Sisifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549.
Eis o que sempre se apresenta num divã: mas o que é desejar? Pergunta que me faço sempre e que escuto sempre da maioria dos pacientes. Qual o sentido de desejar? O que é o desejo?
Eu mesmo já me propus estas questões tantas vezes e , confesso continuo a me questionar se faço o que desejo de fato. Ai de nós humanos que não fazemos o que desejamos e fazemos o que odiamos; que não amamos o que desejamos e amamos aquele por quem não temos desejo algum. Que sina. Que tragédia.
Conceitualmente eu poderia perder tempo tentando explicá-lo, entretanto, suspeito que “ desejo” seja algo que fuja a uma explicação racional. Tentemos despistar nossas resistências. Siga-me...
Conversando com meu querido amigo Felipe Pontes via MSN, em nossos famosos “papos analíticos” eis que ele me solta esta pérola: “ Amigo, atente ao Desejo!”. Ele, que não é analista nem aspirante, me sai com esta preciosidade. Parei por um instante e percebi duas coisas: primeiro que o desejo está aí, sempre conosco a nos dar pistas de seus reclames. Segundo, que nós temos uma cegueira própria de nossa humanidade e que raramente o percebemos ou se percebemos fazemos de tudo para ignorá-lo. E por que? Há! Eis a charada.
O desejo habita junto á falta, isto é, para que haja desejo é preciso que haja uma brecha, um oco, um vazio, um buraco- uma falta em nossa vida. Que há falta em todos nós disso ninguém duvida. A questão é como lidamos com ela. Uns a ignoram; outros passam a vida tentando preenchê-la de uma forma ou de outra. E nisto caem em grandes armadilhas porque tapar a falta é impossível. Daí tantos vícios, ou seja, o vício nada mais é algo que apresenta como pretendente a solucionar aquilo que nos falta, mas jamais cumpre a promessa sempre adiando. E a promessa nunca chega deixando-nos amarrados não só a um gozo, mas a uma promessa de um maior gozo ou gozo supremo que aboliria nossa tão angustiante falta. As duas opções obscurecem o desejo e , quase sempre, nos fazem sofrer. Ignorá-lo nos faz criar maneiras substitutivas de realizá-lo, disfarçadamente ou numa linguagem técnica, sintomaticamente. Criamos um sintoma de onde podemos tirar certa satisfação, mas sem realizar o desejo que nos obrigaria inexoravelmente a lidar com a falta. O que fazer com ela? Ignorar ou tapar?
E voltamos ao Desejo...
Atentar ao desejo é aprender a lidar com nossa angustia. Com o nosso quinhão na terra dos humanos. Eis a tarefa humana; nós os trabalhadores de Sísifu . O desejo nos dá satisfação sim, mas é uma satisfação que fez as pazes com a falta e a angustia. Assim. O desejo sabe esperar o tempo certo. Não se contenta com as migalhas que o vício oferece para sempre nos cobrar mais. O desejo envolve muito mais trabalho, cansaço e aceitar algo tão dolorido, mas do qual não há como escapar: nossa castração. E o que quer dizer castração mesmo? Que não damos conta de tudo. De que a felicidade suprema e o prazer máximo inexistem. Que não podemos mais retornar ao Éden; que seus portões foram para sempre e amém fechados e proibidos para nós e que, a cada vez que tentamos nos aproximar deles encontramos as doloridas espadas falamejantes. E como são doloridas as bordoadas dos serafins. Atentar ao desejo é ter uma satisfação garantida; ainda que não seja sempre do nosso jeito, na nossa hora. Atentar ao desejo envolve sempre adiar um prazer temporário, mas que no fim das contas só nos faz gastar energias que poderiam ser usadas para uma satisfação mais definitiva e que nos realiza. Parece fácil, mas não é. Para nós humanos, realizar o que desejamos envolve ter a grande coragem de escolher. E escolher é sempre possível ainda que seja umas das maiores dores que devemos suportar: perder todas as outras tantas opções. Desejar é saber que teremos agora que sempre negociar com o destino, com os deuses, com a vida. Sísifu quis enfrentar os deuses e driblar a morte. Bem, já conhecemos a história—não deu muito certo. Driblou a morte duas vezes, mas como castigo foi obrigado a rolar sua grande pedra de mármore montanha acima sem nunca de fato conseguir chegar ao topo. Talvez o desejo tenha tudo a ver com aquilo que Nietzsche chamou de “ amor fati”. Para Nietzsche é esta a fórmula: amar o inevitável; o justo e o injusto, o amor e o desamor. Assim, ser antes de tudo um forte. Em suas palavras:
"Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo"."Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas."Amor fati (amor ao destino): seja este, doravante, o meu amor." Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja ‘desviar o olhar’! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia apenas alguém que diz sim."
Viver de acordo com seu desejo, sem dúvidas, é dizer sim. Sim, sinto falta de algo. Sim, dói e eu não sei o que é. Sim, talvez jamais saberei e sim, sempre terei falta de algo. Sim, fui expulso do jardim e sim, agora terei que trabalhar arduamente para viver. Ainda assim, sim é possível ser feliz, mas nem sempre.
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