quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Digno.

Este ano sem resoluções; sem enganos, sem promessas. Só no puro fato e acontecimento.
Em tempo, menos culpas, menos razão, menos coração. Mais vida, mais vida, mais vida muito além. No além dos além- lá no alto do além de todo bem e mal.
Arrependimentos?
Definitivamente não. Entrego a vocês meu contraditório: outro dia afirmei que me arrependia de muitas coisas e ainda me orgulhava disso. Pois é. Mudei de idéia. Eu não me arrependo. Não imagino um cão ou um gato se arrependerem de alguma coisa;. vivem demais no presente para isso. Só vivem no presente, para ser mais preciso. É a temporalidade que acaba com a gente: passado e futuro. Escapar dela é destruir a matemática e a gramática. É sambar na corda do abismo sem temer a queda pois já estamos caindo mesmo...

A lucidez do nascer do dia me diz: menos dignidade Rafael.  E quando minha busca por ela terminar, finalmente deixarei de perdê-la tentando tão desesperadamente  achá-la. Serei, enfim, digno. Quem terminar de ler esta prece louve meu nome ao recitar:



digno és.


porque estar à altura é insuportável.









sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

morrer em vida.

Tornar-se o que se é – tarefa pra toda vida.
No meu caso veio tardiamente. Mas veio. E veio com certeza de que só me encontrarei quando eu concordar em ser nada além  disso que sou. O acordo requer uma grande dose de ostracismo- ninguém consegue levar sua  constituição em matéria viva até as últimas consequências sem que pague com um pouco de recolhimento. Quando você começa a perceber que tudo é vão aí a vida começa a ficar realmente difícil. Quase insuportável. E certamente completamente imponderável. Quando você  percebe em si uma  quase completa inabilidade para pantomimas, aí é preciso com urgência seguir o plano B.  No  meu caso o plano B é voltar ao plano A.  Foram necessários alguns desvios para eu aceitar, não sem relutância, que eu só corria em direção a esse destino: o plano A.
E qual é o plano A?
Não se diz. Ser não é algo que se consiga tão facilmente escrever; não eu um escritor medíocre. A única forma então de dizer-lhes do plano é colocando-o em ação. Duvidem, questionem e depois se surpreendam.


“ Aquele menino trazia na testa a marca inconfundível : pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar. Essas são as escolhidas- as que vão ao fundo, ainda que fiquem por lá”. Caio Fernando De Abreu.

 “ Deus não mata ninguém. É a pessoa que se morre” Clarice Lispector.

E que bom é morrer em vida- Rafael Pinheiro.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Beleza da família

Quando somos mais novos tudo que queremos é sair da casa dos pais. Quando o tempo passa tudo que sonhamos é voltar para a casa dos pais, de um jeito ou de outro. Descobre-se a diferença sutil entre proteger e sufocar; depois de um tempo você cai na real e admite que,por vezes, proteger é sufocar - e que não é tão ruim assim ser sufocado por quem nos ama. É melhor do que quebrar a cara, literalmente.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Diálogos cotidianos (1)


Inicio hoje a série diálogos cotidianos. Para quem não sabe não moro só. Moro junto com uma querida amiga. Eu psicólogo, ela professora de filosofia ( título dado por ela mesma); ambos incomodados com as coisas. nossos diálogos tem  o poder de nos mobilizar e, principalmente fazer avançar—cada um pro seu caminho. E que bom quando ás vezes nossos caminhos convergem. Esta série pretende ser um pequeno diário de nossa vida a dois.

Ela- Por que a gente nasceu pra pensar?
Eu- a gente não nasceu pra pensar. A gente pensa porque gosta.
Ela- vamos publicar isso!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Homofobia. Drauzio Varella

Texto de Drauzio Varella na Folha de hoje.



Violência Contra Homossexuais

A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.
Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural. 


Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele). 

Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras? 

Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos. 

Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação. 

Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva. 

A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes. 

Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos. 

Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas. 

Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo. 

Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.
A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira. 


Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo. 

Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade. 

Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social. 

Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos. 

Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Quero o que desejo?

Frase de novela da Globo:
“ você sabe , os melhores homens já tem namorada”.
 A frase aparentemente trivial esconde uma verdade psicanalítica fundamental. As pessoas normalmente usam esta desculpa básica para justificar seus insucessos amorosos. Constantemente temos a sensação de que as melhores pessoas pelas quais nos interessamos já estão comprometidas; aí começamos um rosários sem fim de lamentações de como somos azarados; ou como a vida é injusta conosco e que todo mundo consegue se arranjar, menos a gente- a sorte parece não querer sorrir para nós desafortunados.  A questão que se esconde aqui é nosso desejo. O tal desejo inconsciente que marca nossa divisão subjetiva, tão cara à teoria psicanalítica. Dizer que a subjetividade humana parte de uma divisão fundamental implica no fato de que há um  “ outro” que pensa onde achamos que estamos tomando decisões tão racionais. Somos “pensados”, como gostava de dizer Lacan. Aqui no caso em pauta, a moça se reclama da fatal “coincidência” de só achar homens bons casados ou comprometidos.  Freud falou tantas vezes dá famosa neurose de destino, isto é, o fato de que repetimos situações que nos levam ao insucesso; seja ele amoroso ou profissional. Alguém que se reclama de que todas as pessoas interessantes já estão comprometidas, deve se perguntar se de fato deseja o que quer. Nem sempre desejamos o que achamos que queremos. Quando alguém diz que ser feliz ou que quer encontrar alguém, está meramente expressando uma vontade. Atrás de toda vontade podemos encontrar um desejo- este o lugar onde somos pensados. Ser feliz não é fácil principalmente porque, na maioria das vezes, estamos inconscientemente nos sabotando e trabalhando contra nós mesmos. O desgaste de energia para fracassarmos é tão grande quanto para sermos felizes.
A mocinha em questão desconhece que o que ventila seu desejo, talvez, seja um desejo inconsciente de encontrar homens comprometidos, ou seja, homens impossíveis. Ao mesmo tempo todo sofrimento que ela sente nada mais é que o gozo  sentido ao realizar seu desejo amando o homem impossível. Com o risco de parecer simplista aos olhos daqueles resistentes à psicanálise, faço mesmo assim a pergunta que não se cala: 

quem seria o homem impossível?  Freud responderia tão rapidamente:" Mas ora! Seu próprio pai!"  O pai ou a mãe são as figuras que melhor representam este objeto impossível da satisfação de nossa pulsão, ou dito de outro modo, a felicidade.  Nossa posição humana de animal que vive no interstício inexpugnável entre natureza e cultura nos coloca numa posição trágica frente ao desejo: ele não pode ser de fato satisfeito, senão parcialmente. Uma parte dele fica sempre vivo como um resto , se assim quisermos colocar. Este resto estará para sempre a causar toda a saga que chamamos de existir.
Voltando à nossa pobre donzela....
Seu desejo descontrolado, sem objeto real, desnaturalizado e, por isso mesmo, apto a eleger qualquer objeto para se satisfazer, fica por sempre insatisfeito. Podemos dizer, em linguagem filosófica, que se manifesta somente num vir-a-ser perene. Ela deseja seu pai como objeto impossível da pulsão e transfere para os homens esta sina infeliz: de só poder desejar o objeto proibido, porque o gozo absoluto seria a morte. Desejar o pai aqui seria, então, uma forma de defesa contra o gozo absoluto da COISA. Temos nossa donzela  preza , por assim dizer, de seu sintoma. Uma boa análise poderia poupá-la de anos de sofrimento até que ela descobrisse, por si mesma, que é melhor se conformar com o sapo: o príncipe encantado, por mais sedutor que lhe parece, lhe é interditado. 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Agrupando forças.

Caros leitores, não esqueci de vocês. Demorei a postar esta semana porque o mestrado tem tomado muito tempo. O Dito continua vivo e ativo. Aproveitem para colocar a leitura em dia! Postei muitas coisas nos últimos meses; garanto que tem gente que tá precisando se atualizar nos posts. Em breve estou indo para casa para o natal e terei mais tempo para escrever. Aguardem posts natalinos e de fim de ano cheios da minha típica amargura, tão típica para o fim de ano. No momento estou agrupamento as forças e meus restos humanos que eu insisto em perseguir. 

domingo, 21 de novembro de 2010

Fragmentos de um pensamento em construção.

Tempos sombrios esses nossos. O que pode acontecer quando o inumano tomar de conta novamente do humano? Evolução? Mudanças na espécie? Novos ares? Tempos?  Seria a comida que comemos dirá alguém.  É a tv. Internet. Orkut. Aí todo mundo dá  as mais variadas explicações. De por que estamos tão conectados e ao mesmo tempo cada vez mais solitários. A força humana que  uma carta de papel tinha um e-mail, hoje em dia, raramente tem. O impacto, o trabalho implicado e o laço criado não são mais os mesmos. Não que a internet não seja capaz de criar laços, ao contrário, ela os cria todos os dias. A questão é que qualidade de laço social – se o laço social em si, pela sua natureza discursiva é virtual, a internet leva a virtualidade do laço para o extremo. O ponto de referência discursiva que posiciona as relações fica completamente volatilizado na sociedade virtual- imagética.

 A internet não é mais questão privada de cada computador; ela é uma rede social que englobou completamente o real dentro do virtual, talvez gerando uma confusão da qual dificilmente se consegue sair. Pessoas inconsistentes, vivendo num tempo volátil são pessoas que se sentem atraídas por um ambiente volátil como a internet. Toda tecnologia ou descoberta científica surge a seu tempo e somente quando a sociedade está preparada não só para produzi-la, mas principalmente para aceita-la e incorporá-la. Assim, não parece ser a internet que cava no homem as famosas relações “líquidas”, mas é uma sociedade liquefeita que gera seus próprios sintomas. E como se sabe, um sintoma não é em si bom ou mal: dele se goza. Entretanto, se dele gozamos é porque ele próprio diz algo singular sobre nossa existência. Assim, é dele também que vamos tirar uma saída criativa para sair da paralisia sintomática. Quero dizer com isso que é o sintoma mesmo que pode manifestar sua mensagem salvífica. Do mesmo modo, a internet em si só não transforma as relações. A fragilidade do laço é que conclama a exacerbação da virtualidade da relação humana. 
Homens liqüefeitos  acham a internet um lugar perfeito para desistirem, muito mais rapidamente, de sua humanidade. 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Trecho- Felicidade clandestina

"Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa ,adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o,abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante." 
Felicidade Clandestina. Clarice Lispector.

O Centro fértil do ser.

Nestes dias o que preciso mesmo é voltar a Clarice. Tudo tem sido um retorno. Retorno ao centro vazio do nosso ser quando todas as coisas ainda estavam por ser construídas. Passeio pelas ruínas que tão cedo erigi. .  Observa-se toda a cidade nova pensando na cidade antiga; procurando o centro nem que seja para ter a boba e já adivinhada revelação de que o centro não se deixa achar. Todo processo, todavia, não está em achar o centro, mas em buscá-lo, circulá-lo, simplesmente acreditar no centro. Bem aí toda a base para a crença per si. O centro fértil do ser, se querem assim. Um buraco artesanal do qual corremos, só pra depois, de tanto correr, resolver olhar para trás. Tecer o buraco com bordados, tricô- toda costura que houver. Olhar pro buraco sem estupefação. Lambê-lo sem auto-piedade alguma. Olhar o centro e ver que está lá a matéria bruta do que somos, sem disfarces ou agradados quaisquer.
Volto à Paixão segundo GH, Um Aprendizado ( novamente) ou Água Viva?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sangrar o humano.

Eu sempre soube a resposta, porque ela sempre me constituiu. Inteiramente vazado e homem humano. Ela é simples, mas sua realização é um pouco morrer. É dessa morte que fugi: have my way; isto é, me safar da vida. Glória nas alturas que alguns discernem os golpes da vida; ela golpeia a todos a todo momento. Alguns, entretanto, escapam dos golpes aos anestésicos; outros lutam contra os golpes. Outros, seres da exceção, sentem os golpes romper sua carne e sangram até morrer. Sofri os golpes e tentei estancar o sangue. Árdua tarefa correr sangrando. Corri sangrando.  Descobri num susto que a solução estava sempre perto de mim: a morte sempre foi o centro do cristianismo não? Para esta morte, no entanto, não há redenção. Morrei para, enfim , ser humano. Aceitar minha humanidade resvala em aceitar também a humanidade de todos os outros. Que nada...Ser humano é simplesmente aceitar e lutar para ser quem ser é. é isso. 

domingo, 7 de novembro de 2010

Domingo.

Acreditem quando digo que os trabalhos domésticos  ajudam a aceitar a tristeza e domesticá-la. Apesar de domingo ser o pior dia para domesticar tristezas; elas ressurgem mais ferozes aos domingos. Talvez porque no sábado alguns de nós extrapolam um pouco e o domingo cobra alguma coisa de nós. Ou quem sabe ainda porque o domingo em casa traz a nostalgia do lar. Nostalgia não é coisa boa – normalmente é saudade de coisas que nunca vivemos e sobre as quais colocamos as maiores esperanças. E a esperança que colocamos em grandes pessoas acaba, no fim , nos fazendo ver que os sonhos eram grandes demais e as pessoas pequenas demais para eles. E de quem é a culpa? Certamente não é das pessoas. É dos sonhos. Hoje ponho a culpa na nostalgia. Esse   passado que  não existe e produz um futuro tão imaginário quanto ele mesmo. 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Deslocamentos do feminino :Dilma presidente.

Elegemos uma mulher para presidente. E agora José?

Durante a campanha Dilma usou muito pouco a cartada “sou mulher”; usou mais no fim e a meu ver não conseguiu convencer as eleitoras de que ela também era mulher. Conversei e convivi com mulheres de todo tipo durante a campanha e pude sentir que pairava no ar um tipo muito peculiar de antipatia contra a então candidata .Antipatia compartilhada amplamente por vários setores da sociedade: mulheres, homens e até (choquem-se) homossexuais.  A rejeição sofrida por Dilma e os comentários pejorativos tais como: bruxa, sapatão, durona, agressiva e violenta não representam um rechaço às suas feições sisudas de pouco brilho. Como sempre acho que há mais, sempre mais. A figura de Dilma, juntamente com toda sua história combativa e de liderança, deve causar nas outras fêmeas a velha inveja fálica. Muitas mulheres  ainda acreditam que sua redenção está no casamento branco-gelo, nos filhos e nas tendências estéticas.  Os símbolos de poder devem ser  “ adequados” a uma mulher de brio. Onde quer que esta sagração do feminino esteja arraigada a imagem de Dilma ricocheteia como ódio.  Uma mulher como Dilma no poder profana uma noção de feminino permitida e arraigada em nossa sociedade; algo que ainda precisamos desmontar. A mulher pode trabalhar como os homens- contato que esteja com o batom e a saia em dia; a mulher pode até ser motorista de ônibus- mas sem perder sua “feminilidade”; a mulher pode sim tudo que o homem faz- contanto que ela dê um toque de perfume de rosas. Mutatis mutandis, isso vale também para os gays. O bom gay, e isso eu ouvi de um gay ( pasmem-se novamente!) é o “discreto”, “não-afeminidado”, em outras palavras: comportado. Já as loucas, as afeminadas, isto é,as tão conhecidas “bichas”, são gays de segunda categoria e seu comportamento é tachado de  “ desnecessário”.
Quando a presidente eleita pronunciou a desgastada paráfrase --Sim, as mulheres podem—abriu-se para mim um novo sentido, antes denegado.  Até porque, de fato, o que ocorre contra o feminino neste caso não é da ordem de um recalque, mas sim da denegação. A denegação é um mecanismo de defesa em que o sujeito se recusa a reconhecer como seu um pensamento ou um desejo que foi anteriormente expresso conscientemente. Assim, todos sabem que há diferença sexual, isto é, masculino e feminino são marcados por uma completa impossibilidade de complementaridade. Além disso, falar em masculino e feminino,ao invés de macho e fêmea, abre espaço para que haja uma permuta de lugares, já que homem e mulher para a espécie humana não são lugares anatômicos, mas nichos subjetivados.  Mesmo sabendo disso, preferimos negá-lo e rapidamente colocar em seu lugar uma imagem fetiche do feminino. No lugar de ativamente afirmar sua diferença a mulher acaba se tornando um mero apetrecho ao masculino. A diferença vai pro beleléu.
Dito isto vou dizer-lhes o que ouço minha presidenta dizer:
“Sim, as mulheres podem ser diferentes”. O fato de que as mulheres podem já está amplamente provado. O que está em pauta agora é se elas, se o feminino e todas as suas mais diferentes manifestações podem ser diferentes. Se é possível uma mulher pode ser mulher marcando sua diferença mais singular. Sim, as mulheres podem atravessar o lugar que lhes foi tão generosamente permitido por todos, e ser mulher da forma que deseja e pode.  Indo mais fundo no seu discurso o que eu ouvi foi o seguinte: “Sim, as mulheres podem ser diferentes e eu sou sim uma mulher”. Dilma manda um claro recado aqueles que a acusaram exatamente do pior dos crimes: o crime de não ser mulher. No final das contas, Dilma em seu primeiro discurso como presidente da República disse em alto e bom som: sim, eu sou uma mulher. Lidem com isso. 


leia também o excelente artigo da professora Sandra Helena no O Povo: 

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O bom Freud.

O velho Freud com a razão mais uma vez. É preciso lê-lo para não esquecer do sentido que precisamos dar a Psicanálise e evitar que ela perca sua força justamente aí onde é sempre atacada. Aqui um trecho do texto  Inibição, sintoma e angustia, 1926

Muitos autores tem dado grande ênfase à fraqueza do Eu em relação ao Isso e aos nossos elementos racionais em face das forças demoníacas dentro de nós, e exibem forte tendência para transformarem o que eu disse em pedra angular de uma Weltanschuung psicanalítica. Contudo, por certo o psicanalista , com seus conhecimentos da forma como o recalque atua, deve, justamente ele, ser impedido de adotar um ponto de vista tão extremo e unilateral.
Devo confessar que não sou de modo algum parcial quanto à construção de Weltanschauunges*. Tais atividades podem ser deixadas aos filósofos, que confessadamente acham impossível empreender sua viagem pela vida sem um bom guia dessa espécie para proporcionar-lhes informações sobre todos os assuntos. Aceitemos humildemente o desprezo com que nos olham, sobranceiros, do ponto de observação de suas necessidades superiores. Mas visto que nós não podemos também abrir mão de nosso orgulho narcísico, ficaremos reconfortados com o pensamento de que tais “ manuais para a vida” ficam logo desatualizados, de que é precisamente nosso trabalho míope, tacanho e insignificante que os obriga a aparecer em novas edições, e de que até mesmo os mais atualizados deles nada mais são do que tentativas para encontrar um substituto para o antigo, útil e todo-suficiente catecismo da Igreja. Somente uma pesquisa paciente e perseverante, na qual tudo esteja subordinado à única exigência da certeza, poderá gradativamente ocasionar uma transformação. O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores;mas, apesar de tudo isso, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz.
*visão de mundo.
Como sempre Freud dá uma de suas tacadas certeiras; duras e com o perigo de serem mal compreendidas como cabe a todo psicanalista.


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Desejo.

Começo a compreender o desejo. É uma vaga compreensão admito, mas é poderosa. Meu instante rico de alegria. Segue uma música para compartilhar com vocês minha alegria-- viva, pura e simplesmente por viver. É o que tem para hoje.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ressentimento político.

Tenho ouvido um discurso que me incomoda bastante e me causa uma sensação estranha de indignação misturada com puro desfalecimento. Só hoje pude compreender por que tais imposturas causavam-me tamanho desconforto- a má fé subjacente a eles. O super homem nietzchiano reclama de mim um pronunciamento.  Exponho os reclames:

Não poucas pessoas, dentre elas renomados políticos arvoram-se, nestas eleições, de guardiões da moral e da pureza ética. Paladinos do voto nulo ou da neutralidade política, já que “ nada aí presta”. Com aparência de revolucionários escapam ao trabalho sujo da revolução. Eleitores utilizam-se de argumentos fundados nas acusações de corrupção no governo PT; nas alianças espúrias com velhas oligarquias, como se isso fosse justificativa forte o suficiente para afirmar que Dilma e Serra são farinha do mesmo saco. Sem muito esforço podemos rapidamente identificar neste discurso um afeto velho conhecido nosso: o ressentimento.

Nossa mais famosa ressentida, Heloísa Helena, resolveu hoje, mais uma vez, jogar tudo ás favas. Ressentida com o apoio de alguns líderes do PSOL à candidatura de Dilma, Heloísa ( que nada tem de Helena) entregou as armas mais uma vez. Junto com ela conheço vários outros que também jogaram a toalha. Um trecho do discurso de renúncia da ex-senadora abre em chagas abertas seu espírito ressentido:

Registro que enfrentei o mais sórdido conluio entre os que vivem nos esgotos do Palácio do Planalto --ostentando vulgarmente riquezas roubadas e poder-- e a podridão criminosa da política alagoana. Sobre esse doloroso processo só me resta ostentar orgulhosamente as cicatrizes, os belos sinais sagrados dos que estiveram no campo de batalha sem conluio, sem covardia, sem rendição!

Engana-se Heloísa. Você já se rendeu faz tempo. Sucumbiu ao seu núcleo paranoico e sua religiosidade que, provavelmente, fazem de você uma histérica melancolizada com apego obsessivo aos danos. ( brigado Sandra pela dica!).

Umas das condições da posição ressentida de tantos brasileiros em relação ao atual governo encontra suas bases na crença de que a igualdade democrática seja uma dádiva paterna e não uma conquista do povo. ( Kelh, 2007). Anos de autoritarismo paternalista em nossa história tem esse efeito; gera uma expectativa popular de que os líderes tem a obrigação de resolver todos os problemas que afligem nossa sociedade. Lançamos sobre eles a mesma carga de expectativa irrealista que lançamos numa grande paixão, por exemplo. Esta passividade gera uma atitude constante de reclamação daquilo que não foi feito, uma cobrança ressentida. Outro efeito do ressentimento é o surgimento de um certo purismo numa esquerda mais radical que é incapaz de encarar sua própria responsabilidade em suas derrotas. Assumem então, uma atitude de simplesmente acusar os mais fortes e se dizem injustiçados. A má fé surge justamente quando esse ressentimento não mostra sua cara e se disfarça numa pretensa pureza moral. Esse disfarce do discurso ressentido goza de grande adesão popular, posto que desresponsabiliza cada um de nós da tomada de uma posição ativa no processo de transformação.

Maria Rita Kehl ( 2007) expõe brilhantemente o discurso ressentido:



“Por fim, em função de sua atualidade e das soluções de compromisso que ele possibilita, o ressentimento é um forte leitmotiv dramático. O personagem ressentido atraia simpatias, pois parece revestido de uma superioridade moral inquestionável. É o personagem sensível, passivo, acusador silencioso de um outro mais forte diante do qual ele se apresenta “ coberto de razões”. A ele se atribui uma sensibilidade especial, que o torna incapaz de se adequar à dureza da vida em sociedade. O personagem ressentido é eficiente para mobilizar tanto a identificação, quanto à má consciência. Ele aparece como alguem que permaneceu “ fiel a si mesmo”, atitude que , no entanto , não tem nada a ver com o “ torna-te quem tu és “ nietzchiano. É um personagem que não se “ corrompe”, não se “ mistura” com os outros, nãos e banaliza, não se deixa consolar e não aceita substituições para os objetos que perdeu. Parece íntegro. Será? A pergunta é: o ressentido é inteiro com o quê?” ( grifo meu).



Podemos ver claramente que, o prestígio desse discurso depende diretamente de que seu verdadeiro motivo permaneça encoberto por sua face de justeza moral. Daí tantos comportamentos meramente reativos e sem efetividade política alguma. Em política é preciso fugir desta estética do ressentimento. Os ressentidos, normalmente, não realizam nada. Vivem numa relação de acusação paranoica na qual o outro é sempre culpado por suas derrotas. Não é a toa que os puristas no Maranhão acusem Dilma e o PT pela permanência do clã Sarney em nossa ilha do amor. A atitude ressentida é muito mais fácil do que admitirmos que enquanto Roseana estava dando um golpe para tomar o poder do então governador Jackson Lago, todos nós permanecemos imóveis à espera de um milagre. Esse milagre não virá senão por nossas próprias mãos. Somos vítimas constantes de nossa própria omissão.
 
referências:
 
Kehl, M.R ( 2007). Ressentimento. São Paulo: Casa do psicólogo.

amém.

Este blog está para testemunhar uma explosão. A eclosão da vida em sua verve mais pura. Será um tipo de amém para a vida que grita em meu peito e eu já não posso evitar. Ele se impõe a mim como um veredito. Quem sou eu para lutar? Vejo surgir da terra a música e a vida como ela é e não mais como deveria ou eu sonhava ser. Tudo isso foi numa música que ouvi hoje- uma macumba. Senti toda vibração de não doar sentido; de não dar valor algum. Se a alma tem a função de dizer “sim “ ou “ não” para a vida, das duas uma: ou eu direi sim para tudo ou aceitarei a nulidade das coisas. Querida interlocutora, não é só o macho que é nulo. A vida é nula e eu sinto o ímpeto monstruoso de aceitar este destino final. Dizer amém para tudo. meu amém destruirá os pecados, os deuses, os ideais e as ciências. A vida é maior que a psicanálise, caro professor. Maior do que eu , maior dos que o homens, do que os suores, do que todas as minhas vísceras.
nesse fogo, nessa guerra; em toda essa labuta resta uma sensação que não poderá ser descrita de outra forma : frescor e felicidade.
Dizia Lacan: o melhor que pode acontecer a um homem são os estragos de sua vida.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Mobilização geral

Não costumo reproduzir reportagens no Dito, mas dada a atual situação política do Brasil é preciso que o que está acontecendo seja divulgado o mais amplamente possível. Aquilo que a direita e a imprensa elitista do Brasil chama de ataque à democracia não passa de algo que, os psicanalista de muito já conhecem: o retorno do recalcado. No Brasil, o fantasma do golpe e dos ventos reacionários não foi por completo banido; na verdade foi somente recalcado. Isto é, forçado a ficar reprimido e que não se fale disso! A prova disso é que os jovens que não viveram os momentos mais tenebroso de nosso país se recusam a perceber o que está acontecendo agora. Preferem o discurso amoroso e conciliador de uma pretensa terceira via neste processo. O recalcado, entretanto, sempre cobra seu preço e agora, aparece como uma irrupção virulenta de ódio e antigos ressentimentos. Vejam a curta matéria da revista Carta Maior.

TARSO GENRO MOBILIZA MILITANCIA E DENUNCIA:




CAMPANHA DE SERRA LEMBRA O GOLPE DE 64



O governador eleito do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), afirmou ontem, em Porto Alegre, que o clima atual de golpismo político irradiado pela campanha demotucana lembra os preparativos para a derrubada do governo democrático em 1964. Hoje, como ontem, há "manipulação da informação com cumplicidade da maior parte da grande imprensa". Diante de uma concentração de dois mil militantes convocados para a arrancada final da campanha petista no RS, Tarso e os demais oradores presentes deixaram claro que a resposta deve ser a intensificação da disputa pelo voto nas ruas dos centros, vilas e bairros, do interior e da capital.



Com maciça distribuição de pilhas de adesivos, panfletos e folders contendo os 13 compromissos de Dilma, os militantes saíram do encontro orientados para aderir aos núcleos de mobilização organizados em diferentes pontos do Estado, bem como munidos de pré-roteiros com as atividades de campanha previstas até o dia do pleito, em 31 de outubro.



No Rio, na 2º feira, dia 18, no teatro Oi Casagrande, intelectuais liderados por Chico Buarque, Emir Sader, Eric Nepomuceno e Leonardo Boff entregam manifesto de apoio a Dilma Rousseff.



Em São Paulo, na próxima 3º feira, dia 19, às 19 horas, a campanha pró-Dilma tem encontro marcado na PUC, rua Monte Alegre ,1024. O ato está sendo organizado pelo jurista Celso Antônio Bandeira de Mello e pelo teólogo Mário Sérgio Cortella.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Um surto e nada mais

Os momentos de fraqueza eram mais freqüentes. Quando ele sucumbia à fantasia do amor. Da solução mais rápida e curta. Era o momento da tentação no deserto: “ transforme estas pedras em pão”. Ele sabia que era inútil insistir. Uma certeza do tipo- os preços vão aumentar, nós vamos envelhecer e a população é imbecil. Coisas desse tipo. Hoje suas recaídas são mais fugazes e sua recuperação indolor. Uma vitória seca e sem celebração. Um ato de vida, simples vida. 
A porta abriu e ela entrou carregando as compras.
- como foi o dia?
- The usual. Nada especial; você sabe: o mesmo do mesmo.
- por aqui também. O calor, o tédio e o prédio. E minha fraqueza à espreitar.
-Eu também sofri ataques. Sabe, ele voltou a me procurar, hoje cedo na padaria. Com aquele olhar de estadista- certo, fino e quase um sábio.
- E eu, como Charlie Brown, uma pedra...Diga-me. O que tem em mim que  atrai mulheres como você?
- Um homem. Tem um homem dentro de você. Aquela obsessão pelo sentido; o compromisso com a razão e um amor pela paixão.
- Isso é masculino?
- Não sei . Inventei agora.Vamos dormir.




sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O recalque político.

A demissão da psicanalista Maria Rita Kehl abre uma polêmica suculenta: devem os psicanalistas se envolverem  com a política? Tirando o psicanalista pop-star Slavov Zizek, que foi candidato à presidência da Eslovênia, conheço poucos que ousam expor sua posição política.  As explicações variam entre uma posição melancólica diante de uma pretensa lucidez e uma má vontade política fantasiada de rigor teórico. De minha parte vejo a coisa por outro ângulo baseado em meu convívio entre psicanalistas e aspirantes. Grande parte  dos psicanalistas são o que o jornalista David Brooks no livro Bobos in Paradise chama de Bobos-- Borgeois Bohemians.  O berço do nascimento da psicanálise contamina até hoje as fantasias dos jovens recém formados que saem das universidades com o sonho de um belo consultório neoclássico. Muitos deles não abrem mão do sonhado divã e de seus mestrados e doutorados na capital francesa e se sentirem dignos e mais burgueses ainda.  Já vivi esse momento e sei o quanto é tentador. Entretanto, a ética do desejo na psicanálise não escapa à tomada de uma posição política dentro dos discursos que tecem o ethos de uma sociedade. Não esqueçamos jamais que foi Marie Bonaparte, neta de Napoleão I que, com suas conexões políticas livrou Freud e sua mulher de perecerem sob o regime nazista. Em seu exílio na Inglaterra Freud continuou ativo e forte na causa psicanalítica. 
A força da psicanálise nasceu no centro do Iluminismo e aos olhos de seus fundadores, desde muito cedo, pretendeu ser uma instituição capaz de traduzir numa política sua concepção de mundo ( Roudinesco,2000). Infelizmente, a norma sobrepujou a originalidade e a psicanálise não soube suportar os desafios da ciência e muito menos as mudanças na sociedade. Um verdadeiro recalque político! Os psicanalistas julgaram-se intocáveis, e ainda se julgam, pela realidade social como a miséria, o desemprego, os abusos e as novas reivindicações provenientes das transformações no seio da família. Sobretudo as que referem-se aos direitos dos homossexuais e da mulher. Em suma, os psicanalistas se desinteressaram do mundo real e voltaram-se para suas fantasias narcísicas.

Temos hoje o grande desafio de lutarmos contra uma crescente devastação causada pelo niilismo contemporâneo tão cultivado no meio Psi.  Estar do lado do sujeito desejante é antes de mais nada olhar para fora de si e de nossas masturbações institucionais, marca das associações psicanalíticas.  Nunca houve momento mais propício para que psicanalistas marginais se posicionem e assumam seu dever ético para com um projeto de nação brasileira. Maria Rita Kehl é um exemplo a ser seguido de coragem e força de uma verdadeira intelligentsia comprometida com a justiça. Não se deve dar lugar ao marasmo borgeois; parafraseando Roudinesco: no lugar da calmaria queremos a paixão, em lugar da desimplicação subjetiva, o desejo, em lugar do nada, o sujeito e em lugar do fim da história, a história.

Roudinesco. E.( 2000). Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Posição política ( II)

Os aparelhos midiáticos usurparam bem uma máxima do Evangelho: Sem vos tornares criancinhas não poderei entrar no Reino dos Céus.
O que se esquece é que o mesmo Cristo declarou enfaticamente: sejam simples como as pombas, mas sagazes como a serpente. Crianças não tem lugar na luta política; a ingenuidade infantil não permanece impune na cena de forças que vemos hoje tomar forma com toda pujança. É briga de cachorro grande, como tem se dito lucidamente. E nesta briga de “ marido e mulher” tem-se que meter a colher! A falsa neutralidade política é uma falácia que não deixa de servir a um dos senhores- e já se sabe que não se pode servir a dois senhores... A estratégia de igualar os dois candidatos à presidência é um jogo perverso que tenta colocar à parte uma parcela do eleitorado que, ao achar que os dois são iguais ( aí entram os ataques morais notadamente referentes à corrupção) cria uma impossibilidade de discernir as diferenças. Fico surpreso com alguns amigos que se declaram neutros ou desinteressados e até mesmo desesperançados da política. Minha surpresa é que: se é de fato de neutralidade que se fala, por que então alguns deles votam em determinado candidato? Quando se vota escolhe-se um lado, e como já vaticina o tão em moda Evangelho, “ quem comigo não ajunta espalha”.
Nunca um tal de Marx e um careca homossexual Foucault falaram tão alto aos meus ouvidos como agora: política é luta; é força contra força. E nesta luta não há lugar neutro já que mesmo da entropia se recicla força para algum dos lados. Nada é desperdiçado. Se é verdade que a força produz sua própria resistência no sentido de incorporá-la, façamos então, aos moldes de um tal Deleuze, um acontecimento. Eis o que vemos tomar corpo como destino ao nosso país: um acontecimento como uma ruptura, ou se quiserem mais precisamente, uma linha de fuga. O debate político e a briga internética que vislumbramos não sem orgulho, é uma excelente chance de que cada um mostre sua força, seu lugar e seu desejo. “O que queres?” toma assim um fulgurante significado de realização do desejo mostrando que não há lugar neutro. A política familiar tão protegida pela Casa Grande precisa ser destruída. Em briga de cachorro grande o escravo mete sim a colher! E se o discurso por excelência é o da histérica é porque questiona e fura o Mestre na construção do seu saber. Hoje me perguntaram porque estou tão movido pela política. Minha resposta não podia ser outra senão dizer que o sujeito é ético. Não há desejo sem ética e não há ética sem uma escolha de posição. Aquele que prefere não escolher ou ficar alheio do processo, deveria saber de antemão que alheio não está, mas está firmemente arraigado num sintoma do qual não sabe nada e mesmo assim dele goza.

O Dito não ficará neutro. Nesta luta de cachorro grande o lado que escolho, neste momento, cabe à dona Dilma. Não por sua simpatia ou pueril honestidade, mas porque na guerra que se trava agora calar e ficar neutro, enquanto a direita faz ressurgir os fantasmas mais monstruosos que o Brasil já viu, é um pecado. E sabem os psicanalistas: o único pecado é ceder do seu desejo.

Por um Brasil plural : Dilma, presidente da República Federativa do Brasil.

domingo, 3 de outubro de 2010

Desejo


Volto ao tema da disciplina de tempos em tempos.  Não sei ainda se é vontade de controle ou algo que preciso domar.  Domar minha vontade. Domar duas vontades certamente. Elevar-me acima do meu desejo de não sair do lugar e do desejo de correr até perder as forças. Ando impaciente comigo e com os outros, na mesma medida. Na medida do tratamento duro que reservo a mim mesmo.  O velho e batido conselho de ouvir a voz interior tem ganhado novo sentido por esses dias: minha voz interior é forte; eu que sou teimoso. Será a voz interior o que chamamos de Desejo ?  Não ceder do meu desejo- que parada dura. E se antes eu não sabia qual era meu desejo, hoje me aproximo cada dia mais dele...O medo aumenta e a dor de ter que tomar a grande decisão de simplesmente agir. Aristóteles que me ajude! Se a felicidade é isso vou precisa de tenacidade e disciplina. 

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O que faz um psicanalista? (I)


( ...) Escapa-lhe, entretanto, sem demora, o que alcança,de sorte que Eros jamais empobrece nem enriquece.Ocupa o lugar situado entre o saber e a ignorância.
O Banquete.

 O que faz um psicanalista em uma análise é justamente apontar, com elegância, o lugar do sujeito, esse espaço entre o saber a ignorância. E que lugar pode ser esse senão o do Desejo? Sim, o sujeito do Desejo, sujeito do inconsciente por excelência na Psicanálise. Nos dois extremos encontramos dois lugares impossíveis: um da sabedoria plena e no outro da completa ignorância.  Nenhum neurótico pode ocupá-lo. No saber absoluto paira o olhar medusante da psicose e quem quer que tenha tido uma infância não está na completa ignorância - há sempre um saber, inconsciente, todavia.  Assim, resta ao que não é nem sábio ( não conhece a Verdade) e ao que não é completamente ignorante ( posto que porta um saber que não sabe que sabe) habitar nas intermitências do desejo de saber.  Em Psicanálise este desejo é de saber algo sobre sua própria origem como sujeito: de onde venho? Quem é Outro pra mim? O que fiz da Palavra que me deu o Outro? 

O psicanalista  é alguém que, manejando bem a transferência, isto é,ocupando o lugar daquele que na fantasia do analisando sabe algo que este não sabe por si só, irá opinar corretamente. Explico-me.

“- Não-sábio é, por ventura, ignorante? Não percebes que entre o saber e ignorar existe algo?
-O quê?
-Opinar corretamente. Não sabes desvendar o fundamento ( de que forma ignorar o fundamento poderia ser conhecer?) nem apresentar a ignorância. Não pode ser ignorância apontar a coisa sob teu olhar. A opinião correta ocupa um lugar intermediário entre o entendimento e a ignorância”
O Banquete.

Se o analisando pensa estar ignorante de seu próprio Saber não é porque não o tem, mas porque não sabe  que sabe. O analista, entretanto, porque já passou por uma psicanálise, sabe que sabe que não sabe. Para que haja análise então, o analista mesmo precisa ocupar este lugar de uma escuta que está sempre no intermediário entre o entendimento e a ignorância ( escuta flutuante); só assim pode surgir uma interpretação ou pontuação precisa que atinja o sujeito justamente em seus pontos cegos. A interpretação é, portanto, uma opinião correta, pois mesmo sem tudo saber o analista pode interpretar.

O caminho de uma boa análise é levar o analisando a construir uma Verdade singular que dará sentido a sua existência, já que um sentido último não podemos achar frente às restrições impostas pela linguagem.  Cabe ao analista sustentar sempre no analisando o sujeito do Desejo, aquele tem por mãe Penúria e por pai Caminho ( filho da Sabedoria); inclusa está no desejo como constituinte invariável a  falta. Ao analisando cabe o esforço de tentar formular e bem-dizer sua penúria levando suas escolhas até as últimas conseqüências éticas- custe o que custar. Aquele que passa por uma análise deve, ao fim, saber o preço que se paga por escolher querer ser o que se é.  Um pouco enigmático talvez.





sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Posição política.



Neste momento de luta e guerra de poderes que vivemos até dia 3 de Outubro tudo vale. No desespero de conquistar votos os ataques morais são constantes, causando um estranho efeito sobre a acomodada classe média brasileira que, mesmo vivendo suas pequenas corrupções do dia –seu orgulhoso jeito brasileiro- prefere  escolher seus candidatos com base em sua candura moral.  A mudança que o Brasil precisa não será sem luta e sem perdas.  A questão que assusta é que lutar pelo poder de mudar tornou-se sinônimo de autoritarismo, quando na realidade, o verdadeiro autoritarismo não está interessado em mudar nada; principalmente se forem mudanças para o menos favorecidos.  Desde a campanha do medo levada a diante por antipáticos globais que o argumento “ficha limpa” tem sido usado contra projetos de governo diferentes e mais radicais na mudança social. Entretanto, o consenso heróico que pode fazer do Brasil uma democracia viva necessita radicalizar-se. O trecho abaixo do livro “ The Fountainhead”, de Ayn Rand fala melhor do que eu sobre o verdadeiro espírito heróico-político.

“Para alcançar a virtude no seu sentido absoluto, disse Ellsworth Toohey, um  homem precisa estar disposto  a cometer contra sua alma os crimes mais insensatos- pelo bem dos seus irmãos. Mortificar a carne não significa nada. Mortificar a alma é o único ato de virtude. Então você acha que ama a grande massa da humanidade?  Você não sabe ainda nada sobre o amor. Doar dinheiro para uma greve e achar que você fez a sua parte, seu dever? Pobre ingênuos! Nenhuma dádiva vale de nada, a não ser que seja a coisa mais preciosa que você tem.  Doe a sua alma. Para uma mentira? Sim, se os outros acreditam nela.  Para o engano? Sim, se os outros precisam dele. Traição e desonestidade, crime? Sim!  Qualquer coisa que parece baixa e vil aos seus olhos. Somente quando você é capaz de sentir desprezo em relação ao próprio e caro ego, somente assim você pode atingir a verdadeira e extensa paz do desprendimento, a junção do seu espírito com o vasto espírito coletivo da humanidade. Não há lugar para o amor ao próximo dentro  do apertado e congestionado buraco miserável de um Eu individual. Seja vazio para que possa ser cheio (....) Abnegação?  Sim meus amigos. Mas não se pode abnegar-se mantendo-se puro e orgulhoso de sua própria pureza. O sacrifício  que inclui a destruição de uma alma- ah, mas por que estou falando sobre isso?  Isto é somente pra heróis entender e alcançar”.

Vete de mi



Tú, que llenas todo de alegría y juventud
Que ves fantasmas en la noche de trasluz
Y oyes el canto perfumado del azul
Vete de mí
No te detengas a mirar
Las ramas muertas del rosal
Que se marchitan sin dar folr
Mira el paisaje del amor
Que és la razón para soñar y amar
Yo, que ya he luchado contra toda la maldad
Tengo las manos tan desechas de apretar
Que ni te puedo sujetar
Vete de mí
Seré en tú vida lo mejor
De la neblina del ayer
Cuándo me llegues a olvidar
Como és mejor el verso aquél
Que no podemos recordar

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Dignidade já.

“ Ela ouvia o vazio, só palavras vazias proferidas como se seu interlocutor fosse insultado por qualquer sinal de entusiasmo por parte dela, como se o tédio fosse o único laço possível entre as pessoas, o único preservativo de suas precárias dignidades”.The Fountainhead- tradução livre.

Dentre tantas pautas para o blog não pude deixar de lado minha leitura da Ayn Rand.  The Foutainhead tem sido um soco preciso que eu tanto precisava. O livro é uma aula constante permeado de discurso inteligentíssimos e descrições precisas da condição humana. Um olhar agudo como poucos que já vi. Na fase que estou agora o livro tem sido uma fonte de força para manter alto meus ideai, ainda que seja para mais tarde rechaçá-los.Todavia, precisa-se deles.  O livro tem me mantido firme à minha integridade e ao que gosto de chamar dignidade. 

Viver a vida como o defunto vaidoso que vai pra cova todo elegante. Inútil? Talvez, mas faz da morte um estilo também. Se a morte pode ter dignidade, por que não a vida?
Pra terminar, como diria Millôr Fernandes: Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos.
Acho digníssimo.

sábado, 18 de setembro de 2010

Barricadas


Dentre tantas opções sobre o que fazer com o sábado a noite parece que a clausura e o confinamento serão as melhores opções.  Dentre os pedintes da noite e as barricadas do entretenimento com suas injunções de alegria talvez um livro seja a melhor saída, e menos desgastante. 

domingo, 12 de setembro de 2010

Leitura obrigatória

Lendo " The Foutainhead", de Ayn Rand. Um dos livros mais marcantes até hoje. Parece exagero,mas não há de ser. O livro me pegou como fazia tempo que uma literatura me agarrava de jeito. Pegou no meu projeto de vida; pegou na minha sina de existir e me fez sentir como eu me sentia quando ainda era um adolescente--forte e certo de que meu ser estava correto. Conseguem entender? 

Leitura obrigatória para quem sonha em se tornar no self-made- man existencial!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Os Famosos e os Duendes da morte





Desde que vi o trailler fiquei excitado para ver o filme. Um empuxo, uma curiosidade incontrolável. Talvez o campo, o Rio Grande do Sul, a internet e a vida de um adolescente no atravessamento desta fase tão linda e incontornável. Como incontornável é a travessia daquilo que você deve ser e o que você pode e escolhe ser. O cinema brasileiro fica de parabéns com uma obra de arte de sensibilidade rara nas telinhas; não é a toa que na sala havia somente umas 8 pessoas vidradas  e embaladas pela sutil trilha sonora de Bob Dylan.  O diretor consegue plasmar muito bem a lentidão do interior gaúcho- o frio, a paisagem lúgrube, a imigração, o branco fosco que dá tristeza.

Fomos ver o filme, eu e mais duas mulheres. A boa obra de arte é a que consegue arrancar de cada um sua memória e acendê-la habilmente. Uma viu sua adolescência nem tão hipermoderna, mas em sua essência doce e desafiadora; a outra viu seu tempo vivido em uma cultura fria e dura enquanto ela destoava como um bicho híbrido. Eu vi minha figura lânguida e vulnerável a buscar meu esconderijo na íngreme escada que levava à biblioteca do Colégio Batista em meus idos 15 anos... Eu vi os contornos tortos e finos de minha adolescência e a presença sempre forte e confiante da mãe.

“  naquele cidade cada um sonhava em segredo:, menino sem nome conheceu a garota sem pernas, mas mesmo assim, não precisava de ninguém pra ir embora”.  Assim começa e termina o filme numa metáfora brilhante de um garoto que precisa deixar sua vida e enfrentar o canto sedutor de morte que nos espreitar de soslaio. O enlace familiar é tratado com a delicadeza que o tema merece, tanto que, para os desavisados, o âmago do filme pode passar completamente despercebido. O direto, entretanto, deixa claro nas postagens do menino protagonista.  Uma em especial traduz o que atravessa o filme todo: “ ...nossas bocas sonhando até o fim, como o que ficou pra trás, como o que nunca será descoberto, como o que nunca mais voltará a ser três”. Atravessar a ponte fica marcado como a metáfora mais forte daquele que precisa cruzar seu destino e abandonar o apego nostálgico ao “três” e, finalmente, fundir-se ao seu desejo. Palmas para o diretor. 

domingo, 5 de setembro de 2010

Atento e forte.



Olá caros amigos em São Luís. Faz tempo que não dou notícias sobre minha vida em Fortaleza. Faz um mês que estou aqui novamente. Não há muito o que contar, principalmente agora que entrei numa fase que estou tendo muita dificuldade em comunicar. Perdi um pouco da fé, por assim dizer, na compreensão. Ou talvez eu esteja precisando virar ostra por uns tempos. Voltar-me violentamente para dentro e ver o que resta de mim sem os outros.
O mestrado está indo bem. Fora alguns energúmenos com os quais eu sou obrigado a conviver, tudo vai normalmente, como eu já esperava. Um fato é inexorável: existem pessoas boas, más, burras e inteligentes. Não há razão para insistirmos com os desfavorecidos intelectualmente, é como jogar pérolas aos porcos. Que outros façam a caridade da razão pura; eu fico às margens. Um pouco de amargura não fará mal se eu não perder as estribeiras. Como disse Jesus: não se deve ser demasiadamente justo ou puro. Assim, hoje, pendo para o fel. De todo modo isto me dá certa descrença nos humanos que eu considero muito salutar. Vejam vocês que no momento gozo de minha própria vida interior até que, como num raio, venha galopante uma figura que causa um desejo de abertura. Por enquanto, as paredes estão altas. É um fato e contra fatos...ah vocês o sabem bem.

Minha nova experiência de morar com outra pessoa tem sido agradável e desafiadora ao mesmo tempo. Explico. Esta pessoa com quem moro me desafia todos os dia a não ser eu com tanta tenacidade. Ela me aperta, me estimula e acima de tudo, me contém. Desta forma ela realiza dois milagres: me impede de fugir da luta e me mostra que eu estou dentro de alguém. Lição aprendida neste mês: ignorar a tentação de transformar pedra em pão.
De resto não há nada a dizer a não ser que é preciso estar atento e forte.

Beijos a todos

sábado, 28 de agosto de 2010

Não me impeça

Quero dar atenção às histórias mais prosaicas; quero ter tempo para as falas mais suaves. Com isso quero dizer que quero olhar de perto todos. Sorver, lamber a vida de quem vive só porque é isso que se deve fazer: viver.
Eu não vivo. Existir é contra viver – dói nos lombos. Disse Deus: Cinge teus lombos! “Tira a sandália dos teus pés O solo é santo!”. É despojar-se e mergulhar no quase inumano, ou isso não seria mesmo o que há de mais humano? A peça mal talhada, a vida na sofreguidão de um escorregão. O desejo puro. A opacidade da convicção. É o desvelar de si mesmo. Eu mesmo em minha carne mais crua. Nua e transparente. Um acinte aos outros? Talvez. Quiçá. Aí sim, é preciso estar “ atento e forte” e não ter medo de encarar o nu do mundo e seu branco gelo. ha! Às favas como branco translúcido. A vida é uma; de cor e paixão... Vinício que tão sabiamente casou-se tantas vezes, no ritmo do vão amor. Eu sei você me diz que é vão. Sei nos meus rins...Mas não pude evitar desejá-lo tão ardentemente como agora e lutar contra a fúrias de todos os deuses que tentam calar a voz do pobre cego Bartimeu. Sou eu: O pore e cego Bartimeu clamando por sua cura. Não me impeça.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A poesia não pode parar.



Porque da ordem de um raio foi a foto que vi. Quando vi o garoto livre dançando com seus amigos. Numa alegria sem fim e vivendo sua vida impensada e irrefletida. Ele faz parecer ser fácil viver na égide do desejo; sem culpa e sem amarras. Essa nova geração de garotos que soube escapar às vergonhas da vileza. Voaram longe. Deles sinto uma inveja; não que quisesse ser eles, porque sinto que não seria esse meu destino, mas a nostalgia de que eu poderia ter sido isso e aquilo, sem ter que fazer necessariamente uma escolha entre a dignidade e vileza. É dessa falta de medo de encarnar o próprio rito de ser gente que me causa inveja.  Nada destruidor, mas contra mim cobra um preço de que estou no meu corpo sem estar.  Eis que se deve dar um destino a tudo isso que vibra e pulsa nas carnes, sangue e órgãos. Que ele pulse, dance, se sacuda – é um destino. Que ele se ilumine ao ponto de causar as mais desavergonhadas risadas; está aí o sentido de extrapolar as roupas e a maquiagem. Travestir-se se quiser. Fantasiar-se de si mesmo, porque o si mesmo não existe. Assim, ainda há tempo de criar minha própria metáfora transgênica?  ha! Se estavam certos os gregos! Que no corpo habita a certeza de quem se é.  Um suplício fascinante olhar nessa foto o que eu nunca fui e hoje já não desejo tão ardentemente ser, e mesmo assim ainda sei que essa pulsação está aqui. Dar uma roupa a tudo isso é minha tarefa neste momento. Encontrar minha cara, meu dizer, meu fazer e se tudo isso redundar em amor, que bom.  

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ficar sozinho.

Um ótimo video que veio bem na hora. Na hora em que eu mais preciso estar só, e ainda si dói, mas estar só parecer ser meu mais belo sintoma.. Quero abraçá-lo, pois bem.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Juazeiro vale a pena sonhar.



Minha demora em atualizar o blog estes dias facilmente se explica:
Além de ter me mudado a pouquíssimo tempo de volta à terra do Sol, precisei fazer uma rápida viagem para Juazeiro do Norte. Fui visitar minha irmã e cunhado que agora fazem do sertão central sua casa.Na oportunidade participei de um evento da Faculdade Leão Sampaio no qual apresentei a conferência  “ Psicanálise: ainda vale a pena sonhar". 

Encontrei na faculdade Leão Sampaio um ambiente acolhedor e alunos ávidos pelo conhecimento. Confesso que fui pego de surpresa; não esperava muito desta viagem porque o interior do Maranhão é uma pobreza só e só flagelos. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar um auditório cheio de pessoas interessadas na psicanálise e seu saber. A experiência foi marcante e muito gratificante. Senti um grande privilégio em falar em defesa da psicanálise bem no meio do sertão! Algo como ser remetido ao deserto do real de Zizek. É por ser causa do desejo que o Real não cessa de se escrever em nossa experiência humana e o saber, como o conhecemos na ciência, faz incessante borda a este tão conhecido conceito psicanalítico, fonte de perene angustia. 

Marcus César e Tássia estão absolutamente de parabéns pelo maravilhoso trabalho que têm desenvolvido junto aos alunos.  As instalações da faculdade são excelentes e o ambiente é bastante propício ao trabalho. Meu desejo é que eles continuem o bom trabalho e jamais desanimem da tarefa  de estimular outros ao saber. Ser professor é, mais do que qualquer outra coisa, uma vocação quase patológica, pois aquele que ensina não ensina somente para os outros: ele ensina a si mesmo. 

O professor precisa de sua fala perante o outro; é ensinando que, um professor vocacionado, dá sentido à sua doença de ser viciado em de tudo saber.  Aí está o sentido do ensino que eu espero ver se desenvolver na jovem Leão Sampaio. Parabéns Marcus! Um abraço também ao Paulo Coelho e Raul, todos ex alunos da UNIFOR que exercem agora seu tão almejado sonho de futuro.

A conferência que ministrei na Leão Sampaio você pode ler na íntegra logo aqui :


terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sonhos ...Quicá!



Não sabemos mais aonde vamos parar.  Agora a grande ciência quer controlar nossos sonhos.  Que coisa ein? Qual seria a conseqüência disso?
Já se passaram mais de cem anos desde a mais importante obra de Freud, A interpretação dos Sonhos.  O livro representa um texto fundador do discurso psicanalítico exatamente porque aponta que os sonhos traziam em si um sentido cifrado; uma mensagem inconsciente plena de sentido e ávida por ser desvendada. O sonho tornou-se então a marca da presença do desejo inconsciente, conceito primordial para a teoria psicanalítica.  Foi nesta obra que Freud forjou a célebre frase: “ O sonho é e via régia que conduz ao inconsciente”. Anos de prática clínica puderam comprovar que os sonhos são a melhor via de acesso ao desejo do sujeito do inconsciente. Se assim é verdade, o que acontece quando alguém se angustia por seus sonhos e procura um especialista- um tecnocientista- para resolver e controlar seu sonho? É possível controlar o desejo? É possível controlar a palavra do inconsciente?

A tecnociência parece não conhece limites; assim minha pergunta já está respondida já que superabundam as técnicas e psicoterapias que são bem sucedidas em controlar e disciplinar o desejo. A questão agora é saber que tipo de sujeito vai emergindo na aurora do século XXI.

O fato das pessoas estarem procurando especialistas para controlar seus sonhos demonstra que hoje em dia não é mais interessante procurar o sentido ou a origem da angustia. Ninguém mais quer se perguntar por que se angustia; muito menos quer ter o trabalho de colocar em palavras ( ou não pode mais!) o que lhe pesa.  A tecnociência busca, cada dia mais, cifrar o déficit dentro de uma norma e mensurar a deficiência ou o trauma a fim de evitar interrogar-se sobre sua origem ( ROUDINESCO, 2005, p. 89). Enquanto em outras épocas o sonho era marca de uma singularidade e subjetividade, hoje o sonho é um trauma a ser reparado, apreendido e moldado segundo o senhorio da consciência.  É interessante notar que quando Freud iniciou os trabalhos com A Interpretação dos Sonhos ele estava ainda no processo de elaboração da morte de seu pai. Sabemos que a morte de seu pai foi um forte golpe sobre o jovem Freud, mas foi também por meio da análise de seu luto que grandes descobertas foram feitas para o nosso bem. E grande parte de seu luto e do que emergiu da morte de seu pai apareceram em seus sonhos/ pesadelos.  A grande sacada da psicanálise foi de desvendar que por trás de nossas ações e pensamentos está o desejo de um sujeito cindido entre pensamento e emoção- demanda e necessidade. 
Fico bastante assustado com a profusão de aparelhagem tecnológica que se propõe a dar fim ao sentido mitológico da existência humana. De nossas possibilidades de nos investigarmos livremente. Agora que medo será viver numa sociedade na qual as pessoas não mais contarão seus sonhos uns aos outros criando a boa conversa de rodinha.... Tive um sonho com cobra! Há cobra ...Tão falando mal de você! Ou outras interpretações que fazem circular as palavras e ao mesmo tempo dão alguma chance para que alguém se investigue, olhe para si mesmo e desvende sua vida interior. Ninguém mais vai acordar intrigado com o que sonhou; simplesmente, agora, podemos ligar para o médico e dizer: --Olá  Dr., tive um sonho ruim. Você teria horário hoje para me atender?Eu gostaria de mudar meu pesadelo de hoje! 

A tentação é enorme, senão vejamos qual a proposta dos cientistas : (...) muitos terapeutas usam intervenções comportamentais para reduzir os pesadelos ou guiar o paciente em direção a um "mastery dream" – usando a mente consciente para controlar a maneira selvagem do inconsciente ( ...) ou (...)  Mude o pesadelo como quiser”, diz o manual. “Deixe que novas imagens positivas surjam no olho da sua mente para guiá-lo a ‘pintar’ o novo sonho (...).

 Quem sabe no futuro não tão distante ninguém mais sonhe...Ou pior ainda, quem sabe daqui a pouco ninguém conte nada a ninguém e cada um de nós saberá a qual especialista deve recorrer quando sentir vontade de endereçar algum sofrimento a alguém. Não tenho muitas dúvidas de que hoje afeta-nos uma crise de endereçamento; não sentimos mais que é legítimo endereçar uma demanda a outra sujeito.O rosto paranóico da ciência brilha bem mais forte que os semblantes do Grande Outro. Previsão apocalíptica? Certamente, mas penso que as trombetas já estão soando...
 Nesse contexto questiono:
Cairemos todos num sono profundo livre de sonhos, pesadelos e desejo?  Continuaremos sendo humanos como sempre fomos? Eis a pergunta lançada. 

REFERÊNCIAS

ROUDINESCO,E. O paciente, o terapeuta e o Estado. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.