* Quadro de Lucien Freud
Acordei às 8 da manhã e não pude me levantar. Nada do que o dia reserva para mim todos os dias me apetecia. Abracei-me aos travesseiros e permaneci. Em meio aos barulhos matinais de latas, panelas e suspiros mergulhei em sonhos cortados. O calor da manhã a me causar suores, mas nada grave: é que dormi perfumado. Tenho esse hábito agora de me preparar para dormir: escovar bem os dentes, escovar os cabelos; colocar uma boa roupa e me perfumar todo. Deve ser algo aprendido das parábolas das dez virgens; quero estar pronto para o arrebatamento final:
Para o dia da grande glória quando terei a certeza de não morrer de tédio. Quando e se eu for arrebatado no meio da noite por um amor sem nome; por braços firmes e convictos. Estar pronto para quando minha força for cortada e a vida finalmente se tornar suportável sem que eu tenha que passar mais uma hora deitado olhando os ponteiros girarem. É que aprendi a ver a vida de uma maneira insólita –dela não tiro grandes expectativas ou então tiro as mais enormes possíveis; aí tudo acaba ficando muito mais enevoado, sem brilho e sem alegorias. Como se tudo que me oferecem já vem gasto e usado. Aos meus olhos nada reluz, não quando acordo com essa consciência límpida.
Você que é tão esperançoso saia de sua pele cotidiana; de suas amarras, suas propriedades, seu dinheiro, família, filhos, mulher e afazeres e tente ser feliz assim mesmo.
Alias, tente ser feliz assim mesmo. Aí me conte tudo. Conte-me como você não pôde se levantar da cama. Depois me diga como você suportou o dia inteiro sem um murmúrio, sem um suspiro, sem uma decadência. Portanto, Decaio todos os dias; só porque tenho que encontrar em mim a razão para levantar. Agora você que tem tantas razões, tantos dependentes, tantos outros além de si....Aí sim, você se levanta como um arauto da esperança.
A mim, como castigo eterno de ter nascido de cabelos em pé, resta-me ver a vida como um acaso cego e um desfilar de performances que só fazem sentido em meio aos performáticos. Eu gosto dos enredos; das história inacabadas e das vidas que não tem um fim, senão um desfecho.
Gosto de estar nesta letargia porque por ela me dou a maior das liberdades—não sonho acordado, só quando durmo.
E paz na terra aos homens de bem.

Adorei pq falou de mim a partir de vc, adorei por ver q não estou só !!
ResponderExcluirLindo Rafa!!!