segunda-feira, 22 de março de 2010

Meu tempo, meu quando.

No início a sensação.

De estar sentado nesta cadeira, sentindo um peso atroz nas costas. A dor nas mãos, dedos e punho. E a dor no pescoço como se eu não fosse capaz de suportar e fosse sucumbir à queda. E que ao cair eu fosse perder todo o mundo; e caindo eu perdia o cosmos e sua vida, seus membros, os corpos, as músicas. E fico querendo ver tudo, sentir tudo e no excesso de sensações eu sinto que algo arrefece, se acalma. Talvez seja isso o encosto. Algo fantasmático que se apóia em mim e requerer que eu trabalhe. Sou o “ cavalo” por assim dizer...De forças maiores do que eu. No corpo uma agonia fervente que tenta explodir em meus dedos. Vontade de pertencer? De me encaixar? Aquilo que tememos isso nos acontece porque medo é o reverso do desejo. Foi ao escovar os dentes que eu vi tudo isso:

Que na vida, para vivê-la para si mesmo, ( tenho vivido tanto em função do outrem; tenho vivido minha vida para um outro além que me trará algum conforto — Ulisses querendo amarrar-se ao mastro; fugitivo das sereis. Ata-me de prazer) temos que prestar atenção em como escovamos os dentes. Cada movimento atentamente; olhar-se no espelho. Ver cada mancha no rosto, expressão: o triste olhar. E continuar a escovação, sem pressa e sem furor. Sem a exigência e pressão que colocamos sobre o tempo. Sobre as horas. Virginia nos diria: “....as horas....sempre as horas”. E prestando atenção em cada momento resistimos à força de destruição do tempo — o tempo nos pisa e nos faz ansiar. Ao menos a mim sim ele faz. Seria meu problema o tempo? É com o passar tedioso dos momentos que eu me angustio? Ou é porque o mundo tem tanta coisa pra mim? Ou é porque eu acho que o mundo tem algo para mim? Não tem nada.

Temos também que tomar chá e café, ainda que doa. Sentar-se; pernas cruzadas a tomar o chá. Sozinho com o barulho da chuva no telhado... E as gotas... Gota a gota de momento a cair. E o mundo fervendo. E os corpos também. E todas as aflições queimando seus ouvidos e você tomando seu chá com as gotas de chuvas a seus pés. Deixando que o mundo passe sem você. Consegues assim? Deixar que o mundo passe e aconteça sem você? Essa agonia quente que sinto é amor? É falta de amor? O que me queima por dentro e que não quer se dobrar ante aos meus apelos? Como admitir a grande impotência? Como ?!

“ admiti-la radicalmente”, foi o que ela me disse. Logo ela que por tanto tempo viu-se rasgada pelo ardor de Ser. E hoje curada da vontade de Ser apieda-se de mim e me diz: “ Admite sua impotência, radicalmente”. Eu agradeço querida. Mas, como fazê-lo? Como desistir de tudo? Como abandonar a crença no prazer? Sim, eu sei: gastamos cada vez mais energia para sentirmos cada vez menos prazer. É o mundo. Eis o sistema que engolfa. A questão é que cada um nasce com um mundo desses em si — a crença no prazer. Acreditamos que o silencio sufoca e a solidão é insuportável. Eu sei... Nunca resisti tudo isso até o sangue. Até onde eu poderia chegar? Só quem consegue suar sangue é servido por Serafins.

Perdoem a falta de sentido, mas eu precisava me libertar de alguma coisa hoje. É que quando acordei hoje, para me levantar, fiquei repetindo o tempo todo mentalmente: ergue-te! Ergue-te sobre a vida. Levanta-te. É preciso forçar uma rotina. Coloca-te de pé fraco homem! Encara a vida; encara-a de frente e sente o tempo cortando tudo.

E quando levantei o peso permanecia e o encosto continuava a exigir de mim o trabalho penoso. Tive que escrever minha gente. Perdoem-me por escrever; eu que não sou escritor escrevo na dor e quanto mais escrevo mais a intensifico com medo, com desejo. Aprendi agora que sentir medo e desejar é quase a mesma coisa, um o avesso do outro. Essa sensação de medo do perder as coisas. De não querer realizar a grande alforria de meu desejo e assim, deixá-lo finalmente livre para desejar.

Coração a mil. Ainda estou ludibriado mesmo sabendo toda a verdade sobre o que realmente se passa agora. Que agonia é perceber as coisas! Transtornado caminho em direção ao vazio; ao negro insípido da escolha fraca. Do sangue, do suor e da máscara. O que há por trás da opaca promessa do conforto: nada, não há nada. Aí, preciso dizer sim para o nada. Preciso dizer sim! O grande sim para uma maior impotência e então, aí ficar. Ai ficar.

Aí ficar. Momento após momento. As horas e as horas de ficar...

Um comentário:

  1. Você não resistirá se olhar tão fundo, com tanta acuidade e precisão. Desista da lucidez, esqueça-se na opacidade, no claro-escuro, na incoerência salvífica, no titubear, no balbuciar, em levantar, cair, chorar desesperadamente, depois levantar e ir lavar o rosto. Pra que serve a verdade, meu amor? Quem precisa dela depois de possuí-la? É como o gozo que te aprisiona, essa verdade que é um doer dos sentidos. O único mistério das coisas é haver quem pense no mistério. Vem que te acolho na minha ignorância e prepara-te para morrer um pouco. Aceita a perda...de ti no teu sonho fantasmático...Escuta-te perguntando: o que queres? Livra-te de ti.

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