Sim, eu assisto BBB. Quem não assiste lance a primeira pedra.
O que o BBB prova é que os humanos são humanos; cheios de contradições e vilezas. Héteros e homos; mauricinhos e alternativos, cabeças e sarados—todos revelam suas contradições sob algum tipo de pressão. E a pressão no BBB é calculada. É super calculado para tirar o que há de pior no ser humano, e somos todos piores no que nos faz realmente humanos. O que me irrita é quando escuto o público criticar alguns participantes porque simplesmente estão sendo humanos: iguais a todos nós. A produção da globo dividiu os brothers em duas casas, uma chique e uma pobre e depois esperou pra ver o circo pegar fogo. Qualquer um faria igual. Tal como na selva os mais fortes é que sobrevivem. Cada um de nós faria o mesmo: fofocas, leva-e-traz, exageros, mentiras e pitys. Tudo por um milhão de reais.
Mas, a verdade é que o público não vota em quem age mais eticamente dentro do jogo. Na verdade, ocorre muito mais um processo de identificação. A população tem simpatia ou antipatia por um jogador e isso não se explica racionalmente. A maioria das pessoas com quem tenho conversado não sabe por que não gosta da Angélica ( lésbica assumida) e nem porque gosta do Dourado ( homofóbico de carteirinha). Sentimentos de simpatia ou antipatia normalmente são inconscientes e dificilmente sabemos porque vamos com a cara de fulano ou sicrano; só sabemos que nosso “ santo” não bateu! Dourado já proferiu frases antologicamente homofóbicas : “ Homem não pega AIDS de mulher, só de homem”; “ Não gosto de ser chamado de bicha, assim como não gosto de ser chamado de nazista”. Além disso, o lutador pediu que não se falasse em sexo durante as refeições logo após a Angélica e o Serginho ( gay efeminado assumido) terem comentado algo sobre uma festa gay. Tudo isso pesa contra ele. No entanto, a Angélica Morango que, antes tinha uma boa popularidade desceu ao Hades porque começou a fazer o que chamam de “ leva-e-traz” e fofoquinhas na casa. Bem, ela fez o que todos fazem diariamente no BBB desde a primeira edição. Mesmo assim o peso das fofocas de uma lésbica pesam mais na justa balança de nossa moral do que a homofobia declarada do professor de judô heterossexual. Por que se dá isto?
É simples. A sociedade brasileira é fácil de entender. Somos machistas e ponto. O machista na verdade não tem repúdio aos homossexuais; seu repúdio verdadeiro é contra o feminino. Um nojo de tudo aquilo que questiona nossa aristocrática lógica fálica. Mulher no Brasil ainda é artigo de segunda categoria; gênero fraco e sempre burro no trânsito. Então, como esperar que um país que tem medo de mulher não tenha medo dos gays? Sim, porque é medo sim. Ódio, amor e medo andam juntinho. Aí fica difícil saber se alguém que é homofóbico na verdade sente atração ou medo. Acho que a fórmula poderia ser mais ou menos assim:
tenho medo do que não conheço porque ás vezes, quando confrontado com o desconhecido acabo reconhecendo um pouco de mim nele. Sinto raiva porque vejo que partes de mim borbulham quando vejo o Serginho dando pinta; me estremeço quando sei que o Dicesar faz o que eu só tenho coragem de fazer no carnaval e sinto-me terrivelmente atraído pela idéia duas mulheres juntas . Aí sinto ódio disso que me extravasa. Desses seres transgressores que botam a perder todo meu trabalho de anos recalcando minha sexualidade. Anos de poeira baixa se perdem quando me deparo com este ser que ousa questionar os limites de nossa moral.
Dourado ganhou a simpatia nacional porque catalisa sentimentos que correm por entre o subterrâneo do nosso povo: nosso precioso preconceito de uma sociedade escravocrata e colonial, sempre aterrorizada pelo estranho índio— O selvagem e primitivo intruso que anda nu e fuma maconha.

Perfeito!
ResponderExcluirmassa.
ResponderExcluirInteressante que esse mesmo machismo se aplica "perfeitamente" em qualquer relação, quando há a necessidade de deixar bem claro quem é ativo, quem é passivo e o quão inconcebível é ser os dois, um em cada momento. (ah, por favor, pensem no sentido lattus, tá?)
ResponderExcluirUm amigo uma vez me fez notar q na verdade são os marginalizados (as "pintosas") os principais responsáveis por qualquer conquista de respeito e direitos, como Milk ou as travestis e a distribuição de camisinhas gratuitamente por instâncias governamentais, por exemplo. Assim como foram as mais masculinizadas mulheres que queimaram seus sutiãs.
Estou louco pro Dourado ganhar, acho que surte muito mais efeito que Jean Wyllis, é da revolta que surgem movimentos relevantes.
Adorei o texto!
Realmente...a eliminação da Angêlica foi a prova de como o povo gosta é de barraco e é preconceituosa. Dourado é um troglodita!!
ResponderExcluiramei o texto!!!!!
Brilhante!
ResponderExcluirLi em voz alta aqui na People!