domingo, 28 de março de 2010

Estou pronto.

Eis o grande paradeiro da alma:

Não ser obrigado a dar explicações sobre o seu ser. Chegar neste ponto é talvez a grande vitória:
Quando se pode viver na firme confiança, em nada mais a não ser na inexorável passagem da vida e na necessidade de viver. Quando chegamos nesse ponto há mais espaço para tolerância e empatia; é que acabamos por perceber que, na maioria das vezes, o outro não está tentando nos vampirizar ou nos prejudicar: ele só está tentando viver, também, de uma forma ou de outra.

Viver e não ter a vergonha de ser feliz é estar, dentre tantas coisas, pronto para ter sua felicidade questionada. Pronto para ser motivo de chacota. Pronto para não ter vergonha de dar a cara a tapa. E amigos, para que vocês saibam – ter um blog é dar a cara a tapa, 70 x 7.

Cai bem aqui uma pitada de Oscar Wilde:

" as pessoas costumavam dizer que eu era demasiado individualista--e devo sê-lo agora mais do que jamais fui.É preciso que eu exija de mim muito mais do que exijia antes e espere do mundo bem menos do que jamais esperei. Na verdade, a minha ruína não foi provocada por eu ter sido demasiado individualista mas por sê-lo demasiado pouco. A única ação vergonhosa, imperdoável e desprezível que cometi em toda a minha vida foi permitir a mim mesmo apelar à sociedade em busca de ajuda e proteção. Invocar tal ajuda já teria sido erro suficiênte, se considerado sob o ponto de vista do individualismo, mas que desculpa poderei ofercer por ter chegado a fazê-lo

quarta-feira, 24 de março de 2010

terça-feira, 23 de março de 2010

Epifania

Aconteceu-me hoje uma epifania. Um momento único no qual podemos ver as coisas com clareza tal que um mudança ocorre dentro de nós como num passe de mágica. 
Ajoelhei-me ao pé da cama para fazer uma prece e só pude dizer: Deus, tu o sabes.
E foi aí que vi, será isso o que chamam a “ ouvir a voz de Deus”?  :
Ou eu começo a viver a partir do que eu realmente creio ou então é preciso esquecer tudo e jogar fora e começar de novo.
Súbita paz me encheu ao ver a possibilidade de realmente colocar em prática aquilo que há em mim que me faz achar que sou cristão. Meus leitores sabem que raramente falo de religião de forma tão taxativa no blog porque eu mesmo não sou tão taxativo quanto a assuntos de religião. Mas,hoje a palavra se impôs : religare.
Senti minha ligação com Deus e percebi que não preciso somente sentir,mas que há crenças dentro do meu peito que eu não consigo arrancar e que, talvez, elas me definam muito mais do que eu posso imaginar. Volto novamente à grande escolha de saber esperar o tempo da eternidade.  O tempo do Eterno.  Tudo isso faz parte do doloroso processo pelo qual estou sendo obrigado a passar de me aceitar cada vez mais e chegar ao duro de mim mesmo. O resto, todo o resto deve morrer. Eis, talvez, um bom significado para: negue-se a si mesmo.  Tome a sua cruz e Siga-me. Rumo à morte cruel preciso aceitar tudo em mim radicalmente, inclusive o fato de que eu creio e preciso disso, muito. Reconheço que tenho sido enigmático nos últimos tempos, mas é como eu disse --- preciso escrever, é um empuxo ao êxito, muito, mais muito mais forte do que eu.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Meu tempo, meu quando.

No início a sensação.

De estar sentado nesta cadeira, sentindo um peso atroz nas costas. A dor nas mãos, dedos e punho. E a dor no pescoço como se eu não fosse capaz de suportar e fosse sucumbir à queda. E que ao cair eu fosse perder todo o mundo; e caindo eu perdia o cosmos e sua vida, seus membros, os corpos, as músicas. E fico querendo ver tudo, sentir tudo e no excesso de sensações eu sinto que algo arrefece, se acalma. Talvez seja isso o encosto. Algo fantasmático que se apóia em mim e requerer que eu trabalhe. Sou o “ cavalo” por assim dizer...De forças maiores do que eu. No corpo uma agonia fervente que tenta explodir em meus dedos. Vontade de pertencer? De me encaixar? Aquilo que tememos isso nos acontece porque medo é o reverso do desejo. Foi ao escovar os dentes que eu vi tudo isso:

Que na vida, para vivê-la para si mesmo, ( tenho vivido tanto em função do outrem; tenho vivido minha vida para um outro além que me trará algum conforto — Ulisses querendo amarrar-se ao mastro; fugitivo das sereis. Ata-me de prazer) temos que prestar atenção em como escovamos os dentes. Cada movimento atentamente; olhar-se no espelho. Ver cada mancha no rosto, expressão: o triste olhar. E continuar a escovação, sem pressa e sem furor. Sem a exigência e pressão que colocamos sobre o tempo. Sobre as horas. Virginia nos diria: “....as horas....sempre as horas”. E prestando atenção em cada momento resistimos à força de destruição do tempo — o tempo nos pisa e nos faz ansiar. Ao menos a mim sim ele faz. Seria meu problema o tempo? É com o passar tedioso dos momentos que eu me angustio? Ou é porque o mundo tem tanta coisa pra mim? Ou é porque eu acho que o mundo tem algo para mim? Não tem nada.

Temos também que tomar chá e café, ainda que doa. Sentar-se; pernas cruzadas a tomar o chá. Sozinho com o barulho da chuva no telhado... E as gotas... Gota a gota de momento a cair. E o mundo fervendo. E os corpos também. E todas as aflições queimando seus ouvidos e você tomando seu chá com as gotas de chuvas a seus pés. Deixando que o mundo passe sem você. Consegues assim? Deixar que o mundo passe e aconteça sem você? Essa agonia quente que sinto é amor? É falta de amor? O que me queima por dentro e que não quer se dobrar ante aos meus apelos? Como admitir a grande impotência? Como ?!

“ admiti-la radicalmente”, foi o que ela me disse. Logo ela que por tanto tempo viu-se rasgada pelo ardor de Ser. E hoje curada da vontade de Ser apieda-se de mim e me diz: “ Admite sua impotência, radicalmente”. Eu agradeço querida. Mas, como fazê-lo? Como desistir de tudo? Como abandonar a crença no prazer? Sim, eu sei: gastamos cada vez mais energia para sentirmos cada vez menos prazer. É o mundo. Eis o sistema que engolfa. A questão é que cada um nasce com um mundo desses em si — a crença no prazer. Acreditamos que o silencio sufoca e a solidão é insuportável. Eu sei... Nunca resisti tudo isso até o sangue. Até onde eu poderia chegar? Só quem consegue suar sangue é servido por Serafins.

Perdoem a falta de sentido, mas eu precisava me libertar de alguma coisa hoje. É que quando acordei hoje, para me levantar, fiquei repetindo o tempo todo mentalmente: ergue-te! Ergue-te sobre a vida. Levanta-te. É preciso forçar uma rotina. Coloca-te de pé fraco homem! Encara a vida; encara-a de frente e sente o tempo cortando tudo.

E quando levantei o peso permanecia e o encosto continuava a exigir de mim o trabalho penoso. Tive que escrever minha gente. Perdoem-me por escrever; eu que não sou escritor escrevo na dor e quanto mais escrevo mais a intensifico com medo, com desejo. Aprendi agora que sentir medo e desejar é quase a mesma coisa, um o avesso do outro. Essa sensação de medo do perder as coisas. De não querer realizar a grande alforria de meu desejo e assim, deixá-lo finalmente livre para desejar.

Coração a mil. Ainda estou ludibriado mesmo sabendo toda a verdade sobre o que realmente se passa agora. Que agonia é perceber as coisas! Transtornado caminho em direção ao vazio; ao negro insípido da escolha fraca. Do sangue, do suor e da máscara. O que há por trás da opaca promessa do conforto: nada, não há nada. Aí, preciso dizer sim para o nada. Preciso dizer sim! O grande sim para uma maior impotência e então, aí ficar. Ai ficar.

Aí ficar. Momento após momento. As horas e as horas de ficar...

quinta-feira, 18 de março de 2010

Amor fati

Sisifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549.

Eis o que sempre se apresenta num divã: mas o que é desejar? Pergunta que me faço sempre e que escuto sempre da maioria dos pacientes. Qual o sentido de desejar? O que é o desejo?

Eu mesmo já me propus estas questões tantas vezes e , confesso  continuo a me questionar se faço o que desejo de fato. Ai de nós humanos que não fazemos o que desejamos e fazemos o que odiamos; que não amamos o que desejamos e amamos aquele por quem não temos desejo algum. Que sina. Que tragédia.

Conceitualmente eu poderia perder tempo tentando explicá-lo, entretanto, suspeito que “ desejo” seja algo que fuja a uma explicação racional. Tentemos despistar nossas resistências. Siga-me...

Conversando com meu querido amigo Felipe Pontes via MSN, em nossos famosos “papos analíticos” eis que ele me solta esta pérola: “ Amigo, atente ao Desejo!”. Ele, que não é analista nem aspirante, me sai com esta preciosidade. Parei por um instante e percebi duas coisas: primeiro que o desejo está aí, sempre conosco a nos dar pistas de seus reclames. Segundo, que nós temos uma cegueira própria de nossa humanidade e que raramente o percebemos ou se percebemos fazemos de tudo para ignorá-lo. E por que? Há! Eis a charada.

O desejo habita junto á falta, isto é, para que haja desejo é preciso que haja uma brecha, um oco, um vazio, um buraco- uma falta em nossa vida. Que há falta em todos nós disso ninguém duvida. A questão é como lidamos com ela. Uns a ignoram; outros passam a vida tentando preenchê-la de uma forma ou de outra. E nisto caem em grandes armadilhas porque tapar a falta é impossível. Daí tantos vícios, ou seja, o vício nada mais é algo que apresenta como pretendente a solucionar aquilo que nos falta, mas jamais cumpre a promessa sempre adiando. E a promessa  nunca chega deixando-nos amarrados não só a um gozo, mas a uma promessa de um maior gozo ou gozo supremo que aboliria nossa tão angustiante falta. As duas opções obscurecem o desejo e , quase sempre, nos fazem sofrer. Ignorá-lo nos faz criar maneiras substitutivas de realizá-lo, disfarçadamente ou numa linguagem técnica, sintomaticamente. Criamos um sintoma de onde podemos tirar certa satisfação, mas sem realizar o desejo que nos obrigaria inexoravelmente a lidar com a falta. O que fazer com ela? Ignorar ou tapar?

E voltamos ao Desejo...

Atentar ao desejo é aprender a lidar com nossa angustia. Com o nosso quinhão na terra dos humanos. Eis a tarefa humana; nós os trabalhadores de Sísifu . O desejo nos dá satisfação sim, mas é uma satisfação que fez as pazes com a falta e a angustia. Assim. O desejo sabe esperar o tempo certo. Não se contenta com as migalhas que o vício oferece para sempre nos cobrar mais. O desejo envolve muito mais trabalho, cansaço e aceitar algo tão dolorido, mas do qual não há como escapar: nossa castração. E o que quer dizer castração mesmo? Que não damos conta de tudo. De que a felicidade suprema e o prazer máximo inexistem. Que não podemos mais retornar ao Éden; que seus portões foram para sempre e amém fechados e proibidos para nós e que, a cada vez que tentamos nos aproximar deles encontramos as doloridas espadas falamejantes. E como são doloridas as bordoadas dos serafins. Atentar ao desejo é ter uma satisfação garantida; ainda que não seja sempre do nosso jeito, na nossa hora. Atentar ao desejo envolve sempre adiar um prazer temporário, mas que no fim das contas só nos faz gastar energias que poderiam ser usadas para uma satisfação mais definitiva e que nos realiza. Parece fácil, mas não é. Para nós humanos, realizar o que desejamos envolve ter a grande coragem de escolher. E escolher é sempre possível ainda que seja umas das maiores dores que devemos suportar: perder todas as outras tantas opções. Desejar é saber que teremos agora que sempre negociar com o destino, com os deuses, com a vida. Sísifu quis enfrentar os deuses e driblar a morte. Bem, já conhecemos a história—não deu muito certo. Driblou a morte duas vezes, mas como castigo foi obrigado a rolar sua grande pedra de mármore montanha acima sem nunca de fato conseguir chegar ao topo. Talvez o desejo tenha tudo a ver com aquilo que Nietzsche chamou de “ amor fati”. Para Nietzsche é esta a fórmula: amar o inevitável; o justo e o injusto, o amor e o desamor. Assim, ser antes de tudo um forte. Em suas palavras:

"Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo".

"Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas.

"Amor fati (amor ao destino): seja este, doravante, o meu amor." Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja ‘desviar o olhar’! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia apenas alguém que diz sim."

Viver de acordo com seu desejo, sem dúvidas, é dizer sim. Sim, sinto falta de algo. Sim, dói e eu não sei o que é. Sim, talvez jamais saberei e sim, sempre terei falta de algo. Sim, fui expulso do jardim e sim, agora terei que trabalhar arduamente para viver. Ainda assim, sim é possível ser feliz, mas nem sempre.

Saiba o que é a psicanálise AQUI

terça-feira, 16 de março de 2010

Not by power



“ Melhor o sofrimento legítimo que o prazer forçado”
Ah...Ensina-me Clarice e que eu te dê ouvidos. Tudo que é legítimo é bom e natural; já aquilo que vem porque lançamos mão de tudo que temos para simplesmente ter não vale nada, é bastardo. Jeová foi claro:
Não por força nem por violência, mas pelo Espírito...
Bom, não?

segunda-feira, 15 de março de 2010

Vale a pena ver de novo.

Este é um texto que escrevi e publiquei em setembro do ano passado referente ao meu rompimento com a dita igreja Evangélica. De tempos em tempos acho que é bom eu postá-lo para que fique claro minha posição, já que algumas pessoas ainda me confundem com evangélico por aí. Leia e entenda:

Finalmente a vida me conduziu a mais um momento de clivagem, como diria minha dileta amiga Sandra Helena. Os momentos de clivagem são pontos existenciais onde somos obrigados a nos posicionarmos perante a vida ou então desistir de continuar. No meu caso, jamais desisto de continuar, porque a auspiciosa saga do desejo é essa mesmo: cheia de conflitos, embates e principalmente resistência. Aquele que decide viver pela ética do seu desejo, daquilo que lhe impulsiona; aquele que decide sair da alienação fundamental na qual somos fundidos como seres falantes numa dada cultura sofrerá sempre o preço caro a pagar por sua singularidade. E nem todos estão dispostos a levar sua singularidade ao limite mais longínquo, mais além, mais duro do ser.

Outro caminho para aquele que se vê confrontado por esta convocação é de dar explicações e satisfações ontológicas, isto é, uma satisfação concernente ao seu ser. Esta não será mais minha escolha, visto que dar satisfações sobre quem você é somente nos recoloca na roda viva da alienação no desejo do outro. Não é este o caminho que persigo. Ao contrário, construo a cada dia meus próprios fundamentos, minha própria casa construída sobre a rocha, meu próprio discurso, minha própria teoria de viver...Meu próprio saber.

Insisti durante muitos anos com a instituição “Igreja evangélica”, talvez pelo fato de eu ter nascido e criado dentro dos portões da igreja. Entretanto, minha paixão espiritual nunca foi alimentada pela igreja. Sempre estive lá, mas Deus para mim sempre foi de uma ordem superior e fora da ordem, fora da ordem da igreja. Passei por um longo aprendizado de amar e aceitar diferentes formas de expressão da espiritualidade, inclusive os evangélico. Só que chegou um ponto no qual não posso mais negociar. Minha consciência de fé e Graça de vida não mais comporta os portões da Igreja evangélica. Assim, vejo que preciso romper seus portões, destruir seus fundamentos e abandonar seus umbrais. Irei para fora da cidade oferecer meu sacrifício.

O apóstolo Paulo nos diz que a fé é um bom combate. Eu estou disposto a lutar esta luta, até as últimas conseqüências. Não posso deixar de falar do que ouvi e do que eu vi do próprio Senhor Jesus. Junto Dele aprendi a tomar o Seu jugo e Seu fardo, porque dele vem leveza de vida e liberdade no coração. Aquele que vive pela Graça e a conhece vive com o seu Ser sempre perante Deus; somente com esta afirmação radical de sua essência é que alguém pode experimentar o que é ser o que se é perante Deus e ser por Ele aceito, sem restrições.

Eu tinha certeza que meus trinta anos seriam paradigmáticos. Estou próximo de minha morte existencial. Tal como Jesus aos trinta iniciou seu ministério e aos trinta e três morreu para este mundo, assim, começo minha lenta e definitiva morte existencial. Morrerei para as cadeias do Ser; romperei com qualquer coisa que caracterize meu ser. Ficarei somente com as possibilidades existências que se descortinarem. Morrei para toda rigidez do viver, para as autoflagelações do viver e das culpas atiçadas pelos homens.

A igreja evangélica morreu há muito tempo. Está como o povo que caminhou durante 40 anos... E todos morreram em sua mente obtusa e teimosa. Assim é esta igreja. Toda deve morrer, porque se o grão não morrer ele nada frutifica. Mas há homens que são verdadeiros profetas em suas gerações e que nelas habitam mesmo quando o mundo deles não é digno. Conheço alguns deles e me rejubilo porque vozes clamam neste deserto... Preparem o caminho.

Finalmente atingi o pronto que por tanto tempo almejei: morri para o este sistema e ele morreu para mim. Minha morte será lenta, minha ressurreição como uma floresta reflorestada. A “ igreja” não está mais em mim e eu não estou mais nela. Portanto, que eu não seja mais importunado como um representante da causa evangélica. Eu a nada represento a não ser um Reino invisível que só se manifesta nos corações simples e humildades. O rei está nu e seu manto invisível só é visto pelos simples de espírito. O trono está vazio, não há quem tome seu lugar. Sigo minha caminhada com certeza, fé e segurança. Em confiança em Deus e em mim. A verdade de uma alma só o sabe seu dono e ninguém é obrigado a dar satisfações de seu ser. Pelo menos não aqueles que já saíram do estádio primário de busca de amor em fontes externas a Deus e a si mesmo. O desejo sempre remete a um Outro, mas é preciso saber que este Outro não é completo, ele também é cortada pela impiedosa marca da falta.

Assim, hoje entro para a história de minha vida e do mundo. Jericó perdeu seus muros ao sonido das trombetas. Eu deixo seus portais e caminho rumo a minha cidade que tanto almejo, cidade cujo arquiteto e fundador é o próprio Deus. Aos que permanecem na “ igreja” reafirmo minha amizade e o meu respeito, pelo menos àqueles que de coração puro servem ao Espírito da verdade, mas minha convivência a terão fora dos portões dogmáticos de sua instituição. Meu ser se expandiu demais e não foi comportado pelos braços da religião. Me expulsei, fui parido como um natimorto e recebido fui pelo misericordioso Deus. Minha luta, porém continua junto a todos os homens de boa fé e boa vontade. Que ninguém chore por mim. Quando não me acharem mais no meio da grande congregação a resposta a minha ausência será somente uma:
“ por que procuram dentre os mortos aquele que vive”?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Para ler ao som de " Quase sem querer"

Escute enquanto lê:


: meu tempo é quando.


Recentemente recebi o conselho de que devo ser mais prático; tomar decisões que visem mais a eficácia, o melhor e o que deve ser feito. De repente é até um bom conselho. Mas, não sou eu. Gosto de quando perguntam pra Clarice, : Clarice, você escreve com a pretensão de mudar algo? . Ao que ela diz: Não muda nada...Não muda. Na verdade, nós não queremos mudar nada...na verdade, a gente quer é desabrochar, de uma forma ou de outra.

É verdade Clarice mui amada. Não fazemos nada para nada ou para obter resultado determinado. Fazemos as coisas porque não podemos ficar parados; porque o corpo e a alma pedem movimento. Se perguntarem aos animais porque eles vivem e fazem o que fazem eles não saberiam dizer, ou diriam simplesmente que fazem o que fazem para viver, pra não morrer. Eu, faço o que faço para viver; e enquanto faço vou vivendo as coisas que são para viver. “ Outros que contem passo por passo...”, não é isso Vinícios?

Desculpe se não sigo o conselho. De fato sou às avessas, sou lento, indeciso e conturbado. Ainda assim, é meu tempo, é meu desejo e sina. Um ser humano deve seguir sua sina, abraçar sua vida e destino e acalmar-se perante aquilo que inexoravelmente é. Que tanta força para mudar, pra lutar, pra provar que não se é mais criança. A música diz bem: “ provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém”.

De repente, de um salto, vazou meu espírito e ele me disse tudo que agora eu sei:

A gente sabe o que quer. Não há indecisão, mas há o medo. Não há insegurança, há perguntas e tentativas de agradar outros que não seu próprio desejo. E quando o medo e todas as armadilhas que armamos para nós se desvanecem, por um encanto podemos ver os raios lasers.

O que é estar bem na própria pele? É isso. Eureca Senhor, é isso mesmo. Estar bem na própria pele é decidir. O poder de uma decisão normalmente provoca terremotos, tá explicado então os tremores mundo a fora. É que uma decisão exclui todas as outras, mas abre muito mais do que exclui. Decididamente eu não sou daqueles que fazem as coisas com objetivos, alvos e metas. Minha meta é o longo e contínuo desabrochar da minha alma e nisto tenho sido, desde sempre excelentemente bem sucedido. Desde sempre o que eu quero é olhar, ver, sorver, aprender, cheira, mudar, conhecer e mudar...Mudar...mudar o tempo todo. Ver minha alma de outras formas. É a experiência? É isso viver momento a momento? É. É isso.

Não sou mais tão criança, mas se resta um bloco duro de infância porque não abraçá-lo? As coisas não mudam tanto, e a verdade está na infância mesmo. Vi isso, e foi só agora que eu vi. Que minha maior força está onde eu era criança. Quando somos crianças, todos sabemos decidi o que queremos. Sem sombra de dúvidas. Ainda não vivemos os papéis que assumidos achando que são os nossos. Alguns são personagens maravilhosos, outros malignos, mas nenhum é a criança que um dia fomos e que sabia bem a verdade de seu desejo, e tinha medo: tinha medo sem ter vergonha ou se desculpar por ter medo.

Ainda bem que eu vi, vi meu tempo; minha carne. Vi que as palavras bobas que aqui escrevo são minhas..Meu dito...Meu dizer. E é meu.
Não tenho prata nem outro , mas o que eu tenho eu te dou :

segunda-feira, 8 de março de 2010

Perséfone da terra ao Hades.


Mulheres sempre tiveram grande parte naquilo que sou e que me faço dia após dias. Os homens também, mas, felizmente não temos o dia do homem; assim que minha homenagem aos homens fica sendo eu mesmo ter nascido um.


Esforçar-me-ei para lembrar algumas delas que deixarem seu traço e marca em minha vida e me ensinaram que a mulher é fogo e sangue, por isso mesmo são dignas dos meus belos lamentos. Este post deve ficar bom ao som de Piaf ou Barbra, ambas tão gloriosas quanto suas vozes únicas e apaixonantes. Witney ou Britney também podem ser uma escolha um pouco mais pop, mas não menos extravagantes e cheias de desejo: o desejo de serem vistas, amadas e adoradas. Qual mulher não ama um olhar? Andam em sofreguidão à procura do certo olhar que lhe deixe plena de honrarias e luxos que lavam sua alma. Podem escolher também Bethânia ou Gal para som de fundo, então daria mais brasilidade para a alma do post ou quem sabe os fantasmas de Nara ou Maysa façam mais jus ao enigma da mulher brasileira? Escolha—tanto faz, todas nos abrem o buraco negro do que que é ser mulher. E somente elas é que sabem desse segredo, pois claro: é a confraria dos orgasmos múltiplos. Como não temer um ser que pode gozar mais do que nós? Reverência gente...Reverência!

Das minhas mulheres posso falar com propriedade--apossei-me de todas elas, de pedaço em pedaço...

Socorro. O nome vem em boa hora pois foi quando mais precisei que ela me apareceu. Doce e forte como a Gradiva de Jesen. Certamente ela é a “ mulher que avança”. Quando puder te darei uma réplica da estátua para colocares na tua nova sala querida amiga. Avançaste sobre minha vida como uma boa tormenta; daquelas chuvas preciosas numa noite de bons sonhos.

Minha querida Marta; meu fiel consolo quando vagava em busca de mim nas terras luminosas do Ceará. Ela foi e é luz em minha vida. Sua elegância e bom gosto não só no vestir, mas na escolha das palavras fazem dela minha querida pérola. Penso em Marta e vejo uma pérola: rara, frágil e de um poder que nem mesmo ela se dá conta. Te venero querida.

Sandra Helena. Nosso amor é complicado. Nós ainda não compreendemos o alcance desse laço que nos une. Algo primordial, visceral... De sangue, vinho e mágoas costurou nossa alma. Ela é a bela mãe; a afável mulher de Zeus. Eros galopante sempre a me resgatar. Há coisas, e ela bem o sabe, que só ela pode tirar de mim. Creio em ti amada mulher; tens meu olhos e eu tenho teu colo.

Nega Patrícia. De longos anos já nos conhecemos amada, mas só agora penetrei na tua pele e tua na minha. Tu me fazes crer que ainda há bálsamo em Gileade. Mulher dos ungüentos... Tuas palavras que tanto me curam. Engana-te que teu talento é a maternagem; teu dom é para todos. O útero que ampara; os braços honestos e firmes a manter sempre o ritmo para o outro. Que bom ter teu consolo e companhia segura sempre que preciso. Nada me negas, então saibas que em retorno nada te negarei. Pede-me e te darei as nações por herança.

Passemos aos fundamentos, às cortesãs de minh’alma. Minha querida avó, sempre tão nutritiva de afetos. Todas minhas boas memórias ainda são de minhas almejadas férias em sua casa. Os bons cheiros, comidas e bondade me acompanham por todos os dias.

“ Titia”, como chamamos a tia Irani, irmã de minha avó. Essa é a mulher a quem se aplica verdadeiramente a frase: “ bem nenhum negarás aos que vivem”. Ela nada nega. Mulher cheia de dádivas o tempo todo. Viveu para amar e certamente continuará assim—eis o sentido de sua vida e maior prazer. Sem titia nada do que foi feito se fez.

Das tias diretas tenho que falar da que carinhosamente chamo de Bob Marly. Tia Marlene. Um colosso de mulher; cheia de virtude e bondade. Enganam-se quem dela pensa fraqueza, porque ela pode ser tudo, menos fraca. É forte e foi forte até demais na vida; até os últimos limites. Ela é mãe mui amada e sempre totalmente dedicada à sua prole. Ela dá sim a vida por suas ovelhinhas. Querida tia, teu sobrinho de ama e respeita mais do que a todas. Que me desculpem as outras, mas você tem que ser a preferida.

E agora, vamos àquelas que me cravaram as unhas mais profundamente. Feriram-me de morte --Afrodite e Perséfone. Minha irmã Tássia. Louvo teu nome. Sua força e tenacidade me assustam. Jamais serei metade do que ela hoje já é, e no futuro, ela ainda mais gloriosa será por entre suas lágrimas abafadas. Ela é viva, eficaz e me corta ao meio quando preciso é. Ela já foi menor do que eu, mais fraca e necessitada, mas por ser mulher, esse infinito de submissão andou por sobre as águas. Ela opera milagres minha irmã querida. Não é exagero dizer,( e que todos saibam para que não esperem de mim nada quando a hora chegar) que sem ela jamais poderei viver. Que Deus te dê longa vida, a ti e a mim.

Mamãe. Clarice já disse e eu gosto de repetir: “ ter nascido me estragou a saúde”. Teu útero tão maravilhoso de onde eu nunca queria sair. E depois que saí tive que sair ainda mais . Porque pra viver essa vida temos que deixar a mãe; só que nunca mais somos os mesmos. Porque só somos felizes com nossas mães. Depois a vida se torna um marasmo e uma luta cotidiana enfadonha. Felicidade eu tinha quando era só eu e minha mãe. Feliz do que conheceram suas mães e sob suas saias passaram o maior tempo possível. Se fui criado debaixo das saias da minha mãe? Louvem-se os céus que sim! E disso me glorio porque foram os tempos mais felizes quando em criança eu era um com ela. Hoje meu amor continua grande e pra sempre, mas é que quando ficamos adultos as pessoas não vêem mais com bons olhos que os filhos dependam de suas mães. Assim, luto para partir e tomar as rédeas de minha vida. Mas, quem é filho homem sabe muito bem que nunca é fácil para um homem deixar sua mãe. Sejam sinceros, ao menos hoje. Minha mãe é a mulher por natureza: forte, altiva e sublime. Ela é sempre bela e jamais deve temer envelhecer pois os anos sempre lhe adornaram com mais elegância. Louvem-te os homens mulher virtuosa. Perséfone em seus cavalos.

domingo, 7 de março de 2010

The Oscar, art and true beauty.








Em meio a terremotos, inundações e tragédias humanitárias, glória a Deus nas alturas Avatar não ganha o Oscar de melhor filme. Ganhei renovada esperança de que a inteligência não está perdida e que há salvação enfim!


Avatar so ganho 3 Oscars, ao contrário do melodramático Titanic que levou 11 com o mesmo diretor, um horror. 


Quanta esperança! Um filme independente, no qual não foram gastos os 250 milhões utilizados para gravar Avatar, ganha 6 prêmios, inclusive o de melhor filme e melhor diretor. Uma mulher, pela primeira vez ganha o prêmio de melhor diretor! Uma negra, gorda e fora de forma ganha o prêmio de melhor atriz coadjuvante. Outra negra, mais gorda ainda, feia e completamente fora dos padrões de Hollywood é indicada ao lado de monstros sagrados como Merly Streep.


Fiquei satisfeitíssimo com as premiações. Rubens Edvald Filho ( este insuportável comentador. Glória ao Pai pela TV a cabo consegui dar mudo na tradução sofrível que ele faz) disse que a academia deu um tiro no pé ao não dar o Oscar a Avatar já que foi o filme de maior bilheteria e maior orçamento. Bem, Rubens não é tão confiante na redenção das coisas como eu. A academia foi justa e como em poucas vezes premiou cinema ao invés de puro entretenimento. Avatar é bom pra entreter, mas cinema não é só isso: é também arte e cultura e por isso deve causar algo além de estupor e muita pipoca. Arte autêntica vai além do sensorial, atinge, causa e faz avançar algum novo saber. 

 Tal foi o que me aconteceu ao assistir neste sábado o belíssimo filme    “ A single man”, traduzido dramáticamente como “ Direito de amar”. A tradução para o português mata completamente a espinha dorsal do filme: seu niilismo e a inexorável solidão da vida. O filme é charmoso, inteligente e muito, muito elegante. Não há como sair dele sem querer tomar um gim tônica e bater papo até altas horas. Foi assim que sai do cinema com minha dileta amiga Patrícia Fonseca, companheira fiel de minha vida cultural. Mais ainda, o filme foge a todos os clichês que o homem comum relaciona a uma relação homossexual. A maneira sutil como o amor entre iguais é tratado no filme devolve a dignidade ao amor homoerótico ao mesmo tempo em que nos mostra que os dilemas da personagem principal não são os de um homem gay e sim que são dilemas de todos nós homens humanos que perante a força da vida não podemos nada a não ser, depois de termos tentado tudo, sucumbir. 


Trailler


segunda-feira, 1 de março de 2010

O MSN e o Grande Outro.

Vejo a janelinha de contatos do MSN subir e lembro-me do Grande Outro. Conceito lacaniano que designa o Outro da linguagem; aquele que nos introduz no mundo da fala e por ser tão precioso abre-nos o mundo do tesouro dos significantes. Nascemos “ programados” para falar, entretanto, a relação que temos com a palavra- com a linguagem não vem programada, herdamos de todas as gerações que nos falaram e , principalmente daqueles com os quais aprendemos a falar. Falar não envolve somente proferir sons, mas há de se levar em consideração o prazer amarrado a cada palavra-significante. Como diria Lacan, falar não quer dizer nada, na verdade, a fala é um caminho de gozo: goza-se das palavras- aí está um prazer imenso ao brincar com elas, uma descarga de prazer mortífero. E nada faz mentir que as palavras têm poder! E poder de morte.

Mas, onde entra a janelinha do MSN?  

O Outro por ter tamanha missão é poderoso; ele encarna em ossos e sangue o verdadeiro Grande Outro que é a linguagem per si. O mundo infinito de dizeres- a grande cadeia de significantes pretendentes a um sentido. Assim, aprendemos o gozo da fala nos alienando no discurso do Outro. É ele quem tem o poder de dar alguma consistência subjetiva a cada um de nós. Isto é, o Outro nos dá consistência ao que chamamos de Ser.  É daí que vem o poder de uma janelinha subindo: quem vem lá? Quem conclama minha fala agora? A quem devo falar agora? Pra quem pagar a dívida de ser falante? Sim, porque todos nós estamos em dívida com a linguagem, com o Outro. E como saná-la? Eis um dos objetivos de uma psicanálise :deitar no divã e empreender a grande lutar da desubjetivação. Em outras palavras: no divã, perdemos nossa tão amada consistência e perde também o Outro seu grande poder de nos alienar.
Tento ser mais claro: chamo de nossa consistência tudo aquilo que acreditamos sermos. O que chamamos de nosso “ eu”.  Acreditamos sermos muita coisa e nisso tudo há todas as nossas exigências ao outro e à vida. Daí porque quando a vida se mostrar como ela é nós pulamos longe! É que achamos que é nosso direito termos aquilo que queremos. Resquícios de como fomos amamentados? Não só, mas também. Eis aí a mãe entrando em cena: viva ou morta.

O Outro também deve perder sua consistência em uma análise. Passamos a acreditar menos no Outro;esperar menos e a colocar muito menos nossa fé no poder que tem o Outro de nos dar algum sentido. Já somos donos das palavras, agora, resta-nos sermos donos da nossa história. Escrevê-la de punho próprio e, necessariamente, na solidão de uma escolha. Nunca somos tão solitários quando da tomada de uma decisão. Eis a angustia e ela cobra alto preço.  
As janelinhas do MSN são virtuais e como não compará-las ao Outro quando ele mesmo é virtual? A linguagem não existe concretamente, a não ser quando num corpo qualquer a lhe falar. Ela é virtual, mas é. É assim que uma janelinha que sobe pode balizar o quantum de poder ainda tem o Outro sobre nós e o quanto estamos ainda a ele alienados.

E você? Quando sobe a janelinha vê moinhos ou dragões?