quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ao analista.

Depois de ler " àgua viva" de Clarice Lispector escrevi ao analista:


Ah. Ele há. Estou escrevendo isto para você. Nunca escrevi nada para um analista, mas resolvi ousar. Queria te mostrar que eu sou mais que o divã, que o que tu ouves. Que eu sou mais. E que há uma parte minha que você nunca consegue ver, porque eu não falo tudo e não consigo ser tudo aqui. Talvez uma vontade de ser tudo para alguém. Mas sabes, essa vontade já arrefece. Queria ao menos ser um pouco de mim para alguém. É por isso que hoje queria que você me visse, porque aqui nestas palavras estou me mostrando, consegues ver? É que quando falo misturo tudo de outra forma, aqui misturo tudo numa coesão gostosa, dos meus dedos. No divã falo com a língua e não com os dedos.


Falar com os dedos é melhor, porque na dor dos dedos sinto a vontade de sentir meu corpo vibrar. É porque só sei viver quando meu corpo vibra. Quando fiquei assim? Tão fremente pelo corpo? Tão necessitado que ele pulsasse enquanto vivo esta pena dura? Quando foi que apanhei e gostei?

Não é que eu tenha vergonha de falar, mas é que meus múltiplos se expandem ainda mais aqui quando escrevo, porque vou pensando e colocando os dedos para doer. É que não consigo viver sem uma dor não é isso?

Não, não é isso.

Quero te escrever porque queria que você me conhecesse, além dos seus ouvidos. Mesmo que seja para te cansar ou te fazer deitar num rio enfadonho assumo a culpa por tentar te seduzir. Não, nunca senti vontade de dormir com vc, ou te beijar, ou fazer sexo com você. Isso seria profanador, e eu não sou profano. Sou misturado, profano não. Sabe por que te digo isso? Porque eu quero saber o que há, no sentimento que tenho por você que fala de mim. O que há na sua sombra que revela todo meu corpo suado !

Te escrevo porque quero ouvir tua escuta, teu silêncio tórrido de esperanças. Na verdade, não escrevo para ti , escrevo para ...Não sei. Viu como emperra quando esqueço que estou escrevendo e me sinto em análise?

É melhor continuar a escrever para você mesmo. Esconde minhas faces. Me esconde dentro de você! Porque quando você fala todas as minhas palavras voltam-se contra mim e o véu que antes recobria meu corpo rasga-se. Você me olha por inteiro.

Te ofereço este escrito como a prova mais sublime de que eu preciso me expressar e você deve me amar.

Desculpe,mas há sensatez no descontrole.

2 comentários:

  1. Clarice tem o incrível poder de nos proporcionar conforto e conflito.

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  2. Querido, sua ânsia de se dar e se perceber todo é mesmo o que faz de ti esse ser intenso que és. A maioria dos indíviduos são rasos e tu és "so in the deep end of the ocean" que me custa crer q exista esse ser humano capaz de te "enxergar" por inteiro e isso ñ é apenas bom isso é fantástico! tal cm a esfinge não devorou CL, tb não te devoraria nem ela,nem ninguém (mesmo pq ser devorado é bem melhor... we know...) ,
    bjs,
    Patrícia Fonseca

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