caso—elas sempre reservam algumas experiências que, mesmo que prazerosas, só fazem sentido se forem vividas com você. É isso que consola a gente na saudade: ter a certeza de que sempre deixam um lugarzinho para nós.

"Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade,
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido..."

Pablo Neruda