segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Segunda-feira meu filho.

Escute aqui meu filho.


Escute meu filho que a vida é dura. Sua vó lhe disse que tudo passa. Não passa. Nada passa. Os sonhos não passam; a dor não passa, o vento não passa, não pára. Nada pára. Você não passa; as memórias não passam, elas se amontoam numa lembrança grossa e negra como uma convicção cega de que não valeu a pena ter sido menos exigente, menos caprichoso, muito complacente. Não seja filho, complacente com as pessoas. A complacência é uma forma de masoquismo e não devemos ser masoquistas. Quem gosta de sofrer não sofre o necessário para acumular, como dizem os Escritos, “brasas vivas sobre suas cabeças”. Aqueles que têm a gravidade da vida como línguas de fogo sobre a cabeça só aceitam sofrer a seiva dura e seca da vida. Sim filho querido, a vida é seca, molhados somos nós. Esse povo de carne e osso.

Filho chamo-te pelo nome para lembrar-te teu nascimento. A gente nasce nessa terra. Nada é não-feito. Todas as coisas são feitas e, portanto, tudo acaba.
 Querido, não nutra ilusões de infinitude. A comida acaba, a geladeira esvazia, o corpo acaba, o rio seca, tudo fica mais quente e mais frio, o amor acaba e, ainda assim, nada passa. Fica a nostalgia teimosa coçando o peito. Tenha saudade querido. Saudade alimenta a alma do poeta. Seja poeta. Pegue na caneta e, de vez em quando escreva assim:



Sobre a mesa há papéis, cera e tinta.

Minha alma é uma escritura, densa, cheia de odores, sentes?

Cheira-me por tudo que é mais sagrado!

Quero sentir-me cheirado, abraçado, mantido em segredo em tua memória.

quero ser teu odor mais sagrado, metido em teu pescoço como uma corrente a te enforcar.

Sufocar-te de lembranças para nunca esquecer-me do meu cheiro.



Filho querido, limpa tua alma nas segundas-feiras. Toda segunda é dia de beber água, muita água. Limpa o limo das veias e coração. Bebe água filho meu. Nos dias  deve-se recomeçar mesmo que trôpego. Faz assim. Acorda, vira de lado, sente o nada ao teu lado. Dói o pescoço? Mexe a nunca, abre as janelas, cortinas. Deita-te novamente de bruços, deixa o mofo da noite passar. Grita baixinho a raiva de mais um dia, recorda-te que é segunda-feira e que Ele dá mais uma chance de Ser. Seja terrivelmente intenso. Escova os dentes com pressa. Não creias na Yoga. Irrite-se com a paz de cada dia e encha-se de toda selvajaria que puderes. Agora te devora antes de qualquer coisa. Não saias do quarto enquanto não te fartares de todo esse sentimento agudo de insatisfação, porque é ela, durante o dia que te colocará as maiores armadilhas. A angustia do “ e –o-que-mais” é que tem matado os fracos. Experimente isto: quando sentir vontade de vontade, como aquela de comer o que não tem na geladeira, deita e espera. Dorme com fome como os indigentes. Seja um indigente das vontades. O desejo é coisa malandra—tenta a gente, seduz, vende o querer mais do que vale e depois diz secamente: tente outra vez.

E não tente filho. Tentar é triste. Quando sentires a menor intuição de que tua vontade te engana toma um porre. Ou durma. O melhor seria ler um livro, então leia se te apetecer. Contudo, se necessário for entorpeceres o raciocínio, tanto melhor. Resistir à tentação nunca foi a saída certa. Todos caem, todos sucumbem, essa é a história da tentação. Nasceu com já com uma derrota e quem será maior que os primeiros homens? Logo nós, essa raça de muitos anos corrompida; que cedemos sem mais delongas ao nosso corpo nu? Se cederes, todavia não tenhas medo ou raiva. Aceita-te acima de todos os outros. Todos os teus erros. Teus pormenores. O âmago da vida de um homem são seus minúsculos e imperceptíveis movimentos curtidos na dor. A convicção mais aguda que lhe dou é de que o pequeno não passa. O passado se esquece das miudezas e tu sabes filho, o rancor e a mágoa são feitos de miudeza. Queres que eu te diga para não seres rancoroso? Não posso fazer isso. A mágoa e o rancor são professores, o problema é depender deles pra sempre. Sente teus remorsos, agouros, mágoas profundas e deixa que a amargura tente fazer morada em ti. Aí, de repente, como séculos se passassem entre dois segundos, foge rapidamente! Esconde-te lá no mais secreto de tua memória; lá onde a infância ainda habita em felicidade. Então, tu vais tomar proveito do meu maior ensinamento: que as coisas não passam assim como todo mundo diz e que, glória nas alturas, essa é a nossa única salvação.

2 comentários:

  1. Rafael. Diferente: Dito e dizer. O que está dito? Não se diz e se diz. Apreciei este pedaço: 'o rancor e a mágoa são feitos de miudeza', verdade, o perigo está nos pequenos invasores.

    Paz,
    Priscila Cáliga

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  2. O que dizer? quando já parece ser dito? "esconde-te lá no mais secreto de tua memória; lá onde a infância ainda habita em felicidade."
    será que uma taça de vinho do porto basta para "re-elaborar" este texto? acho que fico apenas na escuta (leitura)...... e claro com o vinho.... infelizmente faltam-me palavras....

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