segunda-feira, 1 de março de 2010

O MSN e o Grande Outro.

Vejo a janelinha de contatos do MSN subir e lembro-me do Grande Outro. Conceito lacaniano que designa o Outro da linguagem; aquele que nos introduz no mundo da fala e por ser tão precioso abre-nos o mundo do tesouro dos significantes. Nascemos “ programados” para falar, entretanto, a relação que temos com a palavra- com a linguagem não vem programada, herdamos de todas as gerações que nos falaram e , principalmente daqueles com os quais aprendemos a falar. Falar não envolve somente proferir sons, mas há de se levar em consideração o prazer amarrado a cada palavra-significante. Como diria Lacan, falar não quer dizer nada, na verdade, a fala é um caminho de gozo: goza-se das palavras- aí está um prazer imenso ao brincar com elas, uma descarga de prazer mortífero. E nada faz mentir que as palavras têm poder! E poder de morte.

Mas, onde entra a janelinha do MSN?  

O Outro por ter tamanha missão é poderoso; ele encarna em ossos e sangue o verdadeiro Grande Outro que é a linguagem per si. O mundo infinito de dizeres- a grande cadeia de significantes pretendentes a um sentido. Assim, aprendemos o gozo da fala nos alienando no discurso do Outro. É ele quem tem o poder de dar alguma consistência subjetiva a cada um de nós. Isto é, o Outro nos dá consistência ao que chamamos de Ser.  É daí que vem o poder de uma janelinha subindo: quem vem lá? Quem conclama minha fala agora? A quem devo falar agora? Pra quem pagar a dívida de ser falante? Sim, porque todos nós estamos em dívida com a linguagem, com o Outro. E como saná-la? Eis um dos objetivos de uma psicanálise :deitar no divã e empreender a grande lutar da desubjetivação. Em outras palavras: no divã, perdemos nossa tão amada consistência e perde também o Outro seu grande poder de nos alienar.
Tento ser mais claro: chamo de nossa consistência tudo aquilo que acreditamos sermos. O que chamamos de nosso “ eu”.  Acreditamos sermos muita coisa e nisso tudo há todas as nossas exigências ao outro e à vida. Daí porque quando a vida se mostrar como ela é nós pulamos longe! É que achamos que é nosso direito termos aquilo que queremos. Resquícios de como fomos amamentados? Não só, mas também. Eis aí a mãe entrando em cena: viva ou morta.

O Outro também deve perder sua consistência em uma análise. Passamos a acreditar menos no Outro;esperar menos e a colocar muito menos nossa fé no poder que tem o Outro de nos dar algum sentido. Já somos donos das palavras, agora, resta-nos sermos donos da nossa história. Escrevê-la de punho próprio e, necessariamente, na solidão de uma escolha. Nunca somos tão solitários quando da tomada de uma decisão. Eis a angustia e ela cobra alto preço.  
As janelinhas do MSN são virtuais e como não compará-las ao Outro quando ele mesmo é virtual? A linguagem não existe concretamente, a não ser quando num corpo qualquer a lhe falar. Ela é virtual, mas é. É assim que uma janelinha que sobe pode balizar o quantum de poder ainda tem o Outro sobre nós e o quanto estamos ainda a ele alienados.

E você? Quando sobe a janelinha vê moinhos ou dragões?


2 comentários:

  1. Oi Rafa.
    Eu achei este título super intrigante... estava intrigado quanto a relação entre eles.

    Certamente, os pontos que você mencionou são válidos. Pode-se dizer, então, que é o Outro que dá a significação ao fato de nos mantermos conectados?

    Enfim, depois de semanas e semanas consegui tempo para atualizar.

    abraços... fica bem.

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