quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Resenha




Recentemente chegou às minhas mãos um exemplar do novo livro do Yalom, “ Vou chamar a polícia e outra história de terapia e literatura”. Há anos passados eu li “ Quando Nietszche chorou”. Gostei, mas na época eu ainda era um neófito estudante de psicologia, impressionável, apesar de presunçoso. Irvin Yalon tornou-se famoso e ganhou leitores pelo Brasil. Como psiquiatra e professor universitário nos E.U.A ele tem publicações científicas relevantes, principalmente na psiquiatria existencial e na psicoterapia de grupo. No entanto, sua empreitada na literatura não me agradou muito. Assim, deixei de lê-lo por alguns anos.

Preciso admitir, entretanto, que este seu novo lançamento acabou se tornando um Page-turner para mim. Li rapidamente e com muita curiosidade. Yalon tenta neste livro transmitir um pouco do seu estilo como psicoterapeuta. Em muitos momentos, sendo mais sincero, na maior parte do livro, discordei completamente de sua prática como psicoterapeuta. Principalmente suas imprecisões quanto a teoria psicanalítica, o que não é nada raro vindo de um psicoterapeuta americano para quem a única psicanálise existente é a utilitarista psicanálise do Ego. Mesmo assim o livro continuou a me dar tesão. Primeiro pela maneira clara e precisa como ele escreve. A ausência de jargões não denota simplismo, pelo contrário, é um talento somente daqueles cuja teoria e leituras estão devidamente decantadas e sedimentadas em sua prática profissional.
Outro ponto a destacar é a quantidade de casos clínicos que ele utiliza contribuindo, de uma forma ou de outra, para melhor compreendermos sua abordagem psicoterapêutica.

Apesar de nossas discordâncias no que diz respeito a uma teoria explicativa da personalidade humana, Yalon demonstra uma sensatez tremenda. Um bom senso no trato com seus pacientes que me deixou bastante satisfeito. Além disso, sua larga experiência clínica lhe dá liberdade para repensar a psicoterapia a cada novo paciente que lhe chega. Freud há muitos já nos advertia que a cada novo paciente a psicanálise precisa ser reinventada respeitando o lugar hegemônico da singularidade de cada sujeito. Lacan gostava de dizer que no fim das coisas uma qualidade não pode faltar a um analista: o bom senso. E bom senso não é algo que se traga do berço; adquire-se bom senso, forma-se o bom senso. A forma como Yalon conta seus casos clínicos é uma verdadeira aula de como se constrói e se apresenta um caso clínico—simples, humano e cativante. Só isso já faz do livro um “virador de páginas” para qualquer psicoterapeuta curioso. E isso eu sou. Sempre gostei de ler estórias, escutá-las e principalmente participar delas. Tornar-me um personagem, ainda que o analista, da vida de alguém. É isso que Lacan vai chamar de “ Desejo de analista”. É este desejo não só de suscitar o desejo de alguém falar, mas é desejar que advenha o desejo. Ocupar esta posição não é nada fácil e este é também um dos temas do livro de Yalon. As vicissitudes da profissão de psicoterapeuta. A transferência e contratransferência são temas recorrentes por todo o livro e são abordados das formas mais criativas possíveis. Yalom acaba sendo muito feliz em sua tentativa de transmitir ao leitor leigo bem como ao especialista os dilemas e paradoxos que perpassam a profissão do psicoterapeuta. Contudo, creio que mentes mais maduras e experimentadas farão melhor uso deste livro do que jovens estudantes de psicologias ou amantes da área, já que estes serão mais facilmente seduzidos pelas glórias de ser psicoterapeuta do que pelo alto preço a ser pago por aqueles que almejam ocupar este lugar.

Para ler um capítulo do livro acesse: http://www.vouchamarapolicia.com.br/

2 comentários:

  1. Rafael,

    Plantou uma semente de curiosidade para ler o livro. Espero lê-lo em breve.

    Abraços

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